Somos fadas

24 de outubro de 2016


“– Quem é que te fez tão bonita?

– Fadaram-me.”

A beleza foi dada à jovem, concedida como um presente. Retirado de um conto de fadas, esse diálogo me fez pensar nas três fadas que presenteiam com dons uma princesa Aurora ainda bebê e, claro, na fada malévola que lhe lança uma maldição. Apesar de famosa, “A Bela Adormecida” não é a única narrativa de origem popular a trazer fadas como personagens. Curiosamente, elas marcam presença nas versões mais antigas de muitas outras narrativas, antes de serem substituídas por Nossa Senhora – influência do catolicismo – ou por simples velhinhas que brotam do nada e detêm inexplicáveis poderes sobrenaturais.

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A prova da importância das personagens feéricas está no próprio modo como até hoje chamamos esse tipo de história: contos de fadas, certo? Mesmo que, em muitos casos, nenhuma fada apareça na trama.

Considerando que o verbo “fadar” tem ainda o sentido de predizer, anunciar, predestinar, beneficiar, favorecer e dotar, será que sua origem estaria relacionada às fadas? Talvez.

Mesmo que não apresente nenhuma relação, isso não tira o fascínio que elas produzem em nós desde que a primeira fada resolveu bater suas asas no mundo da ficção. Em tantos contos, livros, filmes, séries, games e HQs, as personagens recebem abordagens diversas, embora a imagem mais forte ainda seja aquela que sempre as coloca como beldades tão boazinhas…

Entre os vários autores que preferem essa abordagem, temos a nossa querida Thalita Rebouças, que investe no bom humor com a espevitada Tatu, sua personagem feérica de Uma fada veio me visitar (livro que virou o filme É fada!). Indicada para o leitor mais novo, essa aventura traz a marca registrada da escritora: texto leve, diálogos divertidos e trama abordando problemas típicos da adolescência.

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Para Holly Black, a visão cor-de-rosa do mundo das fadas não poderia soar mais ingênua. Em sua trilogia “Fadas Ousadas e Modernas”, elas podem ser cruéis, muito mesmo, do tipo que só se preocupa em ter seus caprichos atendidos, aumentar a esfera de influência e, como consequência, subjugar cada vez mais criaturas fascinadas por sua beleza.

Kaye, a jovem heroína de “Tithe” e “Ironside”, transita em ambientes fétidos, violentos e decadentes, entre seres humanos e mágicos de intenções duvidosas, corrompidos e cheios de vícios. O próprio mundo feérico não corresponde àquela ideia de paraíso perfeito e moradia de criaturas felizes e esvoaçantes.

Holly Black gosta de surpreender, de quebrar expectativas, de provocar. Sua Kaye está longe de ser a donzela indefesa a ser salva pelo bonitão da série – o charmoso Roiben. Ela vai à luta, da mesma forma que Valerie, a protagonista do segundo volume da série, Valiant. Para fugir de uma situação terrível, Val, como a chamam, acaba nas ruas de Nova York, onde enfrenta a fome, o frio, seu vício numa misteriosa substância e, principalmente, o estranho povo que se esconde no mundo de ferro.

Essas duas garotas vencem a insegurança e se tornam fortes, crescendo com o próprio aprendizado. E, melhor, têm defeitos misturados às qualidades e erram tanto quanto acertam, mas enfrentam o que for preciso para salvarem quem amam e, de quebra, o mundo.

Numa época em que felizmente as mulheres passam a ocupar seus postos de protagonistas em pé de igualdade com os homens, Kaye e Val são bons exemplos de empoderamento feminino, ao lado das badaladas Tris na trilogia “Divergente”, de Veronica Roth, e Katniss em “Jogos Vorazes”, série de Suzanne Collins.

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De certa forma, esse empoderamento é refletido pelas fadas dos contos de fadas. Mais do que as bruxas e as feiticeiras, em geral retratadas como vilãs, elas são as personagens que no imaginário ficcional representam o feminino em seus inúmeros aspectos, da covardia à coragem, do ódio ao amor, da maldade à bondade, da fragilidade à força. Nessas histórias, surgem como mentoras, vilãs, heroínas, coadjuvantes. Podem ser ambíguas, bem-humoradas, grosseiras, gentis, vingativas, crianças, jovens, adultas ou idosas.

Enfim, as fadas podem ser tudo.

Como nós, mulheres, que exercemos os mais variados papéis sociais. Somos personagens de verdade, com seus erros e acertos, enfrentamos batalhas diárias e voamos alto, mesmo não tendo asas.

E, igual às fadas, sabemos que a magia está nos pequenos gestos, em cada detalhe. Até mesmo naquele sorriso que nos enche de vida, poder e esperança.

Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de 40 livros, inclusive obras finalistas do Prêmio Jabuti e reconhecidas com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Pela Rocco Jovens Leitores, já publicou Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura e Conexão Magia (esse em coautoria). É autora também de uma das séries pioneiras da literatura fantástica brasileira, A Caverna de Cristais. Mais informações em http://helenagomes-livros.blogspot.com.br

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