Artigo

Literatura LGBT, Adolescência e os Mundos Possíveis

Vanessa Raposo escreve sobre literatura, adolescência e representatividade
18 de junho de 2017


Ser adolescente não é fácil.

Adultos, costumamos olhar para trás com certo alívio, pensando em como, afinal, “isso já passou” – aceitando as pressões de uma vida que não é de forma alguma simples, mas que pelo menos perdeu parte de seu status transicional. Ser adolescente é estar entre dois polos muito distintos, descobrindo, escolhendo, experimentando e abandonando características que carregaremos pelo resto da vida. Mais tarde, desdenhamos desse turbilhão de emoções como uma mera “fase”, mas ninguém em sã consciência diria que um trem em movimento não é um espaço real apenas porque corre entre duas estações.
Ser LGBT não é fácil.

O preconceito contra pessoas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais não existe apenas no nível das agressões físicas ou verbais. Ele está entranhado e institucionalizado no nosso vocabulário, nas nossas relações, nas piadas, nas pressuposições e na legalidade. É um mal sistemático que afeta a autoimagem, e que torna esses grupos mais suscetíveis à depressão, à ansiedade e ao suicídio.

Num mundo que não é sempre gentil com adolescentes, pessoas LGBT e, em especial, com adolescentes LGBT (ainda mais vulneráveis por razões legais e econômicas às inclinações políticas e religiosas de suas famílias), não dá para minimizar a importância de uma literatura capaz de um diálogo aberto com eles. Afinal, se o preconceito é antes de mais nada um mal simbólico, é na linguagem que encontramos o primeiro campo de batalha onde combatê-lo.

Uma casa nem sempre é um lar, mas a literatura tem o poder de nos transportar a mundos possíveis. É uma janelinha por onde espiamos a nossa realidade como se fosse outra; onde, através dos olhos de terceiros, encontramos respostas de que precisamos. A ficção cria mundos – com frequência, ela é o primeiro passo para a naturalização de temas considerados tabus, uma ponte para a empatia, ou aquele pontapé inicial que te faz respirar fundo e perceber que, afinal, não há nada de errado com você.

Acompanhando a demanda e a mudança das sensibilidades quanto ao tema, vem crescendo a quantidade de livros voltados para o público adolescente que assumem com muito orgulho o papel de expor a diversidade afetiva e identitária humana – tão rica e tão complexa.

Livros como Lucas e Nicolas do paulista Gabriel Spitz, que conta a comovente e divertida história de um menino que se apaixona pelo seu colega de turma no ambiente conservador de uma cidade interiorana. Uma história não muito diferente daquelas comédias românticas que ajudam a atravessar uma semana difícil.

Livros como Lembra aquela vez, de Adam Silvera, uma obra para se devorar, cheia de reviravoltas capazes de derrubar até o leitor mais espertinho do sofá. Nela, acompanhamos a história de Aaron Soto, um garoto cuja vida foi marcada pela tragédia e pelo preconceito, e que, após conhecer o divertido (mas completamente proibido) Thomas, considera submeter-se a um pioneiro tratamento de exclusão de memórias para assim, talvez, “tornar-se hétero”.

Livros como A arte de ser normal de Lisa Williamson que, por sua vez, conta a história de Katie, designada “David” ao nascer. Sua narrativa cruza-se com a de Leo, aluno que mal foi transferido e já a defendeu do ataque de bullies, e a amizade improvável que se forma entre os dois vai mudar os rumos de tudo. Trata-se de uma boa introdução tanto para adolescentes que estejam questionando sua identidade de gênero quanto para familiares e amigos que desejam entender mais sobre os desafios – muitas vezes cruéis – que precisam ser superados por pessoas trans.

Livros como Meu nome é Amanda, da divertidíssima Amanda Guimarães, por outro lado, são para aqueles que sentem falta de um relato não ficcional. Mais conhecida por seu apelido youtuber, Mandy Candy, ela nos revela suas aventuras e desventuras como mulher trans enquanto emenda tudo com muita cultura pop, histórias de viagens e dicas de relacionamento.

Mas não são apenas as histórias que revolvem em torno da exploração de uma identidade que se beneficiam com a inserção de personagens LGBT. Qualquer narrativa pode ganhar muito em sabor e relevância quando conta com um elenco diverso – e não apenas em termos de orientação e identidade, mas também de raça, tipos físicos e vivências. E o melhor é que todos ganham com essa abordagem: as histórias se tornam mais ricas; os leitores, menos sedentos por representatividade; e os autores ampliam o terreno onde podem exercer sua imaginação.

Por exemplo, o tema central do excelente Comportamento altamente ilógico, de John Corey Whaley, não é sobre ser um adolescente LGBT, mas sobre ser um adolescente agorafóbico – alguém que sente pânico incapacitante com a mera ideia de sair de casa. No entanto, Whaley adiciona a questão da sexualidade de maneira muito orgânica à narrativa, juntamente com cultura nerd (nosso protagonista Solomon é viciado em Jornada nas Estrelas) e as pressões impostas por sua condição particular, tornando a história ainda mais real.

Outros livros, como os da série Jovens de Elite, de Marie Lu, e o recente Crave a marca, de Veronica Roth, estão aí para mostrar que é possível se criar aventuras mágicas e emocionantes incluindo personagens não héteros relevantes em suas narrativas – mas especificar mais do que isso seria fazer spoiler!

Precisamos de mais histórias com personagens LGBT: heróis, amigos, vilões multifacetados, pais, interesses românticos e rivais. Diversidade não significa perfeição – quer dizer variedade e espontaneidade na maneira de se encarar esses temas. Meninos gays que amam videogames, lésbicas com uma quedinha por crochê, pessoas trans de jaqueta de couro andando de motocicleta ao pôr do sol, cientistas bissexuais pilotando robôs gigantes… Ainda não chegamos lá, mas com orgulho e persistência, seremos  capazes de mudar o nosso mundo.

Uma página de cada vez.

Por: Vanessa Raposo

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Comentários sobre "Literatura LGBT, Adolescência e os Mundos Possíveis"

  1. Amei o texto! É incrível como ainda precisamos lutar diariamente por direitos que deveríamos ter apenas por sermos humanos. Fico feliz de ver em foque cada vez mais modelos representativos, sejam de mulheres, pessoas gordas, negros, orientais, LGBTs, deficientes. O mundo é grande demais para todos terem a chance de viver.

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