Em primeira pessoa

Não é mera coincidência

por Carolina Pinho
9 de agosto de 2016


Uma grande desgraça aconteceu no mundo e isso moldou um futuro nada democrático. Essa é a base da grande maioria das distopias, tema tão explorado pela literatura e que adoro. Sou fã por vários motivos e o principal deles é o quanto é possível refletir sobre o hoje lendo sobre amanhãs tão cruéis.

Minha educação despótica literária começou com os clássicos, três deles para ser mais exata: Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451. Foram nessas páginas que comecei a fazer mais e mais conexões com a nossa realidade. Aldous Huxley criou um mundo onde o controle se dá pela felicidade, não seria a frase “It`s the economy, stupid” (é a economia, estúpido), cunhada pelo estrategista do ex-presidente americano Bill Clinton, a materialização disso? Quando a economia vai bem, os governantes são reeleitos com facilidade, vide os segundos mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Lula. Uma versão do controle pela felicidade, aqui a felicidade do consumo.

1984 é bem mais pop, talvez por um personagem seu ter virado nome de reality show, sei que é a distopia que mais me marcou. A ideia, pouco lembrada quando se fala do livro, de que o empobrecimento do vocabulário, via novilíngua, impedirá revoltas no futuro pelo simples motivo de que faltaram palavras para expressar e articular um sentimento de insatisfação. O controle através de uma educação pobre e ineficaz é a nossa versão do que George Orwell escreve. Nada mais próximo da nossa realidade.

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O que acho interessante e que representa bem o nosso tempo, em que a valorização está no novo, no jovem, na última tendência, é que o ressurgimento das distopias ocorrido no século XXI se deu com uma mudança fundamental: os protagonistas são todos adolescentes. Katniss, Tally ou Tris, não importa, todas são jovens mulheres que, ao longo de uma jornada heroica, salvam seus universos.  É interessante notar que todas essas heroínas surgiram poucos anos antes do movimento feminista voltar com toda a força.

Katniss luta bravamente para acabar com uma ditadura que segrega e subjuga a população de Panem. Luta contra Snow e Coin (ah, os nomes sugestivos Coin, moeda em inglês, representa uma outra face da mesma moeda), tem debates com Gail sobre a mais cruel das leis maquiavélicas, “os fins justificam os meios”, e ambos pagam caro por isso. Katniss é pela democracia, mesmo que a personagem não debata política ao longo do livro. Jogos Vorazes nos coloca frente a frente com uma série de questões políticas. A criação de símbolos e de “salvadores da pátria”, a utilização da propaganda, o desejo de justiçar os que oprimem. Está tudo nesta distopia adolescente.

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Em um momento em que temos um debate político nacional tão acirrado, em que ânimos estão exacerbados, é bom se voltar para os livros, mesmo os que contem as mais fantásticas distopias e ler alegorias de futuros nada promissores e reconhecer o que queremos combater.  Está tudo lá nas páginas, é só ler além delas.

* Carolina Pinho é jornalista e escreve para os blogs “Cheiro de livro” e “Nível épico“.

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Comentários sobre "Não é mera coincidência"

    • Olá, Sofia.
      Como a autora do texto diz: “Está tudo lá nas páginas, é só ler além delas.”
      A intenção é que a discussão continue com a leitura das distopias e livros do gênero por aí!
      Boas leituras!!!

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