Torquatália: Do Lado de Dentro

Torquatália: Do Lado de Dentro

Coleção Coleção Marginália

Autor: TORQUATO NETO

Preço: R$ 48,50

368 pp. | 16x32 cm

ISBN: 85-325-1590-8

Assuntos: Biografia/Memórias/Diários, Coletâneas

Selo: Editora Rocco

É inestimável o valor de Torquatália, livro organizado pelo escritor e jornalista Paulo Roberto Pires em dois volumes – Do lado de dentro e Geléia Geral – que reúnem toda a obra escrita conhecida de Torquato Neto. Quando o assunto é tropicalismo, imprensa alternativa ou poesia marginal, é comum Torquato ser lembrado, sobretudo no meio acadêmico. Entretanto, poucos conhecem de fato sua colaboração à cultura brasileira. Uma das razões é a própria natureza plural e fragmentária de seu trabalho – Torquato era poeta, compositor, cineasta, ator e jornalista, dentre outras atividades, mas, ao morrer, em 1972, com 28 anos, não deixou livros publicados; o filme que dirigiu não estava montado; grande parte de suas composições não havia sido gravada; as colunas que assinou na imprensa existiam apenas nos arquivos caóticos dos jornais; a maioria das publicações alternativas que brindou com seu trabalho já estava definitivamente perdida. Agora, após um longo trabalho de pesquisa, os dois volumes de Torquatália resgatam todos os textos de Torquato Neto que foi possível localizar: poemas, letras de música, ensaios, roteiros de cinema e televisão, diário, cartas, anotações, críticas e textos jornalísticos.

Em 1973, um ano depois da morte de Torquato, os escritos do artista foram reunidos num livro póstumo de pouco mais de cem páginas, Os últimos dias de Paupéria, organizado por sua mulher, Ana Maria Duarte, e pelo amigo Waly Salomão. A segunda edição, de 1982, era bem mais completa, com cerca de 300 páginas. Mas o livro está esgotado há muitos anos, e as editoras que o publicaram não existem mais. Portanto, os textos de Torquato só podiam ser encontrados nas poucas bibliotecas que tivessem algum exemplar de Os últimos dias de Paupéria. Por outro lado, ao longo das duas décadas que se seguiram ao lançamento da segunda edição do livro, trabalhos desconhecidos do autor nunca pararam de vir à tona, encontrados nos arquivos pessoais de amigos, parentes e instituições. Todo esse material, inédito em livro ou não, está agora disponível em Torquatália, que soma quase 780 páginas de textos de Torquato Neto, com o objetivo de preservá-lo e apresentá-lo a gerações passadas e futuras que, de outro modo, só o conheceriam de ouvir falar, se tanto. Mesmo quem conviveu com ele nos anos 60 e 70 lerá pela primeira vez uma série de textos de sua autoria.

Do lado de dentro, o primeiro volume de Torquatália, já começa com poemas inéditos da adolescência de Torquato, escritos entre 1961 e 1962, mas que já antecipavam temas e procedimentos que marcariam sua obra. São preciosidades que, por muito tempo, permaneceram guardadas na casa de seus pais, em Teresina, no Piauí. Mesmo no capítulo dedicado à poesia madura de Torquato, há uma novidade: um poema inédito que só Ronaldo Bastos possuía.

Em seguida, o livro apresenta os primeiros manifestos tropicalistas de Torquato. O destaque aqui é o provável roteiro original de Vida, paixão e banana do tropicalismo, que deveria ter sido o primeiro programa de TV tropicalista, idealizado por Torquato e José Carlos Capinam em 1968. Na época, um desentendimento com o patrocinador fez com que o especial fosse ao ar com um conteúdo completamente diferente do previsto no roteiro. O nome também fora mudado, passando para Tropicália ou panis et circensis. Outra jóia deste capítulo é a transcrição de um diálogo delicioso com Rogério Duarte, poeta que influenciou decisivamente o movimento.

Torquatália – Do lado de dentro traz também o cancioneiro de Torquato. Enquanto a segunda edição de Os últimos dias de Paupéria trazia 16 letras de músicas, o lançamento da Rocco reúne mais de 40 composições do autor. Muita coisa foi descoberta apenas recentemente pelos parceiros de Torquato. Gilberto Gil, por exemplo, encontrou duas parcerias suas que estavam perdidas. A "nova" leva inclui também uma música composta com Caetano Veloso, jamais gravada. Há letras que Torquato pediu para Jards Macalé e Luiz Melodia musicarem, tarefa que só foi cumprida tardiamente. Go back é um dos exemplos de parceria póstuma – no caso, com Sérgio Brito, dos Titãs, que fez a canção a partir de poemas de Torquato. E é claro que também estão no livro suas clássicas Geléia geral, Mamãe coragem, Veleiro, Louvação e Marginália II, que se eternizaram na história da MPB.

No capítulo dedicado aos textos sobre cinema, o documento mais importante é o roteiro essencial de O terror da Vermelha, filme que Torquato rodou em super-oito no ano de sua morte. O trabalho foi revelado e montado postumamente, pelo parceiro Carlos Galvão, o que só foi possível devido às orientações contidas nesse texto.

