Anônimos

Anônimos

Coleção Dorothy tem que morrer

Autor: SILVIANO SANTIAGO

Preço: R$ 26,00

192 pp. | 14x21 cm

ISBN: 978-85-325-2581-9

Assuntos: Ficção – Conto, Ficção Nacional

Selo: Editora Rocco

Disponível em e-book

Preço: R$ 18,00

E-ISBN: 978-85-81221-53-3

É da matéria corriqueira dos dias que Silviano Santiago, em quase 50 anos de carreira literária, tem extraído seus personagens. Sua obra: um mosaico que explora a diversidade do tecido sócio-cultural brasileiro. Em geral e à primeira vista, são tipos envoltos pela macilência da rotina e pelas inquietudes da memória. Seres que experimentam o deslocamento e um sentimento de exílio muito peculiar, como tem apontado a crítica. Mas, sobretudo, tipos que, no desdobrar do texto, desvelam identidades densas, entrecortadas por pontos obscuros e, por isso mesmo, tão valorosas do ponto de vista literário. À luz do estilo de Santiago, o espaço íntimo — que diz tanto da sociedade brasileira — ganha dimensões simbólicas e traiçoeiras.

Cinco anos após a publicação de Histórias mal contadas, Santiago está de volta às narrativas breves. E está de volta também ao espaço majoritário de sua literatura: as terras amalgamadas nas quais se cruzam os personagens anônimos. Aqueles que, emaranhados aos percalços econômicos e à luta diária pela sobrevivência, experimentam, de forma sempre original, os sobressaltos da existência. Anônimos reúne dez histórias (segundo o sumário, nove contos e “uma homenagem” a Guimarães Rosa) cujos protagonistas, como o título do livro indica, não lembram em nada o rico e perdulário Walter de Heranças, último romance do autor (publicado em 2008, pela Rocco, e premiado pela Academia Brasileira de Letras). Entre seus personagens, um entregador de tecidos, uma supervisora de supermercado, um bancário, um órfão, um garçom aposentado, um revisor de jornal, uma atriz. Quando narradores são, quase todos, de fato, anônimos. Quando não, seus nomes dizem muito de sua condição: Modesto, Ceição Ceiçim. Em comum entre todos eles, a presença do ambiente doméstico com suas tensões, seus cerceamentos, suas alegrias e suas verdades subterrâneas.

No Rio de Janeiro de meados do século 20, um homem de classe média baixa descreve, desde a infância, seu talento para estafeta. Num conjugado de Copacabana, um garçom aposentado, voyeur de primeira hora, perscruta a agonia de uma dupla de cães no apartamento ao lado, que acontece em paralelo à agonia do romance de seus donos. Um bancário faz as contas de seu casamento tardio, numa narrativa na qual o orçamento doméstico é a linha condutora que permite o acesso à intimidade do casal e à alienação política. Num subúrbio de Belém do Pará, um adolescente sonha com raquetes de pingue-pongue e uma bicicleta, mas, até fugir pelo ônibus da Itapemirim para São Paulo, precisa se contentar em vender doces caseiros na porta do cinema. Em Belo Horizonte, um revisor de jornal descobre que é tão pilantra quanto o irmão gigolô de prostitutas, ao assumir que é prevaricador de atendentes, balconistas, secretárias e telefonistas.

Em Anônimos, Santiago lança mão do ordinário como ponto de partida para uma perturbadora poética da experiência popular. O processo de transformar cinzas em sabão, empreendido por uma das personagens, no fundo de uma casa pobre de Belém, torna-se a descrição de um ritual de puro encantamento. Assim como a solidão de um menino sonhador, filho único de uma família paupérrima, irradia traços de surrealismo. Ele recebe a visita de anjos, sonha “em tecnicolor com um bando de patos selvagens”.

Anônimos e corriqueiros, porém fugitivos do estribilho óbvio do cotidiano. Assim se perfilam os tipos que compõem mais este mosaico, pontuado por uma sagaz — e por vezes irônica — descrição de costumes tão brasileiros. Não só a transformação das cinzas em sabão, mas também os ritos da noite de Natal, os ingredientes da culinária de subsistência mineira, os trejeitos de uma ex-vedete da praça Tiradentes e certos patrulhamentos morais que, tão antigos, ainda podem ser tão contemporâneos.

Mergulhados nessas brasilidades, os personagens de Anônimos desfilam por itinerários que mesclam o real ao fictício. Nos cenários da maioria dos contos, pululam nesgas do Rio de Janeiro — um barzinho no calçadão da Avenida Atlântica, o boteco Belmonte, um apartamento na Barão da Torre, o Teatro Villa Lobos, as ruas da Lapa, um prédio de conjugados em Copacabana. Em outros, respira-se os ares de plagas diversas — as montanhas petropolitanas, a Praça da República de Belém do Pará, as ruas de Belo Horizonte. Mapas marcados por um vocabulário exuberante, que diz muito de seu entorno — cabrocha, bicho-carpinteiro, lambisgoia, rolinhas e sanhaços, bilboquê, beque limpa-trilhos. Um universo que, com a assinatura primordial de Santiago, à guisa de uma piscadela burlesca, é quase todo escrito em primeira pessoa.

Por Juliana Krapp, jornalista e poeta

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O AUTOR

Silviano Santiago é um dos mais prolíficos intelectuais brasileiros. Poucos autores conseguiram conjugar tão bem, e de forma tão definitiva, obras ficcionais e críticas. Escritor, poeta, professor, crítico literário e ensaísta, foi três vezes vencedor do Jabuti – com Em liberdade (romance, 1982), Uma história de família (romance, 1993) e Keith Jarrett no Blue Note (contos, 1997). Seu romance Heranças recebeu o Prêmio ABL de Ficção 2009 e ficou entre os finalistas do Jabuti e do Portugal Telecom. Suas obras foram traduzidas para o inglês, francês e espanhol.

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