O que tá rolando

Mais amor, menos ódio!

26 de junho de 2015


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Nas últimas semanas, dois casos de trolagem chamaram a atenção do mundo literário: John Green (Deixe a neve cair) e Cassandra Clare (Os instrumentos mortais) foram alvos de falsas acusações e ofensas, não apenas de haters (entenda o caso de John Green), mas inclusive de seus próprios fãs, no caso de Clare (saiba mais aqui). Como resultado, autores muito queridos como Maureen Johnson (Deixe a neve cair), Samantha Shannon (The Bone Season) e Holly Black usaram as redes para manifestar sua solidariedade:

“Estou cansada de ver meus amigos serem forçados a explicar que são pessoas reais e não caricaturas convenientes. Cansada de vê-los serem tratados como vassalos que devem aguentar o que quer que as pessoas queiram neles projetar. É um modo profundamente problemático de ver as pessoas”, disse Black em seu Tumblr.

Infelizmente, os casos de John Green e Cassandra Clare são apenas gotas no oceano de ataques abusivos aos quais não apenas celebridades, mas todos nós estamos sujeitos.

De body shame (ridicularizar alguém por causa de seu corpo) a revenge porn (compartilhamento de imagens íntimas), ofensas gratuitas são cada vez mais frequentes e o verbo “trollar” parece ter entrado de vez para o nosso vocabulário. Assim como as criaturas da mitologia nórdica conhecidas por seus ataques a seres indefesos, os “trolls” modernos se aproveitam da – falsa, mesmo que temporária – “capa de invisibilidade” que a internet oferece para machucar, constranger, pregar o ódio contra quem não se encaixa no que consideram “normal” ou “aceitável”, contra quem ousa ter opiniões diferentes das suas. Não apenas somos vítimas, mas também – mesmo que inconscientemente – podemos ser os agressores, em diferentes níveis, como, por exemplo, quando chamamos outros fãs de posers ou usamos termos pejorativos para nos referir a quem gosta do que consideramos ser “literatura inferior”.

A internet é uma importante plataforma de mobilização e permite as mais interessantes trocas e discussões construtivas, mas vale a máxima: respeito é bom e a gente gosta. Se há muito ódio por aí, há também MUITO amor. E é isso que nós queremos ver: distribua AMOR por aí!

Perguntamos para os nossos autores e blogueiros parceiros:

  • Você já foi vítima de algum ataque virtual?
  • Como combater o ódio?

As respostas vocês podem ver abaixo e, agora, gostaríamos de ouvir vocês também. Deixem seus comentários. 😉

Carolina Munhóz
Autora de O Reino das vozes que não se calam, com Sophia Abrahão, e do lançamento Por um toque de ouro (Fantástica Rocco)

“Infelizmente já fui vítima de ataques virtuais. O bullying que acabei sofrendo na adolescência em colégios acabou estendido para as redes sociais e tive de aprender a lidar com isso, da mesma maneira que as minhas personagens. Desde que entrei no ramo da literatura foram tantos que já perdi a conta, principalmente no início de carreira, quando comecei a me destacar. Até ameaça de morte já recebi. Mas forma que sempre buscaram mais tentar me atacar na internet foi através de velhos comentários machistas, afirmando que para chegar aonde cheguei precisei dormir com alguém. Triste, certo? Foram comunidades criadas, perfis falsos e até outras escritoras, por incrível que pareça. Entrei em um mercado que até então só existiam três homens em destaque e acabou que o destino me fez apaixonar por um deles, mas, ao ganhar destaque, muitos esqueceram ou nem mesmo procuraram descobrir sobre os anos que tive de ralação para conseguir o que estava conquistando. Muito antes de conhecer meu marido, já tinha um livro publicado e saído em boa parte dos maiores veículos de imprensa do Brasil, inclusive como destaque na revista Época. Cheguei a ser insultada por uma colega de profissão dizendo que só tinha conseguido esse tipo de destaque por marketing e por ser casada com um escritor famoso. O mais irônico era que a mesma pessoa havia me entrevistado e pedido livro de graça quando eu ainda não era conhecida no mercado. Uma pessoa que se intitula feminista. Infelizmente em nosso mundo muitas vezes parece que uma mulher não pode conseguir os méritos por si própria, e a sociedade precisa diminuir seus ganhos. Até mesmo de pessoas que eram para estar ao seu lado torcendo por um mercado melhor e maior.”