Um dos pontos mais interessantes de Torquatália – Do lado de dentro é a correspondência de Torquato Neto. Uma longa troca de cartas com Hélio Oiticica, datadas de 1971 e 1972, só agora é publicada. São relatos de um período crítico tanto para Torquato quanto para o Brasil. Os escritos oferecem, em primeira pessoa, um panorama da imprensa alternativa carioca da época, um balanço afetivo e intelectual de Torquato em relação à Tropicália, os bastidores das colunas que ele assinava nos jornais, as estratégias para sobreviver num tempo de censura e um debate exaltado sobre a herança do Cinema Novo e os caminhos do udigrudi. "Além de seu valor histórico, as cartas Torquato-Hélio são um dos melhores exemplos de como acontece, na prática, o ideal romântico de fundir vida e arte", escreve Paulo Roberto Pires.

O capítulo intitulado Cadernos compila escritos esparsos, anotações diversas, idéias em fase embrionária e mesmo textos prontos de Torquato. Ele escrevia compulsivamente e guardava quase tudo, mas destruiu grande parte desse acervo caótico nos meses que antecederam sua morte. Torquatália reúne o material que foi salvo por Ana Maria Duarte.

Impressionante é a íntegra de O engenho de dentro, diário feito em 1971, durante o período que Torquato ficou internado voluntariamente no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro (RJ). É o registro de uma experiência-limite importantíssima para o artista.

O primeiro volume de Torquatália termina com uma cópia fac-similar da participação de Torquato no único número da revista Navilouca, criada em 1972 para ser porta-voz da geração que detonou o tropicalismo, mas também seu último suspiro. A revista só sairia em 1974, com Torquato já morto. Como escreve Paulo Roberto Pires, "era o início de uma intensa vida artística póstuma".

Geléia Geral, o segundo volume deste valioso inventário cultural, é dedicado exclusivamente aos textos que Torquato Neto escreveu na imprensa carioca e reúne todos os escritos da coluna Geléia Geral, publicada quase diariamente pelo jornal Última Hora entre agosto de 1971 e março de 1972. Inéditos em livro são a coluna Música popular e os textos de Torquato para o suplemento Plug. A primeira saía quase todos os dias no Jornal dos Sports, entre março e setembro de 1967, sendo posteriormente transferida para o mítico tablóide O Sol, imortalizado na canção Alegria, alegria, de Caetano Veloso, nos versos "O Sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia?". Plug, por sua vez, foi um suplemento cultural criado para ajudar a reerguer o combalido Correio da Manhã, mas não passou de junho de 1971.

Lidos em conjunto, esses textos feitos para a grande imprensa formam uma crônica fiel de uma época. Nas colunas, Torquato documentou os primeiros passos das carreiras de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Vitor Martins, Renato Teixeira, Luiz Melodia e tantos outros; resenhou, por exemplo, lançamentos de Chico Buarque, Nara Leão e Ataulfo Alves, além de aproveitar relançamentos de Noel Rosa, Sílvio Caldas e Lamartine Babo para enaltecer estes e outros mestres; antecipou letras ainda inéditas de Gil (Expresso 2222) e Chico (Roda viva); entrevistou Capinam, Nelson Motta, Sidney Miller e Reginaldo Bessa; expôs os bastidores dos festivais da canção, da indústria fonográfica e da arrecadação de direitos autorais; comentou shows antológicos de Norma Bengell, Baden Powell, Grande Otelo e Gal Costa (A todo vapor); falou mal do Cinema Novo e defendeu o cinema udigrudi e foi comentarista atento de tantos outros acontecimentos de destaque da época.

Os textos introdutórios de Paulo Roberto Pires contextualizam cada faceta desta obra tão fragmentada. E ao fim de cada volume é apresentada uma cronologia da vida de Torquato Neto e do Brasil em que ele viveu, para ajudar o leitor a compreender o legado do artista.

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O AUTOR

Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em 9 de novembro de 1944, em Teresina, Piauí. Em 1960, foi estudar em Salvador, onde conheceu artistas de vanguarda de diversas áreas. O trabalho como letrista e jornalista começou pra valer em 1965, quando já morava no Rio de Janeiro. Suas músicas logo seriam gravadas por Gilberto Gil (seu parceiro mais constante nas composições), Caetano Veloso, Gal Costa e Elis Regina, dentre outros. Em 1966, Torquato foi o roteirista do espetáculo Pois é, que reuniu Gil, Maria Bethânia e Vinícius de Moraes no teatro Opinião, no Rio. Entre 1966 e 1967, trabalhou no setor de divulgação da gravadora Philips e no setor de propaganda da Editora Abril. Sua atividade mais importante no período, entretanto, era a coluna Música popular, que assinava no Jornal dos Sports, sendo que Torquato também colaborava com diversos veículos da imprensa alternativa. Em 1968, o tropicalismo explodiu como movimento, tendo Torquato como uma de suas molas-mestras – o disco coletivo Tropicália ou panis et circensis, daquele ano, não apenas conta com composições de Torquato como também o traz na foto da capa, ao lado de todos os envolvidos no projeto. Defensor do cinema marginal, chegou a trabalhar como ator, por exemplo, no papel principal de Nosferato no Brasil, de Ivan Cardoso, em 1971. No ano seguinte, rodou seu próprio filme, O terror da Vermelha. Em paralelo, criou a famosa coluna Geléia Geral, pequena e discreta revolução na imprensa da época, publicada no jornal Última Hora. No mesmo ano de 1972, Torquato se suicidou, na madrugada seguinte ao seu aniversário de 28 anos.

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