De a A X

De a A X

Coleção Foxcraft

Autor: JOHN BERGER

Preço: R$ 34,00

224 pp. | 13x19 cm

ISBN: 978-85-325-2523-9

Assuntos: Ficção – Romance/Novela

Selo: Editora Rocco

Na minúscula cela de uma prisão desativada, uma estante de escaninhos, montada com embalagens de cigarro Marlboro, guarda pacotes de cartas. Nas mensagens, a farmacêutica A’ida descreve ao amante preso, o mecânico Xavier, detalhes de seu cotidiano. Quer atualizá-lo sobre o que acontece na rotina de sua cidade — um vilarejo inventado, que pode ficar em qualquer lugar do mundo. Mas se empenha também no envio de imagens e lembranças que o ajudem a suportar o cárcere, onde cumpre pena perpétua por ser um dos membros fundadores de um grupo terrorista. No verso das cartas, Xavier faz anotações: o preço do ouro, os versos de um poeta inuíte, frases de Eduardo Galeano, índices da especulação financeira.

De A a X – Uma história contada em cartas concorreu, com outros 12 livros de ficção, ao Man Booker Prize de 2008. Marca a investida de John Berger, um dos mais prestigiados autores ingleses da atualidade, no romance epistolar. A crítica internacional identificou a escolha pelo gênero como um ato de resistência em si: em vez de e-mails, linhas escritas à mão. Uma forma de ressaltar o elogio às possibilidades de rebeldia cotidiana que é o próprio cerne da obra. E uma maneira, também, de entremear a conhecida delicadeza do autor, identificada não raro com a palavra “ternura”, ao seu também famoso hábito de expor, implacável, as mazelas de nossos tempos.

Em suas cartas, A’ida narra a Xavier a evolução de uma ameaça sem nome, um conflito indeterminado, que poderia ter como cenário o Oriente Médio ou a América Latina. Endereçando suas missivas a “mi guapo”, “ya nour” ou “mi soplete”, ela embaralha as possibilidades de identificação geográfica. Da mesma forma, cita lugares como Espanha, Cartago ou Romênia. Já Xavier, em suas anotações, nas costas das cartas, faz alusões a locais como Venezuela, Bolívia, Paris, Moscou e Mianmar.

Se a identidade e a localização de A’ida e Xavier são nebulosas, o seu tempo, porém, é indubitável: eles falam do contemporâneo. Em uma de suas notas, o encarcerado cita um discurso de Hugo Chávez em Moscou, em julho de 2006. Em outra, celebra a doação de terras a trabalhadores rurais na Bolívia, por Evo Morales. Também brinca com a perversidade das siglas da geopolítica contemporânea: “FMI BM GATT OMC NAFTA ALCA – seus acrônimos silenciam a língua, assim como suas ações sufocam o mundo”.

Diante desse giro cosmopolita, perfilam-se rituais antigos. A’ida os descreve com minimalismo poético, empenhada em enviar um pouco de seu encantamento ao amante preso: o jeito como a vizinha cata o feijão, o aroma de baunilha queimada da loja de doces, uma receita pessoal de geleia de cassis. Compõe, assim, um método próprio de resistência. Enquanto o inimigo — identificado genericamente como “eles” — carrega suas metralhadoras, a farmacêutica enumera, em sua escrita, esses pequenos atos de rebeldia cotidiana que montam a delicadeza do singular.

Por isso, De A a X tem sido celebrado não apenas como uma história de amor, mas, sobretudo, como uma mensagem contra a opressão. Em vez de identificar heróis e culpados, elabora um cuidadoso convite à tomada de consciência — este fruto que, em toda a prosa de Berger, aparece como extrato necessário do labor literário.

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O AUTOR

John Berger nasceu em Londres, em 1926, e faleceu em janeiro de 2017, aos 90 anos, em Paris. Aos 15 anos era anarquista. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando já era escritor, passou a ser duramente criticado por sua simpatia ao marxismo. Ele é famoso por suas obras de ficção – romances e contos – e não-ficção, em especial livros de crítica de arte. Destaque para Modos de ver, de 1972, referência para toda uma geração de historiadores da arte, ao refletir sobre a relação entre o que vemos e o que sabemos ou acreditamos. São também do autor: Terra nua, Uma vez in Europa e Fotocópias, todos publicados pela Rocco. Atualmente, vive nos Alpes franceses, praticamente recluso.

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