Ser normal é sermos quem realmente somos

22 de setembro de 2015


Tendo acabado minha leitura do livro A arte de ser normal, de Lisa Williamson, me reservo a responsabilidade de vir aqui, em poucas palavras, tentar discorrer sobre o impacto – extremamente positivo – que o livro teve em mim. Não é difícil perceber que as discussões sobre pessoas trans estão se proliferando, mas uma lacuna importante continua sem ser preenchida da forma como achamos mais adequada: a nossa infância e a forma como se deu a descoberta do nosso eu transexual nos desdobramentos infantis que, back in the day, construímos. O livro, felizmente, vem a ser certeiro nesse aspecto. As dúvidas, os medos e anseios da personagem principal muito me lembram momentos em que refleti sobre meus medos em conversar com meus pais, sobre as paixões platônicas que eu gostaria que me notassem e sobre a vontade, meio incansável, de procurar amigos(as) que pudessem entender a forma como eu gostaria de viver. No fim, tanto eu, quanto outras pessoas trans, naquele período, só queríamos o mesmo que a personagem principal do livro: a liberdade de sermos quem realmente somos.

MC

No livro, David Piper tenta, de sua forma, arquitetar, mesmo aos trancos e barrancos, o encontro do seu autorreconhecimento enquanto garota com a realização de conseguir externar isso para todos. Assim, sonhando em viver, plenamente, da forma como se reconhece. Isso se dá porque a transexualidade não consegue ser vivida às escuras, dentro dos famosos armários. Uma vez assumida como uma pessoa trans, todos à nossa volta vivem aquela (trans)formação junto conosco, e é justamente isso que leva a esse famigerado medo presente na vida de todos.

Confesso a dificuldade de escrever sobre o que mais me chamou atenção sem dar o famoso spoiler, mas uma coisa muito interessante que aconteceu comigo no processo de leitura foi a forma rápida com que devorei o livro. Eu sempre fui uma leitora assídua de material infantojuvenil, e o que mais prezo em minhas leituras é que aquele universo me prenda, que me transporte a ele, que eu consiga imaginar o que faria naquela determinada situação. E, ao longo de cada página de A arte de ser normal, isso, felizmente, aconteceu. Eu sentia vontade de entrar no livro, dar uma mexida na garota lá e dizer “Acorda, mulher! Vai ser feliz” ou então “Agarre esse homem!”, porque enquanto pisciana romântica, confesso que foi difícil não shippar os dois principais personagens.

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Fico muito feliz de, enfim, estar presenciando – assim torço – o lançamento do primeiro de muitos livros sobre transgêneros feito de uma forma humana, e de leitura leve e descontraída. Buscando não só fazer uma boa representação da pessoa trans, mas tentando fazer com que o leitor que ainda não teve contato com nossas questões venha a ter um olhar que seja diferente daquele a que, para nossa tristeza, estamos habituados.

Por mais que em alguns pontos eu preferisse trocar o emprego de certos termos, como “menina-menino biológica(o)”, nomenclaturas que devemos banir do nosso vocabulário, acredito que o livro tem um único grande “erro” que, no fim da leitura, fica evidente: ter acabado. Eu quero mais!!! (e de preferência com o casamento dos personagens principais).

Feliz de ter feito essa leitura, parabenizo a editora Rocco por estar apostando nesse tipo de projeto. Que, agora, consigamos (trans)formar nosso ler.

Maria Clara Araújo, militante afrotransfeminista, estudante de Pedagogia pela UFPE e colaboradora da revista Capitolina e Blogueiras Negras.

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