Em primeira pessoa

Duplo pacto

por Heloisa Prieto
15 de agosto de 2014


fantasma_por papeisdehalloween

[Créditos: www.papeisdehalloween.com]

Para que um fantasma se materialize é preciso um pacto entre aquele que narra sua aparição e o ouvinte que jura acreditar no que ouve. Entre todas as criaturas da tradição do sobrenatural, o fantasma é certamente a mais longeva. Excluído por excelência, expulso pela morte do mundo dos vivos, sem ainda conhecer os caminhos secretos do além, o fantasma é aquele que busca um derradeiro pedaço de existência. E, enquanto não for capaz de assumir sua nova identidade, sobrevive como um duplo que encosta no primeiro vivo que encontra pela frente. Várias têm sido suas moradas ao longo dos séculos: cavernas, florestas, castelos e, mais recentemente, apartamentos, televisões, redes de internet. Fantasmas assombram, deslocam-se para estacionamentos vazios, banheiros públicos, espelhos anônimos. Fantasmas reinventam-se, urbanizam suas próprias lendas e… não morrem jamais.

Talvez tão antigo quanto o caso de fantasma seja o pacto do “era uma vez”, fórmula mágica capaz de romper com as fronteiras do real e imediatamente transportar o leitor para a terra do nunca. No entanto, a expressão contém também outro pacto embutido: um final de felicidade e vitória do bem. Nem sempre foi assim: as primeiras versões dos antigos contos de fadas pouco ficam a dever à literatura de terror. Dentro da geografia imaginária da narrativa de magia, a literatura fantástica é fronteiriça: imprime o encantamento das fadas e seus mundos paralelos, mas também se mostra capaz de lançar personagens em turbilhões de alta voltagem. Final infeliz? Não há garantias! Talvez o único alento seja realmente a sobrevivência do narrador, mas pode ser também que aconteça uma vitória espetacular. Na dúvida, devoram-se páginas.

Cena do filme "Drácula, O Príncipe das Trevas" (1966), de Terence Fischer.

Cena do filme “Drácula, O Príncipe das Trevas” (1966), de Terence Fischer.

Drácula, Frankenstein, dr. Jekyll e o sr. Hyde, bem como o galante sedutor Dorian Gray, William Wilson, são personagens clássicos da literatura gótica que se apresentaram à imaginação de seus respectivos narradores no mesmo século 19. Várias teorias apontam para as descobertas científicas e as questões éticas da medicina como as fontes geradoras desses duplos espetaculares. Dilemas existenciais advindos da perspectiva da vida prolongada, as relações vampirescas da nova sociedade industrial surgem como temas recorrentes nos longos diálogos imprescindíveis a toda obra de suspense.

Se a literatura é a busca da verdade, qual é a eficácia de uma aventura extraterrestre? Como impactar o leitor sem a força do “juro que é verdade”? Na ficção científica, entra em cena a habilidade literária de criar mundos e o que é mais desafiante ainda: a necessidade de imprimi-los com tal força gravitacional que jamais serão abandonados pela curiosidade insaciável dos leitores que decidem habitá-los.

[Crédito: www.krzysztofnapora.piszecomysle.pl]

[Crédito: www.krzysztofnapora.piszecomysle.pl]

Digamos que a literatura fantástica, aterrorizante, encantadora ou extraordinária nasce da necessidade do não saber. O desejo de caminhar nas noites sem luar, nos corredores vazios, nos cantos escuros, becos sem saída, de compartilhar da certeza de uma ignorância primordial: a percepção de que diante das incertezas humanas, no mar revolto que o acaso imprime às vidas, todos se encontram no mesmo barco. Essa consciência da própria finitude só pode gerar um duplo pacto: a humildade que se alia à solidariedade.

Nada mais apaziguante do que uma viagem insone até a beira movediça das margens mutantes, sem tempo nem destino…

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cf23d605-6693-428d-86d3-8f7d521d4a28heloisaokHeloisa Prieto 

Autora e Doutora em Literatura Francesa, Heloisa Prieto é apaixonada por literatura fantástica, ação e suspense. Já recebeu diversos prêmios e teve obras adaptadas para o cinema e para o teatro. Pela Rocco Jovens Leitores, lançou Lenora (2008) e Anita Garibaldi (2013).

 

 

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