Capa do livro O Mistério do Coelho Pensante (Capa Dura)

O Mistério do Coelho Pensante (Capa Dura)

Autor: clarice lispector

Ilustração: Kammal Joao

Preço: R$ 39,50

48 pp. | 24,5x24,5 cm

ISBN: 978-85-62500-50-3

Assuntos: INFANTIL

Selo: Rocco Pequenos Leitores

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Disponível em e-book

Preço: R$ 17,00

E-ISBN: 978-85-8122-606-4

O sumiço de um simples coelhinho branco – quem diria! – inspira uma das mais instigantes histórias infantojuvenis de Clarice Lispector. Em O mistério do coelho pensante, que ganha nova edição pela Rocco, a escritora discorre sobre profundas questões existenciais, na dose certa para a apreciação dos pequenos leitores.

Qual a diferença entre “natureza humana” e “natureza de coelho”? Como a gente sai do terreno da necessidade para o da vontade e da criatividade ? É possível um pensamento que seja também um sentimento e uma sensação?

Nesta obra, a reflexão se desenvolve de forma leve e divertida. Tudo começa quando o coelho Joãozinho consegue fugir misteriosamente da casinhola deixando a todos – personagens, narradora e leitores – de orelha em pé.

Não por acaso, o protagonista tem nome de criança. Joãozinho, na obra, é também símbolo da infância, desta maravilhosa fase de tantas descobertas. De tanto fugir da gaiola quando lhe falta comida, Joãozinho “toma gosto” e decide escapar sempre que possível. Ao ganhar a liberdade e ser feliz, o coelho pensante descobre o amor, adivinha que a Terra é redonda e passa a se interessar por muitas coisas além de cenouras. “Nas suas fugidas também descobriu que há coisas que é bom cheirar mas que não são de se comer. E foi aí que ele descobriu que gostar é quase tão bom como comer”.

A partir deste pequeno incidente doméstico, Clarice aguça a curiosidade e a criatividade das crianças ao convocá-las a desvendar os sumiços do animalzinho. No misterioso mundo da narrativa clariceana, crianças e adultos podem encontrar a chave do enigma, abrindo as portas das próprias “gaiolas” rumo à liberdade de imaginação e recriação, inclusive, da obra. Bem ao estilo de Clarice, a resposta fica em aberto, descortinando novos mistérios e histórias. “Você na certa está esperando que eu agora diga qual foi o jeito que ele arranjou para sair de lá. Mas aí é que está o mistério: não sei! E as crianças também não sabiam.

A narrativa rompe estereótipos e coloca a criança em pé de igualdade com os adultos, representados pela narradora-autora nesta história com forte traço (auto)biográfico. Primeiro livro de Clarice endereçado às crianças, O mistério do coelho pensante teve como motivação um “pedido-ordem” de seu filho, Paulo, que andava chateado com o sumiço de um casal de coelhinhos da casinhola. Escrito ao estilo de uma conversa íntima, recebeu prêmio da crítica especializada como a melhor obra infantil de 1967. A narrativa é tecida, portanto, em fina sintonia com os anseios de uma criança leitora – representada por Paulinho – e procura estabelecer com este público forte interlocução.

A partir de uma singela metonímia do coelho – um nariz farejante – a autora coloca em cena uma forma de pensamento que é também sensorial, instintivo. Um pensar-sentir que liberta o protagonista Joãozinho das grades da necessidade (por comida), lançando-o no vasto universo da imaginação.  “Você não reparou que nariz de coelho parece estar sempre recebendo e mandando telegramas urgentes? É porque ele compreende as coisas com o nariz”, explica a narradora. Trata-se do elogio ao viver como forma de saber. “Só há dois modos de descobrir que a Terra é redonda: ou estudando em livros, ou sendo feliz. Coelho feliz sabe um bocado de coisas.”

O livro é perpassado por tiradas sensíveis, irônicas e sempre bem humoradas. Também as metáforas falam ao sensorial, evocado pela autora. “De pura alegria, seu coração bateu tão depressa como se ele tivesse engolido muitas borboletas.” A bela ilustração de Kammal João dá nova vida ao coelho pensante, explorando texturas e formas geométricas como o triângulo, espécie de ícone que delineia o nariz do animalzinho, dos personagens e figura em toda a narrativa. O estilo artesanal dos desenhos sublinha a delicadeza e as múltiplas dimensões desta obra que, mesmo quando fala sobre um corriqueiro acontecimento, faz pensar. 

A diferença é que este coelhinho não fala, mas pensa – ao contrário de certos animaizinhos que aparecem em fábulas para reafirmar a “moral da história”. “Se você pensa que ele falava, está enganado. Nunca disse uma só palavra na vida. Se pensa que era diferente dos outros coelhos, está enganado. Para dizer a verdade, não passava de um coelho.”

No universo clariceano, os bichos e as crianças representam uma força de vida em estado bruto, a latência de um viver ainda não domesticado, formatado. Por este motivo, tais seres intrigam e colorem o traçado de uma escrita que, além de excelente literatura, é pura filosofia.


*Julia Duque Estrada é jornalista e mestre em Literatura Brasileira

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O AUTOR

Reconhecida pela crítica literária brasileira e estrangeira como uma das maiores escritoras do século XX, Clarice Lispector mudou os rumos da narrativa moderna com uma escrita singular, passando por diversos gêneros, do conto ao romance, da crônica à dramaturgia, da entrevista à correspondência e, também, pelas páginas femininas.

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