Capa do livro Mantendo um olho aberto

Mantendo um olho aberto

Ensaios sobre a arte

Autor: julian barnes

Tradução: Pedro Süssekind

Preço: R$ 44,90

264 pp. | 16x23 cm

ISBN: 978-85-69474-32-6

Assuntos: ENSAIO, HISTÓRIA DA ARTE/TEORIA DA ARTE

Selo: Anfiteatro

Disponível em e-book

Preço: R$ 29,90

E-ISBN: 978-85-69474-33-3

Por Alvaro Costa e Silva*


Para Julian Barnes, a maior ambição da arte é renovar a visão que temos do mundo. Nunca mais vamos olhar certos pintores e certos quadros da mesma maneira que fazíamos antes quando terminamos a leitura de Mantendo um olho aberto – Ensaios sobre a arte, que focaliza quase dois séculos de produção artística. De certa maneira, Barnes age como um professor, aquele melhor tipo de professor que consegue ensinar sem pedantismo e com eficiência porque transpira paixão pelo que comparte.

Nome incontornável da atual literatura britânica – de quem a Rocco publicou os principais livros no Brasil – Julian Barnes se aproximou da pintura lentamente. Na introdução da coletânea, ele conta que seu interesse foi despertado pelas obras de Gustave Moreau (1826-1898), o simbolista francês. Mas especificamente por uma visita fortuita ao Museu Gustave Moreau, em Paris. “Talvez eu admirasse Moreau especialmente porque ninguém tinha me dito para fazer isso. Mas foi certamente nesse lugar que eu me lembro de, pela primeira vez, observar pinturas conscientemente, em vez de me encontrar na presença delas de modo passivo e obediente”, escreve o romancista. É a primeira lição de Barnes: deixar-se levar, por conta própria, pelo mistério da pintura.

Esse impulso foi decisivo na hora de o escritor eleger o modernismo como seu movimento artístico predileto. A escolha é fácil de entender levando-se em conta que Gustave Flaubert (1821-1880) – constantemente citado no livro e, por coincidência, um grande amigo de Gustave Moreau – é um dos autores imprescindíveis na galeria de Barnes. Foi com o O papagaio de Flaubert, obra inclassificável e fascinante, que o autor ficou conhecido internacionalmente, em 1984.  Na pintura e na literatura, ele busca um equilíbrio entre o desejo de fazer o novo e um diálogo contínuo com o passado. Essa abordagem norteia os 17 ensaios, que vão de Eugéne Delacroix (1798-1863) e Paul Cézanne (1839-1906) a Lucian Freud (1922-2001).

Abre o livro um texto sobre A balsa da Medusa, de Théodore Géricault (1991-1824).  O quadro retrata trágico episódio: um naufrágio no norte da África deixou cerca de 150 pessoas sem lugares no bote salva-vidas; elas tiveram de se amontoar numa pequena jangada construída com tábuas e partes do mastro, a qual ficou à deriva em alto-mar. Um médico assumiu a liderança do grupo e passou a dissecar os corpos dos mortos para que servissem de alimento aos sobreviventes. Depois de 15 dias, eles enfim avistaram um navio no horizonte.

Julian Barnes narra em detalhes a história antes de interpretar a tela como uma representação da decadência do homem até a morte: “A estrutura emocional da obra de Géricault, a oscilação entre esperança e desespero, é reforçada pelo pigmento: a balsa contém áreas de iluminação brilhante em violento contraste com pedaços da mais profunda escuridão.”
Além das formulações analíticas, o autor fornece um perfil do criador, pincelando um aspecto da sua personalidade reconhecível na obra e contextualizando a época. Numa aproximação com a literatura, Barnes trata cada quadro como se fosse uma ficção e o artista, uma personagem.

Delacroix era a personificação da figura romântica: orgulho e insegurança, presença intensa e jeito sonhador, amor pelas honrarias e certa modéstia. Mestre dos jogos de luz e sombra, Édouard Manet (1832-1883) nem sempre foi “Manet”: prova disso é seu período católico. Cézanne, o radical inovador da arte no século 20, só ganhou sua primeira exposição individual em 1895, quando já tinha 56 anos. Freud, neto de Sigmund, o criador da psicanálise, é um artista cuja obra é difícil de separar de sua biografia, e por isso ele tentou apagar os traços de sua vida o mais que pôde.

O ambiente artístico hoje parece contaminado, excessivo, confuso. Para orientar o espectador comum, existem os cursos livres de história da arte, os catálogos especializados, as enormes filas e as visitas guiadas a galerias e museus, sem falar nas pesquisas disponíveis em milhares de sites da internet e aplicativos de celulares. Quanto tempo gastamos diante de uma boa pintura? Dez segundos, trinta segundos? Quanto tempo gastamos numa exposição de um artista consagrado com cerca de 300 itens? Julian Barnes faz essas perguntas no livro e ele mesmo calcula que, se forem gastos dois minutos com cada obra exibida, a soma chegaria a dez horas (sem pausa para almoçar, tomar um café ou ir ao banheiro). Com Mantendo um olho aberto, o leitor saberá aproveitar melhor o seu tempo. E nunca mais o mundo, ou a transfiguração do mundo num quadro, será o mesmo.

*Alvaro Costa e Silva é jornalista

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O AUTOR

Finamente irônico, à inglesa. Dono de uma prosa concisa e elegante, igualmente sensível e vigorosa. Julian Barnes é um dos principais autores britânicos de uma geração criativa e consistente surgida no início dos anos 1980.

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