Combati esse tipo de atitude de uma forma diferente dos autores americanos: meu método foi o silêncio. Aprendi que, na internet, se você rebate aquilo se espalha, acaba dando voz ao hater. Vejo muitas injustiças e inverdades, mas se fosse apontá-las, estaria apenas divulgando isso. Em vez de reter o ódio apenas aos hater e seus dez amigos, acabaria espalhando-o para os meus leitores e a eles quero espalhar apenas amor.

É engraçado que hoje escuto muito a frase: “Nossa! Você é simpática!”

Algumas pessoas do meio literário me julgaram e até julgam hoje por comentários maldosos de internet como os citados, porém, ao me conhecerem pessoalmente, descobrem que não existe verdade naquilo. Sou uma mulher como qualquer outra. Trabalhadora e muito grata por tudo. Trato meus leitores como se fossem parte da minha família e luto todos os dias para me manter em uma profissão em que, infelizmente, são poucas pessoas em nosso país que podem viver.

Escrevo sempre sobre o bullying, pois essa é a ferramenta que tenho para me expressar. Se pela minha experiência através de uma personagem posso ajudar alguma pessoa, sinto-me com uma missão cumprida.”

Luiza Trigo
Autora de Carnaval, Meus 15 anos e do lançamento Na porta ao lado (Rocco Jovens Leitores)

“Eu queria muito responder ‘não’ para essa pergunta, mas infelizmente eu já fui vítima de um hater na internet. A vida virtual trouxe esse poder para as pessoas, que ficam menos acanhadas por detrás da telinha e se acham no direito de expressarem a sua opinião sobre qualquer assunto. Isso não seria um problema se eles respeitassem 1- o espaço do outro; 2- a opinião do outro; 3- o outro. As pessoas se esquecem que do outro lado da tela há também um ser humano com sentimentos iguais aos deles, que sofrem da mesma forma, que tem inseguranças e medos. Antes de escrever qualquer mensagem na internet, se coloque no lugar da pessoa que vai ler, pense como você se sentiria se a mesma mensagem fosse para você. É assim que eu faço sempre, inclusive com aquela menina que resolveu arrumar tempo para entrar no meu Instagram e dizer que eu estava gorda demais.  Minha mãe me ensinou que a nossa melhor defesa é a gentileza. Eles nunca esperam que sejamos gentis depois de palavras duras e ásperas e quando o fazemos, se sentem desarmados. Não podemos combater o ódio com mais ódio, nossa melhor arma é responder com muito amor.”

Raphael Draccon
Autor de Cemitérios de dragões (Fantástica Rocco)

“Hoje em dia ser uma figura pública envolve lidar com o amor, mas, principalmente, com o ódio nas redes sociais. O amor costuma vir privado, o ódio publicamente. Como o ódio sempre é mais fraco, ele precisa de reforço. O amor basta por si só. Já fui atacado virtualmente antes de estrear na literatura, a maior parte das vezes por escritores amadores que achavam que eu não merecia estar em um lugar que clamavam ser deles. Sempre achei esse detalhe bastante curioso, já que, em vez de clamar pelo lugar de alguém, simplesmente batalhei pelo meu. De qualquer maneira, hoje mantenho meu lugar, enquanto aquelas pessoas continuam reclamando do mundo real no mundo virtual, tantos anos depois. Sou melhor do que eles? Não sei, mas sei que suas atitudes são piores e não me espanta que seus resultados também.

O fato é que, quando se quer atacar alguém, as pessoas inventam coisas, distorcem, tiram do contexto, falam e escutam o que querem. Tudo fica muito mais fácil de lidar quando se entende que é desnecessário ficar tentando provar algo a alguém, pois as pessoas tomam como verdade aquilo que lhes convém. Além disso, a cada dez pessoas que se reúnem em um post de comunidade virtual de ódio, nós temos centenas em uma fila de Bienal, e outras milhares espalhadas pelo país. Apenas como citado, o ódio faz barulho, o amor é silencioso. Por isso a melhor maneira de se responder a um hater que lhe entrega barulho e fracasso é lhe devolver silêncio e conquistas, e não se preocupar com ele nem mesmo um quinto do que ele se preocupa com você.”

