Mergulhando em busca das águas-vivas

3 de maio de 2016


agua vivas

Tudo começou com a ideia de escrever sobre uma mergulhadora que encontrava nas profundezas do mar algo que ela não era capaz de entender. Ali eu ainda não sabia o que a história se tornaria, mas resolvi escrever para descobrir.

As águas-vivas não sabem de si, meu primeiro romance, é um livro sobre o oceano, que se passa todo no oceano. O que pode causar estranhamento é a questão: como uma brasiliense (daquela terra quase tão seca quanto cenário de Mad Max), que só conheceu o mar depois de adulta, foi se meter a escrever sobre o oceano?

Quando criança, eu imaginava que no futuro seria bióloga marinha – coisa que, a esta altura, você deve imaginar que não aconteceu. O que aconteceu foi a vida, que acabou me empurrando para as bandas da ficção. Mas o interesse e a curiosidade pela ciência continuaram comigo, assim como a inquietante pulguinha atrás da orelha que passou a me acompanhar quando descobri que 95% do nosso oceano é inexplorado.

Olha a dimensão disso: vivemos em um planeta em sua maior parte constituído de oceano e praticamente desconhecemos o que há nele. Chega a ser assustador. Mas, ao mesmo tempo, era algo fantástico: eu tinha um mundo inteiro para explorar e resolvi mergulhar nele.

“Foi quando você resolveu praticar mergulho?”, alguém da plateia imaginária pergunta. A verdade é que não, nunca fiz curso de mergulho e nunca mergulhei. Nem precisamos ir tão fundo: eu sequer sei nadar! Ou seja, se eu cair na água, estou perdida. Sério.

Mas o oceano que eu queria explorar era profundo demais. Saber nadar ou mergulhar de nada adiantaria, se é um lugar onde nem os mais experientes mergulhadores já chegaram; a pressão extrema das profundezas é inviável para o corpo humano.

Por eu ser uma nulidade em termos de mergulho, resolvi criar uma personagem que explorasse o oceano por mim. Por ser impossível mergulhar nas zonas abissais, resolvi criar uma tecnologia que tornasse possível minha mergulhadora chegar até lá.

Tive que ler e pesquisar muito para ter ideia de onde eu estava metendo Corina, a protagonista. De comunicação das baleias a mergulho em apneia, de zonas hidrotermais a efeitos da pressão em grandes profundidades, estudei de tudo e mais um pouco do que estava ao meu alcance sobre o oceano.

Além de ter sido divertido e apaixonante poder pesquisar sobre o tema, surgiram daí muitas ideias para a história que eu estava construindo na minha cabeça. Mas por se tratar de algo tão vasto e desconhecido, também me permiti inventar bastante no processo.

Eu já tinha os personagens e uma estrutura mais ou menos esboçada para a história quando resolvi que era hora de sentar e não parar de escrever enquanto não terminasse. Assim como os personagens ficam completamente imersos numa estação no fundo do oceano, também fiz minha própria imersão ao me dedicar durante um mês inteiro para escrever o livro. Foram dias tensos, sob muita pressão e isolamento; mas, ao final dos trinta dias, consegui terminar a história.

Claro que eu passaria os meses seguintes reescrevendo e melhorando, esculpindo e refinando. E, durante todo esse tempo, o livro permaneceu sem nome. Eu me referia a ele apenas como “livro do oceano” por questões práticas, porque nenhum dos nomes que eu tinha pensado até então me agradava.

Gosto muito de títulos que são meio frases. Mas não foi exatamente planejado chegar a um nome que fosse longo; simplesmente aconteceu.

As aguas vivas nao sabem de si

O título As águas-vivas não sabem de si surgiu de uma vez só, enquanto eu tomava café numa livraria – aparentemente, a cafeína ativou a combinação certa de neurônios. Anotei num guardanapo para depois adicionar à lista de possíveis nomes, onde permaneceu ainda por muito tempo antes de ser escolhido como o título do livro – justamente por ser um nome que levanta perguntas, assim como o próprio oceano quando olhei para ele lá atrás, enquanto o livro era apenas uma ideia.

O que há nas profundezas? Sobre o que cantam as baleias? Qual é a sensação de mergulhar tão fundo? As criaturas que vivem lá têm uma história? Sobre o que as águas-vivas sabem, afinal? Foi em busca dessas respostas que eu escrevi, equipada não de cilindro de oxigênio, mas de imaginação; o único equipamento que você vai precisar para mergulhar nessa história.

Em tempo. Entre as referências que me inspiraram, estão os livros “Vinte mil léguas submarinas”, “Moby Dick”, o filme “O Segredo do Abismo” e o documentário “Mission Blue”, claro. Mas foram simples imagens que me levaram a decidir que minha história estaria na parte mais abissal do oceano. Quer ver? Digite “bioluminescência” na busca de imagens do Google e me diga se aquilo não pede por uma história de ficção científica.

 

 

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Comentários sobre "Mergulhando em busca das águas-vivas"

  1. Olá Aline.
    Descobri o seu livro através de uma brother em comum – Thiago Maroca – li e confesso que, como amante da leitura, saboreei com prazer todo enredo e fiquei envolvido.
    Parabéns.

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