Em primeira pessoa

Um ano na selva

Um relato autobiográfico e várias vozes
18 de março de 2015


*por Cristiane Tavares

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Um ano na selva, livro ilustrado escrito pela premiada autora da trilogia Jogos Vorazes, Suzanne Collins, traz o relato de uma experiência autobiográfica vivida por ela quando criança. Dirigido ao público infantil, o livro já ganhou inúmeros prêmios, dentre eles o Christopher Award. Filha de um oficial da força aérea americana, Collins viu o pai partir para a Guerra do Vietnã quando tinha apenas seis anos. Ele ficou fora de casa por um ano. A percepção confusa do que essa partida representou e os sentimentos que acompanharam a menina e sua família são retratados sob o ponto de vista infantil, em uma narrativa breve, que procura equilibrar, com recursos visuais, a presença do medo e da angústia.

Em uma entrevista concedida pela autora e pelo ilustrador James Proimos à editora norte-americana Scholastic Books, Collins revela aspectos do processo de escrita do livro. Ela tem guardada até hoje uma cesta onde colocava os postais enviados do Vietnã pelo pai e afirma que, ao mexer na cesta, lendo e relendo os cartões, pensava sempre “aqui há uma história a ser contada”. No entanto, parecia-lhe muito difícil achar um tom adequado para a narrativa: “O meu medo era que, com este assunto, o impulso fosse o de fazer uma arte muito sombria e séria. Por muito tempo, não consegui resolver o que fazer com isso.” O impasse se desfez em um encontro com o amigo James Proimos, ilustrador de livros infantis e roteirista de curtas e programas de TV destinados às crianças. “De repente, comecei a ver as artes através dos olhos dele e de suas ilustrações e, então, soube como escrever o livro”, conta a autora.

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Folheando Um ano na selva fica fácil entender do que fala Collins ao se referir ao papel das ilustrações de Proimos no livro. Em um primeiro nível de observação, enquanto a menina Suzy narra – de modo linear e em primeira pessoa – os acontecimentos que marcaram sua família naquele ano em que o pai fora para a guerra, as ilustrações acompanham a descrição destacando um ou outro elemento, já presentes no texto: a apresentação tradicional dos personagens que fazem parte da história (a família), a passagem do tempo nas folhas do calendário, a reprodução dos cartões-postais recebidos pelo pai, dentre outros. Destaca-se, no entanto, o segundo nível de observação que se dá nas páginas ilustradas de modo diferenciado, intercaladas ao longo do livro. São duplas de páginas em que as ilustrações – sem texto – abrem novo tempo-espaço na narrativa. Apresentam a selva imaginária para onde partiu o pai de Suzy, com todos os mistérios e fantasias que a informação fragmentada dos fatos que chega até a menina desencadeia. Há uma série de coisas que ela não entende, aos seis anos de idade: “onde fica o Vietnã? Um ano demora muito? Alguém diz que ele estará na selva.” A selva que a menina conhece é aquela na qual vivem seus personagens preferidos de desenho animado. É para esse espaço – familiar – que seus medos e angústias se deslocam.

As páginas que ilustram essa selva imaginária acompanham certa progressão da narrativa, na qual se intensificam os sentimentos de Suzy. Pode-se, por exemplo, ler apenas estes quatro pares de páginas ilustradas para se ter uma ideia de como o medo ocupa cada vez mais espaço em sua vida. O desencontro entre o que ela imagina, deseja e consegue entender se torna cada vez maior e isso se reflete na ilustração dessas páginas sem texto, sempre com fundo cinza-escuro, que as diferencia do restante do livro. Na primeira imagem ilustrada da selva, Suzy e seu gato Rascal a sobrevoam e avistam, coloridos, os animais queridos do desenho animado favorito: um elefante, um rinoceronte, um macaco e uma cobra. A imagem ingênua retrata as referências iniciais da menina. Conforme o tempo passa e a ausência do pai se acentua, as imagens que apresentam a selva imaginária se modificam, traduzindo sentimentos que são mencionados brevemente no texto. Suzy não entende, por exemplo, por que alguém lhe diz “Seu pai vai ficar bem” e por que ela ganha mais balas do que as outras crianças no Halloween. Mesmo sem entender, é capaz de perceber algo preocupante nestas mensagens cifradas. Isso se reflete, pouco a pouco, na ilustração, até o momento ápice em que os animais tão queridos e familiares se transformam em instrumentos de guerra, afugentando Suzy e Rascal.

