Artigo

Enraizados

Helena Gomes escreve sobre uma heroína desastrada, magia e o poder do Feminino
4 de agosto de 2017


Irresistível, bela, recatada e do lar? Nada disso. A protagonista é desastrada, nem um pouco bonita e ainda tem um talento natural para se meter em encrencas. Logo de cara, a autora Naomi Novik desconstrói aquela imagem batida de princesinha-linda-e-perfeita-à-espera-do-príncipe-encantado enquanto nos apresenta o universo de Enraizados, seu livro indicado ao Hugo e vencedor do Nebula, entre outros prêmios literários.
Filha de lenhador e caçula de três irmãos, a jovem Agnieszka vive com sua amorosa família em um vale, numa das vilas sob a proteção de um temido mago, o Dragão. A cada dez anos, ele escolhe uma moça para servi-lo durante uma década na torre onde mora isolado do restante do mundo.
Dessa vez, todos acreditam que o Dragão escolherá a graciosa e prendada Kasia, a melhor amiga de Agnieszka. Só que, no último instante, ele se decide pela garota desastrada e lá vai ela arrastada por ele e pela magia, materializando-se a seguir na torre num piscar de olhos. Daí você, bastante acostumado às tramas estilo A bela e a fera, logo pensa: “já sei o que vai acontecer”.
Sabe de nada, inocente. Claro que você se diverte muito com a turbulenta convivência entre a caótica Agnieszka e o Dragão, um sujeito mais velho, metódico, maníaco por organização e limpeza, sarcástico, esnobe, racional, incapaz de um sorriso e praticamente o oposto da garota que se deixa levar pela emoção, intuitiva e presa às raízes familiares.
O livro, na verdade, nos conduz a muito mais. É que, além das janelas da torre, existe a Floresta, de longe a mais apavorante vilã que vi nos últimos tempos.

Corrompida, a Floresta também corrompe quem nela se atreve a entrar. Para você ter uma ideia, alguém corrompido pode se comportar de um jeito bem parecido com aquela menina possuída pelo demônio no filme O exorcista

Da Floresta também saem criaturas monstruosas de tempos em tempos, uma ameaça constante à população simples do vale, às cidades atrás das montanhas – como a corte, onde mora o príncipe Marek e o restante da família real – e a outros reinos.
Pessoas podem ser capturadas e levadas para a Floresta; outras, contaminadas e, num lance quase zumbi, espalham violência e morte por onde passam. A própria Floresta segue avançando lentamente sobre o vale, apossando-se de vilas e campos arados, apesar de todos os esforços para detê-la. E, criatura pensante, utiliza artimanhas para se abastecer de mais magia, manipular os poderosos e aumentar a destruição de modo voraz, não necessariamente nessa ordem.
Contar mais sobre Enraizados é tirar o prazer de ler essa grande aventura cheia de surpresas, suspense e reviravoltas. A autora buscou inspiração no folclore eslavo e na figura carismática de Baba Yaga – deusa impetuosa e selvagem relacionada ao nascimento e à morte, ser sobrenatural originário da mitologia do leste europeu e bruxa presente em vários contos de fadas, sendo os russos para nós os mais conhecidos.

Na minha análise, a história ainda apresenta camadas mais profundas sob a estrutura narrativa construída com firmeza, bem explorada e redondinha. Enquanto o Dragão significa o racional e o apoio indispensável na criação das bases sólidas para a magia que Agnieszka descobrirá em si mesma, o príncipe Marek representa a valentia, a virilidade e a força bruta. Famoso guerreiro cheio de músculos e adrenalina, ele não hesitará em sacrificar o que for preciso para resgatar sua mãe, a rainha aprisionada pela Floresta há mais de 20 anos.

Ao contrário do que se possa imaginar, Agnieszka não se equilibra entre os dois homens e suas características, tampouco entra no cansativo jogo da indecisão entre um ou outro. Conforme seu processo de autodescoberta vai aflorando, a jovem encontra sua verdadeira natureza, aquela que a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés chamaria de arquétipo da Mulher Selvagem.
Segundo Clarissa, em seu cultuado livro Mulheres que correm com os lobos, a Mulher Selvagem é a origem do Feminino, de tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto. “É a intuição, a vidência, é a que escuta com o coração e tem o coração leal”, explica.

A Mulher Selvagem também é ideias, sentimentos, impulsos e recordações, quem se enfurece diante da injustiça. Como defende, ela vive no fundo do poço, nas nascentes, no éter do início dos tempos, na lágrima e no oceano, nas árvores, no verde que surge através da neve. Mas também nas cidades, nos guetos, na sala de reuniões, nas fábricas, nas ruas.

E é nessa linha que a autora de Enraizados seguiu para criar sua cativante Agnieszka. Essencialmente natureza como a Floresta, a personagem mostra muitos aspectos da Mulher Selvagem, movida por coragem, justiça e amor aos seres vivos.
De ratinha amedrontada à heroína que lutará por sua gente, a jovem reúne o Feminino em sua potencialidade. É como se fosse a própria natureza, ao mesmo tempo frágil, agressiva, decidida e intensa, verdadeira com os próprios sentimentos. Com Agnieszka, nem preciso esconder que a torre do Dragão não será mais a mesma…
Para terminar esta resenha, não posso deixar de fora a incrível capa da edição inglesa que a Fantástica Rocco usou na versão brasileira. Estão lá os principais elementos: a Floresta ao fundo e suas raízes ao redor como uma ameaça velada, as casinhas inocentes no vale bucólico, a sombra sobre a escolhida do Dragão e a torre como o último baluarte de resistência contra a aniquilação total.
Leitura, sem dúvida, recomendadíssima. Ao valorizar o poder do Feminino, Naomi Novik valoriza o Feminino existente em todos os seres humanos. Não poderia ter feito escolha melhor.

(*) Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de quarenta livros, entre eles obras finalistas do Prêmio Jabuti e do Prêmio FNLIJ, com Selo Altamente Recomendável. Pela Rocco, publicou Lobo Alpha, Código criatura, Assassinato na biblioteca e Conexão magia (esse em coautoria), além da série em e-book A Caverna de cristais. Mais informações no meu blog.

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