Capa do livro Viagem a Florença

Viagem a Florença

Cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi

Autor: marco lucchesi

Preço: R$ 26,50

128 pp. | 14x21 cm

ISBN: 85-325-1596-7

Assuntos: CORRESPONDÊNCIA

Selo: Rocco

Lá se vão quatro anos desde a morte da Dra. Nise da Silveira, a notável psiquiatra de pensamentos e feitos revolucionários que também se notabilizou como uma das maiores pensadoras já nascidas no Brasil. Para o escritor Marco Lucchesi, Nise era ainda mais: uma amiga extremamente amorosa, fonte inesgotável de sabedoria e de palavras doces, afetuosas e sinceras em conversas que evidenciavam sua nobreza como ser humano e em cartas de grande valor literário. Numa bela homenagem, o autor agora compartilha com o público um pouco do que lhe coube da grandeza dessa mulher – no livro Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi, ele reúne toda a correspondência que a fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente lhe enviou ao longo de 13 anos de amizade.

Nascida em Maceió (AL), em 1905, Nise da Silveira foi a principal voz no Brasil contra os métodos psiquiátricos desumanos, como eletrochoques e comas induzidos. Nos anos 40, ela causou espanto e admiração ao fundar a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, onde os internos, antes maltratados, passaram a dispor de ateliês para várias atividades artísticas. Com o precioso acervo de arte criado na instituição, já exposto em diversos países, ela fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente. Nise acreditava que o ambiente hospitalar tradicional torna a cura mais difícil, o que também explica o fato de ela ter sempre estimulado o contato com animais no tratamento de alguns distúrbios. Em 1956, ela inaugurou a Casa das Palmeiras, inovadora clínica cujo objetivo era dar suporte às pessoas egressas do hospital, para facilitar sua reintegração à sociedade. Tudo isso foi depois de Nise passar um ano e quatro meses presa equivocadamente como integrante do Levante Comunista de 1935, e antes de ela publicar os livros que a tornariam respeitada na Europa como pesquisadora e intelectual.

As cartas de Nise da Silveira reunidas em Viagem a Florença podem ser encantadoras para os estudiosos de seu trabalho, mas também são capazes de emocionar os leitores que não tenham tido oportunidade de conhecer sua obra. Mesmo seus pequenos bilhetes, cartões e postais são plenos de poesia, filosofia, afeto, muita experiência e, não raro, brincadeiras brilhantes, como a simulação de uma carta de seu gato Leo à gata de estimação de Lucchesi, Beatrice. Tudo endereçado a seu "dilettissimo" amigo, sempre tratado por superlativos carinhosos. Lá está a Nise apaixonada por gatos, a Nise atenciosa com as pessoas queridas, a mulher que nutria um profundo respeito pelo ser humano, a sábia. A escritora Ana Miranda, em texto enviado a Lucchesi que agora está na orelha deste livro, sintetiza a experiência de se ler tal correspondência: "Tudo no mundo me pareceu banal diante das palavras que ela escreveu a você, ou quase tudo, tudo na vida é tão pequeno diante do caminho percorrido por aqueles bilhetes escritos com lágrimas, sangue, amor (...). Nise está viva, senti isso, sua alma e seu sorriso e seu cotidiano (...)." Paradoxalmente, o último bilhete de Nise a Lucchesi só comprova que Ana está certa: "a b c d não posso escrever mais. Estou muito doente, abandonada e tentando fazer amizade com a morte. Não é tão difícil."

Aos pesquisadores, Viagem a Florença permite acompanhar um pouco do trabalho realizado por Nise em seus últimos 13 anos de vida, entre 1987 e 1999: o prefácio que ela escreveu para o livro A paixão do infinito, de Lucchesi; uma entrevista concedida a ele sobre seu livro O mundo das imagens; seus comentários ao enviar ao amigo os textos que viriam a compor Cartas a Spinoza, um de seus títulos literários mais importantes, e muito mais. Em toda parte há referências a Marx, Freud, Jung, Baudelaire e outros clássicos que inspiraram seu pensamento durante toda a vida.

Embora as cartas de Lucchesi a Nise não tenham sido incluídas em Viagem a Florença, o texto também revela muito sobre o escritor, especialmente nos comentários da psiquiatra acerca de seus livros. Mas há trechos mais pessoais, como os bilhetes de Nise que tentavam consolá-lo pela morte da mãe: "Decerto Elena está caminhando numa estrada de luz. A única coisa que a poderá perturbar é a saudade de você, é saber que você está sofrendo tanto". E agora que Nise também se foi, suas próprias palavras escritas ficaram para confortar o querido amigo: "(...) Desejo de todo o coração que você saiba que estou sempre pensando em você, bem perto de você, no ar, nas nuvens".

Comente  
Instagram

O AUTOR

Marco Lucchesi, 39 anos, é carioca, poeta, ensaísta e tradutor. Publicou, dentre outros livros, Sphera, Poemas reunidos (finalista do Prêmio Jabuti em 2002), Os olhos do deserto, A sombra do Amado: poemas de Rûmî (Prêmio Jabuti em 2001), Saudades do paraíso, O sorriso do caos, Teatro alquímico (Prêmio Eduardo Frieiro em 2000), Faces da utopia, A paixão do infinito e Bizâncio (finalista do Jabuti em 1999). Na Itália, publicou Poesie (Prêmio Cilento) e Lucca dentro. Organizou as edições de Jerusalém libertada, de Torquato Tasso, e de Leopardi: poesia e prosa, Artaud, a nostalgia do mais e Caminhos do islã. Traduziu A ilha do dia anterior (finalista do Jabuti em 1996) e Baudolino (finalista do Jabuti em 2002), ambos de Umberto Eco, além de A ciência nova (Prêmio União Latina em 2000), de Vico, Gedichte an die Nacht, de Rilke e Trakl (Prêmio Paulo Rónai), Poemas, de Khliébnikov, Drei Geschichte, de Süsskind, Esboço do julgamento universal, de Foscolo, A trégua, de Primo Levi, Presto con fuoco, de Roberto Cotroneo. Seus poemas foram traduzidos em livro para o alemão por Curt Meyer-Clason, para o romeno por G. Popescu, para o espanhol por Rodolfo Alonso e para o persa por G. Fahmi.

Página do autor +