No Princípio, Era a Roda

No Princípio, Era a Roda

Coleção Coleção Marginália

Autor: ROBERTO M. MOURA

Preço: R$ 43,00

272 pp. | 14x22 cm

ISBN: 85-325-1790-0

Assuntos: Ciências Sociais E Humanas, Ensaio, Música

Selo: Editora Rocco

Disponível em e-book

Preço: R$ 28,00

E-ISBN: 978-85-812-2396-4

Crítico musical, produtor e diretor de espetáculos musicais e jornalista de grande estirpe, Roberto M. Moura foi um especialista em cultura popular, especialmente a carioca, e, mais precisamente, um profundo conhecedor do samba. Não um conhecedor apenas de cátedra – que isso, diga-se de passagem, ele também era – mas um observador atento, apaixonado, do samba, o gênero musical, e, principalmente, de todas as relações presentes em sua origem e em seu entorno. Muitos bons trabalhos têm sido realizados sobre o ritmo, ou o conjunto de ritmos, brasileiro mais representativo. Muito tem se falado de sua trajetória, de sua origem, de seus baluartes. Mas nenhum deles aprofunda determinado aspecto, destrincha a sua essência, compreende a sua alma. É aí que está o grande diferencial de No princípio, era a roda.: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Neste livro definitivo, fruto de uma tese de doutorado em Música para a UNIRIO, ele partiu do princípio de que a roda é anterior ao samba desde que este nasceu na casa de Tia Ciata, na Praça Onze, ganhou forma no Estácio e espalhou-se pelo subúrbio carioca ganhando feições diferentes.

Roberto M. Moura demonstrou, seja através de suas pesquisas, de suas experiências pessoais, de que forma o sambista saiu de sua casa para criar nas escolas as continuações de seus quintais. Mostrou, através de letras de Cartola, Paulinho da Viola, Carlos Cachaça, Nei Lopes, Monarco e outros baluartes, a relação afetiva, visceral que estes compositores mantiveram com suas respectivas escolas até serem deixados de lado em prol de interesses de bicheiros, emissoras de televisão e tudo o que cerca hoje o desfile das escolas de samba. Sempre recorrendo à oposição complementar entre casa e rua sugerida pelo antropólogo Roberto DaMatta, ele conta como as rodas de samba de terreiro, mais tarde chamado de samba de quadra, reproduziam as relações mais íntimas, profundas, e como os sambistas representavam a nata da escola, a intelectualidade "mesmo muitas vezes iletrados", como lembram Nei Lopes e seu livro Sambeabá – o samba não se aprende na escola.

Através de um depoimento interessante de Monarco, exemplificou como, a partir do momento que as escolas passaram a representar a rua, com sua política de apadrinhamento, de troca de favores, virando uma instituição voltada para o dinheiro, o sambista passou a ficar cada vez mais distante, e foi procurar o seu ambiente, sempre em forma de roda de samba, em lugares como o Zicartola ou em espetáculos como o Rosa de Ouro e as noitadas de samba do Teatro Opinião. Não à toa o grande João Nogueira se afastou da Portela ao ser impedido de cantar um samba de meio de ano. Na ditadura das escolas, a partir de meados dos anos 60, só samba-enredo.

Menos pior que na lei própria e informal das rodas não há distinção. A hierarquia é respeitada não pelo sucesso ou pelo dinheiro que a pessoa tem, mas pela sua história dentro do samba. Curiosa também a forma como Roberto mostrou o funcionamento de uma roda. A explanação sobre a maneira de se chegar numa reunião de bambas, de ser aceito como um par, de fazer parte deste universo como mais um morador da "casa" é perfeita. Coisa de quem falava de dentro. De quem, há muito, já tinha sido aceito na roda. Enfim, a leitura de No princípio, era a roda.: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, apesar de este ser fruto de uma tese de doutorado e de envolver aspectos etnológicos, sociológicos e antropológicos, é, antes de tudo, um passeio maravilhoso por toda a história do samba. Um papo informal, direto e rico, como o próprio ritmo. Poucos poderiam fazer uma obra tão completa, pois Roberto adorava este trabalho de campo. Sua descrição da Festa da Penha, do quintal de Tia Ciata e do Cacique de Ramos é deliciosa, o que e faz pensar que, se antes do samba sempre existiu a roda, antes da primeira roda o mestre Roberto M. Moura já estava lá.

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O AUTOR

O jornalista, produtor e diretor de espetáculos, escritor, professor e crítico musical Roberto M. Moura, 58 anos, morreu na quarta-feira, 26 de outubro de 2005, no Rio de Janeiro, de falência múltipla dos órgãos.

Além da mulher Tereza Cristina, do casal de filhos e de outros parentes, compareceram ao funeral de Roberto, no cemitério do Caju, dezena de amigos, alunos e ex-alunos das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), jornalistas e representantes da ABI.

Roberto Moura trabalhou no semanário O Pasquim, nas revistas Veja Isto é, e Rio, Samba e Carnaval, também fazia parte do júri do Estandarte de Ouro concedido pelo jornal O Globo aos destaques dos desfiles das Escolas de Samba no Rio. Atualmente era comentarista da TVE e colunista do jornal Tribuna da Imprensa.

Grande estudioso de samba e comunicação, assuntos sobre os quais fazia conferências no Brasil e no exterior, deixou vários livros publicados, entre eles Praça Onze – no meio do caminho tinha as meninas do mangue; Carnaval – da redentora à praça do Apocalipse; Sobre cultura e mídia; MPB – caminhos da arte brasileira mais reconhecida no mundo, e No princípio, era a roda, publicado pela Rocco.

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