Em primeira pessoa

Paranoicos e visionários

De George Orwell a G. Willow Wilson
20 de março de 2015


*por João Eduardo Veiga

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Paranoia é um transtorno de personalidade caracterizado por suspeitas generalizadas e ideias de perseguição. Existem tempos, no entanto, em que, para além da psiquiatria, a paranoia está no ar. Quem nunca teve a sensação de estar sendo monitorado ao perceber que o smartphone sabe com precisão onde você mora e trabalha? Ou pelo fato de o anúncio daquele produto quase comprado numa loja virtual passar a aparecer em todo site que você acessa? Não é espantoso, também, como os serviços de streaming conseguem sugerir músicas que batem exatamente com o seu gosto? Às vezes dá a impressão de que, como Sting cantava naquela velha canção do Police, tem alguém de olho em cada movimento que fazemos, em cada suspiro que damos, em cada palavra que dizemos.

Distopias, ETs e o fim do mundo

Tudo isso parece histeria – e quase sempre é. Mas em muitas ocasiões acaba revelando uma visão apurada da realidade. No pós-guerra, a paranoia social serviu de gatilho para obras literárias, hoje clássicas, como 1984, de George Orwell (1948), e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953). Ambas apresentam distopias que, cada uma a seu modo, tratam do cerceamento da liberdade e da privacidade em sociedades totalitárias. No futuro (do pretérito) de Orwell, todos devem amar de maneira incondicional o onisciente Grande Irmão (ele mesmo, o Big Brother), dono de qualquer verdade – inclusive a matemática (dois mais dois, se ele assim desejar, podem ser cinco). Bradbury, por sua vez, concebeu um mundo onde a palavra escrita foi banida e a principal função dos bombeiros é incendiar livros.

O cinema não foi tão sutil nas representações. Na Hollywood da década de 50, a iminência de uma guerra nuclear e a “ameaça comunista” se personificaram em monstros e ETs. Os testes atômicos eram capazes de criar formigas gigantes (O mundo em perigo) e despertar dinossauros no fundo do Atlântico (O monstro do mar). Já os montes de discos voadores que pousavam na Terra com interesses pouco amigáveis (A guerra dos mundosA ameaça que veio do espaço) explicitam o pavor dos norte-americanos ao que vinha de fora – Marte, Vênus… Cuba, União Soviética. Em inglês, a palavra alien pode significar, simplesmente, “estrangeiro”.

Nos anos 70, auge da Guerra Fria e em meio ao escândalo de Watergate, as intrigas de espionagem e as teorias conspiratórias deram o tom (caso de A tramaOs três dias do condor A conversação), enquanto no desfecho dos 90 houve um pequeno surto paranoico de causa um tanto esotérica: a chegada do novo milênio. O fim do mundo, quase sempre motivado por supercatástrofes naturais, esteve em voga em produções como Impacto profundoArmageddon e O dia depois de amanhã. O verdadeiro ponto de virada, porém, não foi o dia 31 de dezembro de 1999, mas 11 de setembro de 2001. Zumbis, super-heróis e agentes secretos (entre eles um revigorado James Bond) voltaram a se espalhar pela cultura de massa após a queda das Torres Gêmeas – metáforas, explícitas ou inconscientes, para uma realidade marcada pela insegurança generalizada.

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Bisbilhotagem oficial

Mas nada é capaz de assombrar – e, ao mesmo tempo, fascinar – como a tecnologia. A ideia de que ela poderia ser usada como forma de repressão, pelo monitoramento invasivo dos cidadãos, já estava presente em 1984. Mais recentemente, em séries de cinema como O exterminador do futuro e Matrix, as máquinas deixaram de ser um meio para a prática da tirania e se tornaram os próprios tiranos. Ainda que a tecnologia não tenha, até agora, literalmente se insurgido contra a humanidade, a paranoia de Orwell já se prova visionária.

Nunca foi segredo que os servidores da internet podem armazenar não só o que fazemos online como também aquilo que desistimos de fazer, mas dois anos atrás o mundo descobriu que a bisbilhotagem ia um pouco além: os Estados Unidos coletavam diariamente dados relacionados a ligações telefônicas de milhões de pessoas e tinham acesso a informações privadas como fotos e trocas de mensagens eletrônicas de usuários do Google, Facebook, Skype e até de jogos como Angry birds. Essa história, revelada por Edward Snowden, ex-funcionário da NSA, agência de segurança americana, virou filme, Citizenfour, ganhador este ano do Oscar de Melhor Documentário.

Tudo isso torna incontestável que hoje as possibilidades reais de monitoramento deixam a imaginação de George Orwell no chinelo. Nada mais natural, então, que a cultura popular reflita tal ansiedade. Nos livros, essa vigilância faz parte dos cenários distópicos de sucessos recentes como Jogos vorazes, de Suzanne Collins, Divergente, de Veronica Roth, e Legend, de Marie Lu, ou ainda de sátiras – não por isso menos perturbadoras – como Uma história de amor real e supertriste, de Gary Shteyngart, em que o papel do Grande Irmão é cumprido pelas mídias sociais nossas de cada dia.

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O invisível e os ultravisíveis

Já no premiado Alif, o invisível, lançado pelo selo Fantástica (saiba mais), a escritora americana G. Willow Wilson aborda a realidade pós-privacidade em um futuro próximo, muito próximo – semana que vem, talvez. O romance mostra um jovem hacker cujo trabalho é manter seus clientes, na maioria dissidentes, blindados à agressiva vigilância virtual do governo de seu país (uma nação do Oriente Médio nunca especificada). Especialista em literatura árabe e com uma carreira consagrada nos quadrinhos, a autora lança mão dessa experiência para, tanto na forma como no conteúdo, construir sua obra. A tecnologia é o ponto de partida de uma narrativa fantástica que, em uma abordagem dinâmica e lírica, utiliza o imaginário mitológico oriental para, amalgamando culturas e crenças, discutir questões sociais, políticas e filosóficas – tratando, acima de tudo, da liberdade.

Por outro lado, apesar de, nesse aspecto, a velha paranoia em relação à tecnologia ter se comprovado real, parece que a questão vem dia a dia deixando de ser uma preocupação. As denúncias de Snowden receberam imenso destaque na imprensa mundial, mas, de maneira geral, a população não deu muita bola. O que faz sentido: por que deveríamos nos importar com algo como invasão de privacidade quando passamos os dias revelando espontaneamente nossa intimidade nas redes?

“As pessoas não querem mais liberdade”, afirma o personagem A Mão, diretor de censura do Estado em Alif, o invisível. “Mesmo aquelas para quem a liberdade é uma espécie de religião têm medo dela, como acólitos trêmulos que fazem sacrifícios a algum deus pagão. (…) A liberdade é uma filosofia morta… O mundo está voltando ao seu estado natural, a regra do forte pelo fraco.” Será que, como diria George Orwell, finalmente amamos o Grande Irmão?

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*João Eduardo Veiga é jornalista.

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Comentários sobre "Paranoicos e visionários"

  1. Alif, o invisível, assim que for lançado comprarei!!! 🙂
    Anseio muitooo que a Rocco tambem lance um dia o livro Spark, de John Twelve Hawks. Trata do mesmo tema de vigilância e privacidade, e o senhor Hawks já tem tres livros traduzidos pela casa.

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