Capa do livro Os Lemmings e Outros

Os Lemmings e Outros

Coleção Otra Língua

Autor: fabian casas

Tradução: Jorge Wolff

Preço: R$ 29,50

160 pp. | 14x21 cm

ISBN: 978-85-325-2859-9

Assuntos: FICÇÃO – ROMANCE/NOVELA

Selo: Rocco

Disponível em e-book

Preço: R$ 20,50

E-ISBN: 978-85-812-2299-8

Com Os Lemmings e outros – título da coleção Otra Língua, com a qual a editora Rocco tem apresentado o melhor da literatura contemporânea escrita em espanhol nas Américas –, estamos no terreno do jogo literário. Ao narrador e poeta argentino Fabián Casas interessa mais fornecer certa visão dos acontecimentos do que a verdade nua e crua, e assim faz, como se brincasse com o leitor, ao longo dos oito relatos que compõem o livro.

Um deles, “Casa com dez pinheiros”, sintomaticamente abre assim: “Desde que comecei a publicar, as pessoas me perguntam: ‘Isto é autobiográfico, não é’ Ou: ‘O personagem é você, não é?’ De modo que vou começar dizendo que tudo o que vai se narrar aqui é absolutamente verídico. Aconteceu realmente como vou contar.”A arte de Fabián Casas é feita dessa forma que dissimula e que, ao mesmo tempo, hipnotiza quem está lendo. Por mais amargo e irônico que seja o relato, é impossível deixar de acompanhar as aventuras do narrador em primeira pessoa de “Casa com dez pinheiros”, encarregado de ciceronear o Grande Escritor, que mora em Paris, naturalmente, mas retorna a Buenos Aires para badalar seu último livro.


Na verdade, o Grande Escritor, “de nariz aquilino e barriga inflamada”, está mais preocupado com o sucesso de um tal Pablo Conejo, “mexicano que escreve livros de autoajuda que vendem como coca-cola”. Na contramão da moda literária que se compraz em fazer metalinguagem com a vida de autores e suas obras, Fabián Casas é desconcertante ao mostrar o quanto existe de bajulação, inveja e esnobismo em certo tipo de literatura oficial e formal. Não por acaso, o conto é dedicado a Rodolfo Enrique (Quique) Fogwill, autor argentino iconoclasta morto em 2010.


A de Fabián Casas não chega a ser uma literatura pop – ao contrário, é avessa a rótulos –, mas elementos do gênero aparecem aqui e ali: Darth Vader, Astroboy, Xuxa, Kevin Costner, Led Zeppelin, sem falar no Paulo Coelho. No conto “Os Lemmigs”, a frase de abertura, bela e violenta, instaura o clima: “A ditadura foi a disco music”. Para compensar, também abundam as referências eruditas, mas sem afetação: Wittgenstein, Hegel, Platão. Juntando alta e baixa cultura, destaca-se uma cena em que o narrador, imerso na leitura de Guerra e paz, de Tolstoi, nota que seu gato apareceu machucado em casa: “Estava igual ao Coiote quando explodia a bomba Acme.”


Fiel ao axioma atribuído a Tolstoi segundo o qual “falar de sua aldeia é falar do mundo”, Fabián Casas ambienta quase todas as histórias no bairro em que passou infância e juventude, o mitológico Boedo, com forte presença no passado de casas de tango (e agora de música punk) e cafés literários. Era em Boedo que ficava a sede do Club Atlético San Lorenzo, o que dá ensejo a inúmeras referência ao futebol ao longo dos relatos. Neles vivem personagens que migram de conto a conto, fazendo com que Os Lemmings e outros possa ser lido como um pequeno romance em fragmentos: o principal narrador Andrés Stella e seus amigos “tano” Fuzzaro, o japonês Uzu (inventor do “zen boedismo”), o gordo Noriega, os irmãos Dulce e o líder do bando, Máximo Desfrute, que nos é apresentado na (talvez) melhor peça da obra: “O bosque maneiro”.


Como nota o poeta Carlito Azevedo no posfácio especialmente escrito para a tradução do livro em português, “o movimento de reunião e dispersão do bando é o movimento narrativo privilegiado do autor. A história, para o autor, começa a ficar interessante, começa a ser digna de uma narrativa, quando as pessoas se agrupam, e chega a seu final quando as pessoas se dispersam”. As histórias de Fabián Casas, apesar de impregnadas de um realismo sujo, não deixam escapar um tom poético, o que faz dele um dos mais importantes autores da atual literatura argentina.

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O AUTOR

FABIÁN CASAS nasceu em Boedo, em 1965. Publicou os livros de poesia Tuca (1990), El Salmón (1996), Oda (2003), El Spleen de Boedo (2003) e El Hombre de Overol (2007), todos reunidos em Horla City (2010). Estreou na ficção com Ocio (2000), adaptado para o cinema em 2010. Os livros Ensayos Bonsai (2007) e Breves Apuntes de Autoayuda (2011) reúnem seus ensaios.

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