Capa do livro Nada a Temer

Nada a Temer

Autor: julian barnes

Tradução: Léa Viveiros De Castro

Preço: R$ 38,00

256 pp. | 14x21 cm

ISBN: 978-85-325-2480-5

Assuntos: BIOGRAFIA/MEMÓRIAS/DIÁRIOS

Selo: Rocco

Nada a temer contém lembranças de família, um tanto sobre religião e, especialmente, digressões sobre seu medo da morte. Apesar de não ser exatamente uma autobiografia, como avisa o próprio autor, a maior parte das histórias narradas por Barnes são retiradas de suas memórias – e algumas delas são complementadas ou totalmente arrasadas por observações do irmão mais velho, filósofo, que costuma dizer não acreditar muito na memória como um guia para o passado, pois cada um se lembra de forma diferente das mesmas experiências.

Apesar dos frequentes “baldes de água fria” do irmão em suas recordações, Barnes apresenta aos leitores uma interessante teia de lembranças que vão da infância, na casa dos avós maternos, à idade adulta, quando, reunido com velhos amigos, discorre sobre a existência ou não do paraíso. Começa com histórias dos avós para chegar à mãe, mais especificamente ao dia do enterro da mãe. Sempre achara que ficaria mais triste com a morte do pai, pois gostava mais dele, mas ao enterrar a mãe, deu-se conta de que o enterro do pai havia sido apenas o enterro do pai, enquanto o da mãe era, na verdade, o enterro dos dois. A limpeza da casa que abrigara a história da família por décadas apenas reforçava a ideia do fim.

Mortos os pais e passada a barreira dos 60 anos, estaria ele agora mais perto da própria morte? Não que essa fosse uma ideia nova. Em suas memórias, revela que a morte habita seus pensamentos desde os 13 anos de idade. Ao ser questionado por um amigo sobre se ele pensava muito na morte, o escritor respondeu sem perder tempo: sim, pelo menos uma vez por dia, além de nas intermitentes crises noturnas. A solução para aliviar seu caso de tanatofobia achou ao longo da vida: melhorava ao encontrar um caso pior que o seu. Invariavalmente era o amigo G., que sempre achava que o seu medo da morte era maior do que o de qualquer outra pessoa.

Grande parte dos amigos são como o próprio autor, que aos 20 anos dizia-se ateu e aos 60 declara-se agnóstico – exceto P., que é católico. No tradicional almoço de sexta-feira, instituído há mais de 30 anos por jornalistas, romancistas, poetas e cartunistas, surge uma pergunta motivada pela notícia de que o papa aboliu o limbo. Sem acreditar que existe algo depois da morte, eles querem primeiro saber onde ficava e o que era o tal limbo. Toda essa introdução para perguntar a P., o católico, se ele acreditava em céu. Enquanto o companheiro responde, os outros começam a rever seus conceitos. Há alguns anos, todos teriam debochado da resposta, mas agora eles começam a se preocupar com o “nada” que lhes espera após a morte.

A ciência serve de consolo para Barnes nessas horas. Cientistas afirmam que todos estamos morrendo, até mesmo o sol, e que tudo que é feito agora algum dia cairá no esquecimento, sejam as lembranças que as pessoas carregam, sejam os livros de escritores famosos que um dia deixarão de ser lidos, sejam os túmulos nos cemitérios que um dia não receberão mais visitas. Chega a ser um tanto dramático ao afirmar que assim como todo escritor terá seu último leitor, todo cadáver terá um último visitante. Ao final, Nada a temer deixa o leitor com uma sensação ambígua: apesar do tom lúgubre de alguns trechos, o livro é um estímulo a aproveitar a vida enquanto não chega o dia que não pode ser evitado.

Comente  
Instagram

O AUTOR

Finamente irônico, à inglesa. Dono de uma prosa concisa e elegante, igualmente sensível e vigorosa. Julian Barnes é um dos principais autores britânicos de uma geração criativa e consistente surgida no início dos anos 1980.

Página do autor +