Em primeira pessoa

A voz e o mundo de Tris

por Lucas Peterson
10 de julho de 2014


Quando me vi, pela primeira vez, diante das palavras “There is one mirror in my house”, que abrem o primeiro livro da trilogia Divergente, de Veronica Roth, comecei a pensar em como adaptar da maneira mais fiel possível a voz daquela menina diante do espelho. Nunca havia traduzido algo tão vasto, não apenas na quantidade total de páginas, mas também no seu alcance e receptividade, e, principalmente, na imensidão do universo vivido por aquelas personagens. É claro que, como Beatrice (àquela altura, ela ainda era Beatrice para mim), eu ainda não tinha como compreender o tamanho da aventura e dos desafios que enfrentaria. Eu ainda nem sabia que traduziria o segundo livro.

Foi através dos olhos de Tris e das palavras de Roth que passeei por aquelas ruas ermas, explorei aqueles edifícios misteriosos e viajei por aqueles trilhos elevados, à procura dos caminhos em português que mais se assemelhavam aos descritos pela autora, e evitando atalhos e retenções. De repente, notei que aquele cenário não era tão desconhecido para mim, e logo percebi por quê. Durante a minha infância, parte da minha família morava em Chicago, e fui visitá-la algumas vezes. Parecia que, passados tantos anos, eu estava revisitando a cidade, e o que encontrei foi um lugar muito mais perigoso e fascinante.

Durante o processo de traduzir os três livros da série e os contos que a acompanham, passei mais tempo nesse cenário do que  jamais passei em qualquer outro universo fictício, seja como tradutor ou como leitor (talvez o mais próximo que cheguei como leitor tenha sido na Westeros, d’As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin). É estranho passar tantos meses, tantas horas dos meus dias, dentro de um universo criado por outra pessoa, mas sinto que isso me ajudou a compreender melhor as facções, suas motivações, fraquezas e razões de existir, e certamente a conhecer melhor as personagens (entre as quais, minhas preferidas são Tori, que merecia um livro só dela, Caleb, cujas escolhas, certas ou erradas, pareceram-me as mais difíceis, e os irmãos Uriah e Zeke, só porque eles são muito maneiros). Durante o caminho, isso me ajudou a traduzir os livros um pouco melhor. Acabado o trabalho, acho que sentirei saudades desse universo. Mas poderei então, agora como leitor, pegar um dos livros da estante e revisitá-lo sempre que quiser.

Lucas Peterson é tradutor dos três livros e dois contos (A Transferência e Quatro Medos) da série Divergente, de Veronica Roth.

 

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Comentários sobre "A voz e o mundo de Tris"

  1. Adorei ter lido o depoimento do tradutor da trilogia Divergente. É tão importante o trabalho que os tradutores fazem… Saber que alguns se envolvem com os livros tanto quanto nós leitores é maravilhoso.

  2. Se envolver assim com a obra e se apaixonar por ela, só confirma o excelente trabalho feito. Obrigada! Sem vocês tradutores o que seria de nós leitores que não falamos inglês?!

  3. Incrível depoimento! Ver como os tradutores se perdem tanto quanto os leitores nas histórias dos livros, só mostra o quão maravilhoso é esse mundo literário. E ele fez um ótimo trabalho como tradutor da trilogia!

  4. Pingback: Divergente Brasil | A sua primeira e melhor fonte de notícias da trilogia no Brasil » Blog Archive » Tradutor da trilogia Divergente fala como revisitou Chicago através dos olhos de Tris!

  5. A série Divergente e os contos são simplesmente magníficos!!! Obrigada por traduzir tão bem não apenas o livro, mas a emoção que ele passa aos leitores, pois cada palavra é extremamente importante. *-*

  6. Pingback: Minhas Sagas | O melhor das Sagas

  7. Que depoimento perfeito! Na minha opinião, o tradutor é 30% autor do livro. Percebi isso desde Lia Wyler, tradutora de Harry Potter. Tradutores não apenas traduzem uma obra, mas mostram o que há de melhor no livro, colocam seu “jeito” de escrever em cima do que o autor criou. E isso é fantástico!
    Eu também adoro os irmãos Uriah e Zeke, rs.

  8. Pingback: Quatro: histórias da série Divergente chega em outubro | Rocco

  9. Bela mensagem e muito interessante esse ponto de vista que você teve, antes de começar a traduzir. Com certeza, este trabalho requer uma responsabilidade para com os leitores; eu mesma já me vi como tradutora, pois pretendo seguir o curso de Letras pela minha paixão pela leitura. Agora, lendo suas palavras eu pude perceber que além de carregar um fardo resistente diante desses livros bem elaborados, também deve ser maravilhoso ter um tipo de “prazer” em ver seu nome na primeira folha quando abrir o livro: Traduzido por:(…)
    Parabéns pelo seu desempenho nessa trilogia, eu li e confesso que observo erros e outras coisinhas a mais em cada editora, mas realmente a sua foi impecável.
    Abraços de uma nova fã de tradutores!

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