Em primeira pessoa

POR QUE ESCREVI NANOOK?

por Gustavo Bernardo
15 de janeiro de 2016


Escrevi Nanook porque eu vi Nanook.

Há alguns anos, eu e minha mulher, Gisele, fizemos talvez a viagem das nossas vidas: para o Ártico canadense. No verão, chegamos a Ottawa, sob a agradável temperatura de 20ºC, e pegamos um pequeno avião para Pond Inlet, um povoado inuit ao norte da ilha de Baffin. Nesse povoado de pouco mais de mil moradores, a temperatura já estava a 0ºC. Entretanto, como era verão, não havia noite: os dias tinham 24 horas, direto.

eu

Eu!

Éramos cerca de dez pessoas. Thomas Lennartz, nosso guia, pediu que cada um dissesse o que esperava daquela viagem, que se chamava “Narwhal and Polar Bear Safari”. A maioria queria tirar muitas fotografias, com câmeras grandes e poderosas. Como a minha máquina fotográfica era pequenininha, eu disse que até que gostaria muito de ver um narval, o unicórnio dos mares, mas que o meu maior desejo era o de ver de perto, livre, no seu habitat, o maravilhoso urso-polar, o animal que os inuit chamam de “nanuk”. Contei a todos, no meu inglês capenga, mas com a ajuda da Gisele, que sou fascinado desde sempre por esse animal, em parte por conta do meu segundo nome, “Bernardo”, que significa “urso amável”, em parte porque ele representa para nós, brasileiros, o totalmente outro.

thomas

Esse é o Thomas Lennartz, homenageado no livro!

No dia seguinte, partimos para acampar sobre o mar. Isso mesmo: nós íamos acampar, por cerca de uma semana, sobre o mar congelado. Tomamos nosso transporte: trenós inuit, de madeira, conhecidos como “qamutik”, puxados não por huskies, mas sim por “snowmobiles”, isto é, por motocicletas com deslizadores, preparadas para a neve e o gelo. Andamos por cerca de 8 horas sobre o mar, pulando como cabritos sobre o gelo irregular, enquanto víamos paisagens de sonho. Quando chegamos ao acampamento, percebemos que as barracas eram protegidas do vento por um enorme “iceberg”, preso no gelo. Ou seja, tínhamos o nosso “personal iceberg”… Percebemos também que as barracas eram confortáveis, mas que o banheiro também era uma barraca. Como toda a água fora trazida do continente, não podia ser desperdiçada. Os homens tínhamos de fazer xixi fora da barraca, num dos vários buracos do gelo – por favor, não imaginem a cena.

Depois do jantar, achamos que não conseguiríamos dormir, porque o sol não se punha nunca!, mas acabamos dormindo muito bem, depois de esquentar a barraca com um aquecedorzinho de querosene. No dia seguinte, tomamos de novo os nossos “qamutik” e fomos visitar o “Bylot Island Migratory Bird Sanctuary”, uns penhascos altos à beira do mar congelado que atraem centenas de milhares de pássaros de muitas espécies diferentes, para ali depositarem seus ovos. Todos nos sentimos dentro daqueles documentários maravilhosos da “National Geographic”.

os qamutik

Os Qamutik

Um dos inuit que nos acompanhava subiu no penhasco e nos trouxe ovos de diferentes aves, todos muito coloridos e de todos os tamanhos. Ninguém queria sair dali, mas havia muito mais para ver e fotografar. Subimos nos trenós e deslizamos para o “floe edge”, ou seja, para o momento em que o gelo encontra o mar e poderíamos ver, com sorte, belugas e narvais. Não vimos as primeiras, mas vimos alguns narvais, com aquele chifre impressionante que, na verdade, não é um chifre, mas um longuíssimo dente. Antes disso, porém, no caminho, o holandês do grupo, chamado Erik, gritou para mim, de outro trenó à frente do nosso: “Gustavo, polar bear, polar bear, polar bear!”

urso

Meu urso-polar

Havíamos encontrado o urso-polar. Não vimos outro durante a viagem, mas aquele, um macho gigantesco, nas quatro patas mais alto do que eu, correspondeu a tanta expectativa. Saltamos dos trenós e ficamos a cerca de 200 metros dele, protegidos pelos inuit, devidamente armados. Enquanto Gisele e os demais tiravam muitas fotografias, eu me embasbacava. O animal, atracado com uma foca que havia acabado de caçar, não se incomodou com a nossa presença. Depois de muitos cliques, em vez de nos chamar para ir embora, Thomas disse que podíamos nos aproximar do urso mais uns 50 metros, porque ele já estava habituado conosco. Depois de mais uns 15 minutos, andamos outros tantos 50 metros. Daí a um tanto, chegamos a menos de 50 metros do animal. Que continuava sem se incomodar, ao contrário, até se exibia um pouco, rolando sobre o gelo e olhando de vez em quando para nós, como se posasse para as fotos. Eu continuava sem tirar fotografias, apenas contemplava o urso-polar e chorava, as lágrimas esquentando o rosto gelado.

Nanook_1

Uma frase veio a minha cabeça: estou vendo Deus. Eu estou vendo Deus.

Depois, ao estudar a relação entre literatura e teologia ao escrever o meu ensaio “A ficção de Deus”, soube que estava tendo uma experiência de epifania, quando o inteiramente outro de repente se mostra para nós. Essa experiência era ainda mais forte para mim, que não creio. Mas, antes mesmo de saber o nome da coisa, já naquela hora soube que escreveria alguma história sobre o que via e sentia. Passou mais de ano até a história tomar forma, juntando outra vivência epifânica: a de visitar as igrejas barrocas de Ouro Preto, em especial a de São Francisco de Assis. Foi assim que a neve e os ursos polares, além de outros animais do Ártico, foram parar em Ouro Preto, no Brasil – pelo menos dentro de Nanook, o meu romance.

Reparem: na língua dos inuit, o urso-polar é o “nanuk”, com “u”. “Nanook”, com dois “oo”, é outro ser, a ser descoberto na leitura do romance.

Naquela viagem gelada e de sonho, nós vimos apenas aquele urso polar, mas foi mais do que suficiente para lembrar pelo resto da vida. Voltamos para Pond Inlet alguns dias depois, quando recebemos um telefonema da nossa filha, Adriana, contando que ela acabara de ser convidada para integrar a equipe de “ice skaters”, de patinadores no gelo, do Disney On Ice – mas esta já é outra história, ainda mais bonita.

Tags1: , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *