Artigo

Crônicas Lunares

Levana, uma adorável vilã odiosa - Por Helena Gomes*
31 de maio de 2017


Toda boa história costuma ter um vilão digno das maiores vilanias. Mas, quando ele ganha profundidade e camadas de reações e sentimentos, torna-se muito mais do que um simples antagonista a ser vencido antes do aguardado final feliz. E é aí que nós passamos a amá-lo tanto quanto já o odiamos.Eu, que sempre adorei os vilões, faria o mesmo que a autora norte-americana Marissa Meyer em sua série Crônicas Lunares: escreveria um livro só para contar a história de sua adorável vilã odiosa. Foi assim que surgiu Levana, obra que narra os acontecimentos anteriores à cronologia oficial da série e que levaram uma certa jovem complicada ao trono de Luna.

Baseada no arquétipo da rainha malvada da Branca de Neve e com nuances de outra vilã, Malévola, a personagem é complexa, carente, doentia, ciumenta, invejosa e apaixonada. Prepare-se. Não será nada fácil julgá-la.

Aliás, se você ainda não conhece a série Crônicas Lunares, mas gosta de aventuras movimentadas, personagens corajosas e apaixonantes e, claro, contos de fadas, precisa descobri-la. São quatro livros na cronologia oficial: Cinder, Scarlet, Cress e Winter, cada um focado numa de suas quatro heroínas inspiradas nas famosas Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e Branca de Neve.

Marissa utiliza as conhecidas estruturas dos contos de fadas para criar uma dimensão própria ao acrescentar elementos de ficção científica e escolher uma abordagem única que revisita e inova antigos arcabouços da tradição oral. A autora inspira-se numa fonte ampla e presente nas mais diversas civilizações, sem origens necessariamente conhecidas, que reúne histórias pertencentes ao mundo e por isso mesmo consideradas patrimônio cultural da humanidade.

Então você pergunta: como surgiram os contos de fadas? Difícil responder. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, seria derivado de outro conto popular, O lobo e os sete cabritinhos (sobre um lobo que finge ser a mãe dos filhotes para devorá-los), que por sua vez ficou conhecido no século I e se espalhou pela Europa, Ásia e África. Até na China existem versões antigas desses dois contos.

Como ninguém costuma desperdiçar material narrativo, misturam-se partes de uma trama com outra, gerando uma terceira versão. Agora imagine isso acontecendo por anos, décadas e séculos nas casas das pessoas no momento em que uma delas decide narrar do seu jeito um conto de fadas para entreter as demais. O processo vai alimentando a tradição oral e sua longevidade, ao mesmo tempo agregando os valores daquelas pessoas, seus costumes, os hábitos e a mentalidade da época. Por isso essas histórias conservam vestígios de mitos, de religiões do passado e da cultura de vários povos.

Depois, pense nos escritores, roteiristas e dramaturgos fazendo o mesmo para conquistar o público. E, na sequência, estime quantos leitores e espectadores receberão essas histórias e, por sua vez, também poderão multiplicá-las ao recriá-las para outras pessoas. Consegue calcular quantas versões podem ser reinventadas a partir de um ou mais contos de fadas?

É a dinâmica desse tipo de narrativa. Mas a magia que encanta e cativa tanta gente está em sua natureza, no quanto nos identificamos com tal construção coletiva que tanto fala sobre nós mesmos. Os contos de fadas mostram a realidade de modo indireto, trazem uma riqueza psicológica profunda e ainda provocam reflexões sobre ser ou não humano.

 

Voltando aos vilões, não há como ignorar o quanto simbolizam para nós. Eles são os obstáculos que enfrentamos na vida, a maldade presente no cotidiano e que nos afeta de várias maneiras. Vencê-los é aprender a lidar com as adversidades, mágoas, decepções e frustrações.

É ainda uma viagem de autoconhecimento, a descoberta do lado obscuro de nossas personalidades e do quanto ele nos influencia. Enfrentá-lo é uma trajetória de amadurecimento carregada de livre-arbítrio – afinal, que tipo de pessoa queremos ser para nós mesmos e para os outros?

Em Levana, a vilã de Marissa Meyer vivencia esse processo ao definir os próprios caminhos antes de se transformar na temida antagonista da cronologia oficial de Crônicas Lunares. E garanto que crueldade será uma palavra suave para classificar as ações dessa rainha que deseja ser a mais bela no melhor estilo “espelho, espelho, meu”.

Para mim, o livro lembrou um conto estendido. Senti falta de narradores diferentes, como a autora trabalhou nos outros livros da série. Mas isso não tira o impacto do mergulho que fazemos na mente de Levana, em seus sentimentos contraditórios, na lógica sinistra de seu raciocínio.

Em tempos tão difíceis na vida real, buscar algum refúgio em um universo de origens ancestrais nos ajuda a entender a natureza humana e suas motivações. E nada como derrotar um vilão para nos encher de coragem e nos fazer seguir em frente, ainda mais quando se trata de uma rainha malvada e estranhamente tão cativante.

(*) Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de 40 livros, inclusive obras finalistas do Prêmio Jabuti e reconhecidas como Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Pela Rocco Jovens Leitores, já publicou Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura e Conexão Magia (esse em coautoria). É autora também de uma das séries pioneiras da literatura fantástica brasileira, A Caverna de Cristais. Mais informações aqui.

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