Thalita Rebouças
Autora da série de livros Fala Sério e 360 dias de sucesso, entre outros

“Acho que a melhor maneira de combater o ódio é espalhando amor. Outro dia aprendi uma espécie de mantra que devemos repetir pensando nas pessoas que nos agridem e adorei: ‘me perdoa. Eu te amo. Sinto muito. Obrigada’. Não sei quantas pessoas me odeiam (espero que pouquíssimas! rsrs), mas acho que jogar amor para os quatro cantos é sempre a melhor maneira de inibir o ódio. O que não pode é alimentar o ódio das pessoas, nem de ninguém. A vida é muito curta para esse tipo de sentimento.”

Camille Labanca
Blog Beletristas

“Acho que conheço pouquíssimas pessoas que não passaram por nenhuma situação problemática pela internet. Talvez por não estar cara a cara, outras pessoas se sintam mais dispostas a falar o que não falariam pessoalmente e demonstram um lado mais agressivo em vez de sentar e conversar a respeito visando resolver. É costume meu pensar nos motivos que levam alguém a fazer tal coisa, mas nunca sei direito como agir. Converso com meus amigos, escuto suas opiniões, respondo com educação quem não me respeitou e tento simplesmente deixar a vida seguir. Se alguém não me respeita, por que eu daria mais atenção que o necessário? Mais amor, por favor! O resto é desnecessário.”

Carolina Durães de Castro
Blog Viaje na Leitura

“Houve uma situação que me deixou desconfortável e que ocorreu por conta de uma resenha que escrevi. Sempre que eu escrevo uma resenha, me atenho à opinião sobre o livro e expondo exemplos do que eu gosto ou não gosto na história. Pois bem, acontece que alguns fãs da autora levaram a crítica para o lado pessoal, fazendo comentários que extrapolaram o conteúdo do livro/ resenha. Resumindo: fiquei muito triste com a situação e chegou a abalar a minha confiança.

Como combater o ódio?

Pela conscientização. Não é porque não estamos frente a frente da pessoa quando escrevemos algo, que devemos ignorar o fato de que é um ser humano que está do outro lado. E que essa pessoa tem sentimentos, problemas e emoções assim como nós também temos. Respeitar o próximo da mesma forma que gostaríamos de ser respeitados. Saber ouvir e expor sua opinião com pontos concordantes ou discordantes, mas baseado em fatos e não em ofensas.”

Gabrielle Alves
Blog Livros e citações

“Acho que todos já fomos vítimas de algum ataque virtual de alguma forma, pode ser algo leve a algo mais estrondoso, mas isso é tratado de forma tão corriqueira que muitas vezes decidimos passar adiante sem sequer pestanejar. Não há sequer o pensamento de tentar defender, debater e mostrar o quão errada é essa atitude.

A melhor forma de combater o ódio é não ignorá-lo. Você viu alguém com comentários preconceituosos hoje? Alguém ofendendo, diminuindo e menosprezando outra pessoa? Você pode acreditar que não, mas isso é muito corriqueiro, até no mundo dos livros. Abra qualquer publicação ou resenha em fanpages e você encontrará lá pessoas dizendo o que outras pessoas realmente devem ler, como elas são estúpidas por escolher ser ou amar algo, e você pode até concordar que tal livro é ruim mas jamais concordar com essa atitude. Não peço para que você vista uma roupa collant e crie superpoderes para mudar o mundo, basta combater de frente o preconceito e disseminação do ódio. Com pequenas atitudes, você vai conseguir algo grande.”

Robson Gabriel
Blog Perdido em palavras

“Nós blogueiros também somos pessoas reais e, muitas vezes, os leitores acabam esquecendo disso, esquecem que temos o mesmo direito deles de expressar nossa opinião nas redes (não só em nossos blogs, muito menos somente sobre livros). Quando isso ocorre, alguns acabam agredindo-nos e, sim, já sofri bullying virtual por expressar minha opinião sobre diversos assuntos. Dói? MUITO! Afinal, eu só queria deixar claro o que eu pensava de tal assunto. Já fui atacado por conseguir parcerias com editoras, por ser gordo ou por causa do meu cabelo e, não, isso não foi nada legal. ‘Ele não gostou de uma capa/livro/música? Ué, vamos xingar muito no twitter e dizer que ele é gordo.’

E só o que eu tenho a dizer é: parem, porque tá feio!

Uma das maiores armas contra esses propagadores de ódio é continuar fazendo o que gosta, pois apesar de existirem pessoas “trolls” como estas, tenha certeza que sempre tem alguém que admira o seu trabalho e leva em consideração aquilo que você escreve. E uma coisa é verdade, quando temos amigos bons e verdadeiros, não há hater capaz de destruir sua determinação e vontade de continuar.”

 

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