Artigo

Sobre heroínas e histórias

Vanessa Raposo escreve sobre revolucionárias, bruxas e guerreiras - a hora e a vez das mulheres e meninas protagonistas
19 de fevereiro de 2018


Foi-se a época em que só os meninos ficavam com a ação. Mulheres sempre existiram na ficção, mas até pouco tempo atrás você precisaria parar por alguns instantes para tentar lembrar de grandes heroínas em histórias com uma pitada extra de adrenalina.Mais presentes em tramas românticas – que, verdade seja dita, podem ser tão boas quanto; Jane Austen que o diga –, era raro ver uma menina nas aventuras, comédias ou histórias de ação que não estivesse ali em função de ser a namorada do herói, uma vilã hipersexualizada ou, no máximo, a clássica “cota” que existia para representar todas as mulheres (um tropo conhecido como “princípio de Smurfette”). Isso, claro, não deixou de existir e nem se limita aos livros: filmes, quadrinhos e videogames também ainda estão aprendendo com seus erros. Felizmente, a cultura é um organismo vivo que tanto se alimenta dos valores sociais de seu tempo, quanto contribui para que eles não se estagnem.

Ilustração de Kaol Porfírio – @kaolcaradeboi no Facebook.

Nos últimos anos, poucas questões foram colocadas em foco de forma mais intensa do que o feminismo, em especial suas vertentes queer e interseccional, e isso se reflete na maneira como a ficção é consumida, exigida e colocada como coisa política. Por exemplo, na Women’s March 2018 – protesto feminista que, nos Estados Unidos, também se posicionou contra as políticas raciais, imigratórias e de saúde do governo Trump –, podiam ser vistos cartazes bem-humorados alegando: “Sem a Hermione, o Harry teria morrido no primeiro livro.” Mais de dez anos após o fim da série Harry Potter (J.K. Rowling), Hermione é ainda hoje um dos exemplos mais marcantes de garota forte, inteligente e que, embora não seja a protagonista, não deixava nada a desejar em termos de importância.

Nachacha Kongudom, faz saudação com três dedos usada no filme ‘Jogos Vorazes’ em frente a cinema em Bangcoc, na Tailândia, durante protesto; ela foi detida pelo gesto, adotado pelos opositores ao golpe militar ocorrido no país (Foto: Sakchai Lalit/AP)

Outra personagem que também virou modelo para questões que ultrapassam os livros é a heroína Katniss de Jogos Vorazes (Suzanne Collins): em 2014 na Tailândia, o sinal de luto dos três dedos erguidos para o céu tornou-se um dos símbolos de resistência também na vida real. Difícil não pensar que a coragem de Katniss ao ser colocada diante de uma situação impossível contra um governo autoritário não tenha se tornado uma fonte de inspiração.

Não dá para saber o que o futuro vai nos trazer, mas uma coisa parece certa: as “garotas inspiradoras” vieram para ficar. E, continuando esta tendência, podemos nos empolgar com a perspectiva de novas heroínas fantásticas que estão chegando para marcar o seu lugar.

Série de fantasia instigante, com toques de conto de fadas e mitologia, protagonizada por uma heroína forte e independente.

Uma delas é Errin, a protagonista do segundo volume da série Herdeira da Morte, O príncipe adormecido, de Melinda Salisbury. De personalidade bem diferente da de Twylla, heroína também notável do primeiro volume da trilogia, Errin é uma garota que foi forçada a amadurecer e a tomar decisões complicadas por circunstâncias difíceis de uma vida em meio à pobreza e à guerra. Quando seu mundo é virado de cabeça para baixo, ela se dispõe a viajar através do reino, não apenas para garantir a sua sobrevivência como a de sua mãe.

A série Seeker acompanha a jornada de uma jovem heroína em luta contra o destino violento herdado de sua família.

Mas o caso mais interessante talvez seja o de Quin Kincaid, heroína da série Seeker (Arwen Elys Dayton), que chegou ao Brasil em 2016 e que ganha este mês continuação com o eletrizante A Viajante. Após as descobertas chocantes do primeiro livro, a aventura de Quin e de seu melhor amigo (e interesse romântico) Shinobu para desvendar os segredos dos clãs colocará o treinamento de uma vida inteira à prova. Quin é uma protagonista forte, e não apenas fisicamente: ela deixou relacionamentos abusivos para trás, e isso lhe rendeu cicatrizes. Enganada durante a vida inteira por sua própria família, a história de Quin possui uma nota pessoal melancólica com o potencial de ressoar em nossas próprias experiências. Sua jornada é uma jornada pela verdade elusiva, custe o que custar – e como custa.

Todas essas heroínas, novas e antigas, nos mostram como a ficção não é uma coisa que existe apenas quando interagimos diretamente com ela, mas algo que carregamos conosco mesmo depois de fecharmos o livro. Ela nos ajuda a considerar o mundo com outros olhos e a encontrar modelos em quem nos inspirar, principalmente quando são escassos em nossas vidas. A importância de meninas fortes e inteligentes, mas também gentis e corajosas, não pode ser subestimada. Gente como a gente: protagonistas de suas próprias histórias, ajuda valiosa para os amigos e sobreviventes vitoriosas.

Vanessa Raposo é formada em Produção Editorial e escrevia sobre jogos, tecnologia e feminismo para as revistas Capitolina e Ovelha. Acima de tudo, acredita no poder transformador das narrativas e da ficção.

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