Artigo

KATNISS EVERDEEN É MINHA HEROÍNA

Do NYT: Em comemoração aos 10 anos de Jogos Vorazes a autora Sabaa Tahir escreve sobre Katniss Everdeen
7 de novembro de 2018


Katniss Everdeen, interpretada por Jennifer Lawrence nas adaptações do livro para o cinema, “é marcada, subestimada e descartada pelo seu governo. Até que eles percebem o quão perigosa ela pode ser.”

Conheci Katniss Everdeen na Virgínia, em um dia chuvoso em 2010. Eu via Jogos Vorazes e suas sequências em quase todas as livrarias que visitava. E em um dia particular, me sentindo desanimada com minhas fracassadas tentativas de escrever, eu decidi pegar o livro sobre o qual todos falavam. Eu li a primeira parte, lá mesmo, na livraria, comprei as sequências e ignorei minha família pelos próximos dias enquanto devorava a série.

Distopias não são uma novidade, é claro. Na escola, eu li sobre governos autoritários com fome de poder (Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell), depois descobri batalhas mortais com menores de idade (Battle Royale, de Koushun Takami) e finais ambíguos, mas esperançosos (O conto da Aia, de Margareth Atwood, e O doador de memórias, de Lois Lowry).

A visão social de Suzanne Colins sobre guerra me conquistou, e seu estilo quase jornalístico de escrever ajudaram as páginas a voarem. Mas foi Katniss quem realmente me fisgou. Complexa e imperfeita, Katniss, com seu arco e sua trança e sua fúria gelada. Katniss, com seu profundo amor familiar e sua esperança teimosa. Katniss, a adolescente, que é marcada, subestimada e descartada pelo seu governo. Até que eles percebem o quão perigosa ela pode ser.

Katniss é uma personagem de contradições. É uma exímia caçadora, mas duvida de si mesmo constantemente. Sua força a mantém viva, mas suas decisões são quase sempre questionáveis. Seus conflitos a tornam real e vulnerável.

Claro que não estou sozinha. Em 10 anos desde a primeira publicação, a trilogia já foi traduzida para 53 línguas, com mais de 100 milhões de exemplares impressos. Seu sucesso mudou o patamar da literatura para jovens adultos. Se Harry Potter revelou o vasto mercado para literatura infantojuvenil, Crepúsculo estendeu esse mercado para jovens adultos, e Jogos Vorazes confirmou o poder de compra desse público.

Ondas de livros sobre distopia com heroínas seguiram a obra de Collins, várias conseguiram enormes bases de fãs, como a série Divergente, de Veronica Roth, e Legend, de Marie Lu. O surgimento das redes sociais permitiu que os fãs criassem comunidades no Youtube, Twitter e Facebook para compartilhar artes, teorias, comentários, vídeos, escalar os seus elencos para filmes e resenhas – tudo que ainda hoje é parte do universo de publicações para jovens adultos.

Para Katniss, “coragem está costurada em seus próprios ossos. Quando a violência do mundo lá fora bate na sua porta, ela tem que lutar”. E então Katniss se torna uma personificação da rebeldia adolescente. Uma personificação respeitada e alardeada, imortalizada nas telonas, em cosplays e bonecos.

“Katniss Everdeen é um nome que sempre ecoa através de mim, como fogos de artifício”, diz Dhonielle Clayton, autora de The Belles e executiva da organização sem fins lucrativos We Need Diverse Books. “E uma brilhante lembrança do que é preciso para mudar o mundo: desafio, irreverência e uma teimosa determinação”.

É verdade que a visão de Collins para a heroína é estranhamente visionária, assim como muitas outras situações da série. A história de Katniss se passa em Panem, governada pela Capital, que usa a propaganda para colocar cidadãos uns contra os outros e afirmar seu poder. A Divisão de classes é muito marcada e aqueles economicamente desfavorecidos são forçados a participar da própria opressão. Rebeldes são rapidamente silenciados. A afiada imprensa da Capital encoraja a obsessão pela perfeição que se espalha por cada aspecto da sociedade. Para sobreviver a tudo isso, Katniss precisa se adaptar. Seus inimigos não esperam muito dela. De novo, a subestimam.

Leigh Bardugo, autora de King of Scars, ainda não publicado, relembra a cena de Jogos Vorazes quando Katniss é maquiada. “Collins fala de aspiração e mercantilização de uma vez só, e das várias maneiras que Katniss é forçada a mudar para conseguir sobreviver. Ela tem que se tornar uma namorada, uma esposa, e depois uma futura mãe para angariar a simpatia e interesse do povo. Ela precisa pertencer a um certo tipo de narrativa para ser vista como valiosa – e isto é algo que as jovens mulheres e garotas são encharcadas todo dia pela mídia e em seus feeds do Instragram.”

Katniss usa essa mercantilização contra a Capital. Ela finge um romance para sobreviver, ela encena uma docilidade para ganhar as multidões. Mas fazer isso tem um custo. Em Em chamas, o vestido usado por Katniss se transforma no símbolo da rebelião. Em represália, a Capital assassina o criador do vestido. A cena passa a mensagem, que vale tanto para o mundo de Katniss quanto nosso próprio: desafiar um governo autoritário pode ser mortal.
E a mensagem, também, reforça uma das forças principais da trilogia: a história é feia, porque a vida é feia. Heróis nem sempre são heroicos. Os mocinhos não vencem sempre e quando vencem, são assombrados. O reconhecimento de Collins sobre o duradouro impacto da guerra na alma de Katniss é poderoso e comovente. Essa jovem mulher foi tão usada pelo seu país, uma mulher que fincou o pé e lutou de todas as maneiras, que jamais será completamente curada.

Essa é uma dura verdade e me faz pensar: Se Katniss soubesse tudo que iria sofrer, ela ainda assim lutaria? Para mim, a resposta é um categórico sim. Sua coragem está costurada em seus ossos. Quando a violência do mundo bate à sua porta, é preciso lutar. E é por isso que a personagem de Suzanne Collins, que para sempre vai brilhar no panteão dos amados heróis dos livros infantojuvenis, é um oportuno lembrete para todos que se importam: Jovens garotas são poderosas e corajosas e capazes de uma grande fúria. E elas nunca, nunca mesmo, devem ser subestimadas.

Sabaa Tahir é a autora de Uma chama entre as cinzas e Uma tocha na escuridão.
Siga Sabaa Tahir on Twitter: @sabaatahir.

Artigo publicado originalmente pelo New York Times, confira aqui.

Tags1: , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *