Conta aí

O superpoder de Luiza Trigo

Conta aí, com Pedro Martins
26 de setembro de 2016


Com o Skype ligado, a nossa distância de mais de 700km entre o interior de São Paulo e a Cidade Maravilhosa não parece real. Sempre com os cabelos tingidos em tons vibrantes, a entrevistada de hoje para a coluna Conta aí é “uma adulta que ainda não cresceu”, a estrela em ascensão Luiza Trigo! – ou apenas Luly, à sua preferência.

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Luiza Trigo: “As minhas personagens me fazem voltar ao tempo e viver hoje a minha adolescência.”

Com quatro livros publicados pelo selo Jovens Leitores da Editora Rocco, sua carreira literária começou em 2008, quando, ao ler Crepúsculo, ela sentiu insatisfação com Edward Cullen. O desagrado foi tamanho que deu asas à imaginação de Luiza e a levou a criar um personagem para chamar de seu, Felipe, que, mesmo sem brilhar à luz do dia, tornou-se a semente para Carnaval (2012), o seu primeiro livro.

Apesar de Stephenie Meyer ter sua parcela de colaboração, a grande inspiração, na realidade, veio de outra pessoa:

“Sou escritora porque li Harry Potter na adolescência. Aqueles livros eram os meus únicos amigos, e contar histórias se tornou um grande desejo. Até então, eu achava que seria através de filmes”, relembra a autora, formada em Cinema. “De repente, com o lançamento de Carnaval, me perguntei: será que realmente sei fazer isso?”

Quem respondeu à pergunta, entretanto, foram os leitores, com elogios e reações histéricas do tipo “cadê o próximo livro?!”. Então, foi questão de tempo para que a dúvida na cabeça da autora não fosse mais “devo escrever?”, mas sim “sobre o que escreverei?”.

Como a inspiração, a resposta veio sorrateiramente. Perto da assinatura do contrato, Luly foi convidada para fotografar uma atração de uma festa de quinze anos no Hotel Copacabana Palace. Apesar de inicialmente ter pensado em recusar, por fim acabou aceitando. Ainda bem; o ambiente a deixou maravilhada:

“No meu tempo de escola, eu sofria bullying, era chamada de feia. Para as duas, três festas de quinze anos que fui convidada, todas foram por pura educação. Em nenhuma eu estava entre amigas, me divertindo e descendo até o chão”, desabafa. “Com Meus 15 anos (2014), pude estar no lugar da melhor amiga, preparar a festa que nunca tive e me divertir.”

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O bullying, inclusive, está presente em seus escritos. E não só ele: ao decorrer dos livros, a autora também traz à tona outras conversas importantes – muitas delas relacionadas ao movimento feminista: “a cada dia me descubro mais feminista, e isso sempre estará enraizado nos meus livros.”

Em Na porta ao lado (2015), a grande mensagem é a de que, antes de ser feliz junto de alguém, você precisa aprender a ser feliz e se sentir completo sozinho – algo que, inclusive, faz deste o seu livro favorito.

Já nas entrelinhas de Uma canção para você (2016), a atenção se volta para a problemática dos relacionamentos abusivos: “não tem nada de fofo ou de engraçado nisso”, Luiza adverte.

Mas mesmo abordando alguns temas mais complexos, a autora deixa claro que não tem pretensão de mudar a vida de ninguém: “meu objetivo é tirar os meus leitores daquela carga de estresse altamente elevada a que sempre estão submetidos e diverti-los. Quando os ajudo, fico até surpresa e emocionada, pois é algo a mais.”

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E além das situações problemas com que as personagens da então trilogia Meus 15 anos têm de lidar, o incentivo à cultura é algo sempre presente nos livros de Luiza. Com uma narrativa permeada por indicações culturais, do clássico ao pop, a autora ainda batiza os capítulos com nomes de filmes, livros e músicas. E se engana quem pensa serem somente títulos blockbusters norte-americanos: “gosto muito de ser brasileira e deixar isso marcado nos meus livros”, afirma.

Beatriz, a debutante do primeiro livro, talvez seja a personagem mais nerdfighter de Luiza Trigo. Ela tem fome de conhecimento, de aprender, e, por isto, Luly confessa que é a personagem com quem mais se identifica: “quando eu era adolescente, não queria saber de estudar, mas atualmente há dias em que fico estudando ao invés de escrever. Gosto muito de História, aliás.”

Tão parecida as duas são que Bia também quer estudar Cinema. E falando nisso, aliás, será que algum dia veremos essas histórias nas telonas? Luiza, que fez especialização em desenvolvimento de roteiros em Nova York, no momento da conversa batalha para guardar segredos – “não posso contar nada! Não tente roubar informações!”, brinca –, mas, com persistência, um pequeno detalhe escapa: “a minha única condição para adaptar é que eu seja a roteirista.”

Hmm… o que será que está saindo da cozinha de ideias que é a cabeça de Luly?

Quanto aos livros, a autora adianta que em 2017 pretende dar uma pausa com as meninas de Meus 15 anos e dar espaço para outras criações: “às vezes vem alguma ideia e preciso recusá-la, dizer não é a sua vez”. Mas e aí? Sobre o que ela pretende escrever?

Personagens com superpoderes!

Sim, você leu certo! Mas sem ansiedade ainda. Luly deixa claro que tudo pode mudar e que, de qualquer maneira, este livro não começou a ser escrito ainda: “eu tenho como meta visitar dez escolas por mês, então, por questões de horário, normalmente passo o ano cozinhando uma ideia e, somente quando chegam as férias, começo a colocar no papel”. Pois é, as férias são motivo de alegria em dobro.

E já que pretende escrever sobre superpoderes, qual seria o de Luly? Com tantos segredos, realmente um deles poderia ajudá-la na empreitada: a invisibilidade. Mas calma lá, Luly! Volte aqui! Queremos acompanhar tudo o que você vem preparando pra gente!

pedromartinscontaaiPedro Martins, viciado em livros e filmes, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Quinzenalmente, ele conversa com os nossos autores e escreve a coluna Conta aí.

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