Fé em Deus e Pé na Tábua

Fé em Deus e Pé na Tábua

Coleção Dorothy tem que morrer

Autor: ROBERTO DAMATTA

Preço: R$ 25,00

192 pp. | 14x21 cm

ISBN: 978-85-325-2600-7

Assuntos: Assuntos Contemporâneos, Ciências Sociais E Humanas, Ensaio

Selo: Editora Rocco

Disponível em e-book

Preço: R$ 17,50

E-ISBN: 978-85-81220-71-0

O trânsito nas grandes cidades brasileiras é unanimemente considerado caótico – com uma alta carga de agressividade e violação das leis que causam um grande número de acidentes e mortes. À parte a responsabilidade do Estado pela manutenção das estradas e ruas, tanta tragédia sobre rodas pode ser atribuída principalmente à cultura do brasileiro em dispor do espaço público como seu e de mais ninguém. “Fechar”, “furar” e “dar um balão” são as versões do popular “jeitinho brasileiro” usadas por motoristas no dia a dia. O outro, aquele que é desconhecido, visto sempre como inimigo, é um sintoma do comportamento do brasileiro. O estudo da dinâmica do sistema de trânsito e como atuam e o que pensam seus atores (pedestres, motoristas, caminhoneiros, motoqueiros, ciclistas) deram origem ao ensaio inédito Fé em Deus e pé na tabua – ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil, do antropólogo Roberto DaMatta.

O livro é resultado das pesquisas encomendadas pelo governo do estado do Espírito Santo. O levantamento, realizado como parte do projeto Igualdade no Trânsito, foi feito entre maio de 2007 e janeiro de 2008, e tinha, entre seus instrumentos de coleta de informação, entrevistas qualitativas com motoristas, pedestres e outros usuários do espaço público. O estudo tinha como objetivo melhorar o trânsito na região da Grande Vitória.

Roberto DaMatta traça um panorama preocupante do comportamento do brasileiro – não só no volante, mas para além dele. Um comportamento com raízes profundas na constituição cultural do brasileiro. País com origem escravista e aristocrática, onde o espaço de convivência é usado de diferentes formas, dependendo da classe social. É a cultura da casa – onde reside o personalismo, a leniência e um sentido de autoridade – levada para a rua – onde as regras devem funcionar da mesma forma para todo mundo, para manutenção da ordem social. No Brasil, no entanto, os “donos da rua” fazem suas vítimas – nesta dinâmica, os pedestres –, cidadãos sem direito de exercer sua cidadania com a igualdade que um espaço que é de todos pede.

Para o autor, o automóvel é visto e usado justamente como instrumento de poder, dominação e divisão social. O motorista se sente burlador do sistema – as leis são para os outros – provocando caos social e no tráfego.  A “fechada”, o xingamento, a agressividade são reflexos claros do conceito do “sabe com quem está falando?”, prática comum no Brasil que, apesar de República, jamais perdeu sua cultura aristocrática. Diferentemente do que ocorre em países e culturas onde o espaço público é visto pelos cidadãos como pertencente a todos e, por isso mesmo, respeitado naturalmente, no Brasil, motoristas e até mesmo pedestres desrespeitam as regras do sistema criando, cada um à sua maneira, sua relação com a rua. Daí a dificuldade em se criar a cultura da direção defensiva, por exemplo, em que motoristas se antecipam às reações e ações dos outros motoristas. Afinal, quem tem que se preocupar com prevenção é sempre aquele ao seu lado. É ele que tem que abrir caminho para o “dono da rua”.

Com a lucidez de grande analista, Roberto DaMatta produz uma sociologia do trânsito e mostra um cenário que, embora seja duro de contemplar, desafia Estado e sociedade a deixarem para trás antigas práticas na busca de soluções.

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O AUTOR

Mestre e doutor pela Harvard University, Roberto DaMatta é professor titular de Antropologia Social do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, autor de mais de uma dezena de livros e colunista de dois dos mais importantes jornais do país: O Estado de S. Paulo e O Globo. Sua contribuição para a Antropologia e as Ciências Sociais é incontornável, pois ele se enquadra entre os mais argutos intérpretes do Brasil, ao mesmo título que Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro.

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