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O recurso da selva imaginária ilustrada de modo diferenciado e intercalada em destaque ao longo do livro dialoga com outros recursos presentes no texto. O impacto da ausência do pai na família e todos os sentimentos de insegurança que provoca são expressos com delicadeza e, às vezes com humor, mantendo certa leveza para falar indiretamente de sentimentos fortes, como temor e saudade. Logo no início, há um exemplo: “Nós ficamos de olho na minha mãe. Só pra saber se ela pensa em ir para a selva também.” O trecho mais emblemático que faz uso desse recurso discursivo ocorre quando Suzy recebe um cartão-postal de aniversário, enviado pelo pai na data errada. Na verdade, era o dia do aniversário da irmã, cujos olhos são ‘da cor de chocolate derretido’, como os do pai. A tristeza de Suzy é acolhida pela mãe que lhe explica o quanto o pai deve estar exausto para confundir uma data tão importante. Em um único episódio, narrado de forma sucinta, sentimentos diversos e complexos são apresentados ao pequeno leitor sem que se precise nomeá-los explicitamente, muito menos explicá-los: o ciúme entre irmãos, o impacto psicológico da guerra, a dor e a tristeza.

Os cartões-postais espalhados pelas páginas do livro somam-se aos recursos textuais e visuais já citados, compondo uma terceira voz – a do pai ausente. E trazem à tona, de forma fragmentada, uma presença paterna confusa e amorosa. Nos textos dirigidos à Suzy em cada um dos postais, o pai se refere ao cotidiano da menina, perguntando pela escola e fazendo referências bem-humoradas ao gato Rascal, mas deixa transparecer, ao mesmo tempo, sua fragilidade. Um dos exemplos se encontra na forma de despedida usada repentinamente em um dos cartões: “Reze por mim.” Suzy estranha o pedido, mas identifica a urgência e o atende, rezando muito.

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Além das vozes que compõem a narrativa, expressas sobretudo na narradora-personagem, nas ilustrações da selva imaginária e nos cartões-postais que presentificam a voz paterna, o relato conversa ainda com uma outra história, extraída do poema The tale of Custard, the dragon, do poeta americano Ogden Nash. A menção ao autor e seu poema aparecem logo na primeira página do livro: o texto informa que o pai de Suzy costuma ler para ela os poemas deste autor e que o dragão Custard (traduzido como ‘Manjar’) é o personagem principal. No poema, trata-se de um dragão de estimação aparentemente covarde que pertence à menina Belinda e convive com outros animais –  um cão, um gato e um rato – muito mais corajosos que ele. Belinda se vê repentinamente atacada por piratas e é justamente o ‘covarde’ dragão que a salva de modo inusitado. Na última página do livro, depois que o pai regressa a casa, a mesma cena se repete e ele relê para Suzy este seu poema preferido. Suzy e Manjar têm, de fato, muitas coisas em comum: convivem paradoxalmente com o medo e com a coragem. Esta intertextualidade reiterada no início e no final do livro revela, de certa forma, mais uma possível chave, dentre tantas outras, para se conversar sobre o relato com leitores de qualquer idade: com que referências – literárias, subjetivas e socioeconômicas – dialogam as vozes que compõem Um ano na selva?

*Cristiane Tavares, 42, é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. É colaboradora permanente da revista Emília e do Caderno de Literatura da revista Brasileiros.

 

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