Artigo

O inesquecível poder de uma mulher

Por: Helena Gomes (*)
4 de outubro de 2017


Outro dia, numa série de TV, uma rival quis humilhar a irmã de um famoso vilão do universo dos super-heróis.– Atrás de um grande homem sempre existe uma grande mulher, não é mesmo? – zombou a rival.

– Não sei como é – retrucou a tal irmã, que é cientista e dona de uma empresa bilionária que ela mesma gerencia. – Nunca estive atrás de um homem.

Resposta com o timing perfeito nestes tempos de empoderamento feminino, ela carrega em si a consciência que a personagem tem em relação a si mesma e a seu papel na sociedade. O problema, na verdade, está no viés que a rival escolheu para querer humilhá-la: ela não ataca as suas habilidades como líder nem o seu parentesco com o famoso vilão.

O alvo do ataque é o gênero, o fato da vítima ser mulher. E uma das maneiras de tirar o poder de uma mulher é fazê-la acreditar na própria inferioridade, tornando-a cativa de dúvidas, mentiras e inseguranças.

Em A herdeira da morte, primeiro livro de uma série escrita por Melinda Salisbury, a protagonista vive literalmente como prisioneira em um castelo de um fictício reino medieval. Trancafiada por ser vista como a encarnação de uma deusa, a jovem Twylla enfrenta uma rotina sem liberdades e uma tarefa que a torna temida e odiada. Todo mês, ela é levada até a prisão e lá, com um simples toque, executa os condenados à morte. Ou seja, o seu toque é mortal.

Tal dom – ou maldição – proporciona a Twylla a certeza de que tudo o que lhe ensinaram faz sentido, que o seu destino é imutável e, portanto, inquestionável. Até que um dia um novo personagem vai derrubando suas certezas uma por uma ao lhe mostrar que há muito mais possibilidades no mundo lá fora, além das sombras que existem nas paredes do seu quarto.

O que gosto nesta protagonista é o seu crescimento pessoal a partir das próprias descobertas, do quanto conhecer a si mesma e a verdade por trás de uma rede complexa de mentiras faz com que ganhe poder para tomar decisões. Aos poucos, ela começa a se libertar, mesmo que o caminho para isso seja individual e lhe traga muito sofrimento.

Outra prisioneira é a desmemoriada Seraphina, a heroína de Inesquecível, livro de Jessica Brody. Encontrada milagrosamente viva entre os destroços de um avião que caiu em pleno Oceano Pacífico, a adolescente não tem nada que possa identificá-la. Não estava na lista de passageiros nem possui qualquer registro anterior que prove a sua existência.

O mistério só aumenta quando ela se percebe diferente dos demais. É mais veloz, mais forte, faz cálculos impressionantes, armazena informações como um banco de dados. Seraphina não parece humana, embora seja bastante humana.

Para piorar, ela esqueceu tudo sobre o seu passado. Então eis que surge um rapaz que lhe é estranhamente familiar…

Como Twylla, Seraphina também ganha a sua jornada pessoal de autoconhecimento, porém auxiliada pela intensidade de um grande amor inesquecível. É movida por essa força que ela vai se redescobrindo e desfazendo as mentiras que a cercam. Trata-se de uma boa história de suspense e mistério, daquelas que apontam para várias explicações até o leitor ser levado ao clímax e desvendar toda a trama.

Nos dois livros, as protagonistas se libertam de correntes imaginárias que desejam controlá-las, tirar as suas vozes e o seu livre-arbítrio. Cada uma a seu modo, elas descobrem que ser mulher não é motivo de humilhação.

Twylla e Seraphina são mulheres que podem estar sozinhas ou lado a lado com os homens, mas nunca numa posição de inferioridade.

(*) Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de 40 livros, inclusive obras finalistas do Prêmio Jabuti e reconhecidas com o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Pela Rocco Jovens Leitores, já publicou Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura e Conexão Magia (esse em coautoria). É autora também de uma das séries pioneiras da literatura fantástica brasileira, A Caverna de Cristais. Mais informações em seu site aqui.

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