Uma tradução em casal – 2ª parte

Alexandre Matias apresenta playlist de “A garota da banda”
8 de outubro de 2015


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Tradutor da autobiografia de Kim Gordon, A garota da banda, ao lado de sua mulher, Mariana Moreira Matias, Alexandre Matias falou em recente artigo aqui no blog sobre sua ligação com o Sonic Youth, um “desses primeiríssimos gostos em comum de casal” (leia aqui). A pedido da Rocco, o jornalista preparou ainda uma playlist com algumas das músicas que marcaram a vida de Gordon, destacando os trechos dos livros nos quais ela comenta sobre cada. Confira abaixo.

 

Sonic Youth – “Sugar Kane”

“Alguém me disse que o show inteiro de São Paulo está on-line, mas eu nunca vi e não quero ver.

Naquele último show, eu me lembro de querer saber o que o público estava notando ou pensando sobre esta pornografia crua e estranha de tensão e distância. O que eles viram e o que eu vi foram provavelmente duas coisas distintas.

Durante ‘Sugar Kane’, a penúltima música, um globo azul da cor do oceano apareceu no telão atrás da banda. Ele girava muito lentamente, como se exprimisse toda a indiferença do mundo em relação às suas próprias voltas e giros. Tudo passa, o mundo dizia, como o gelo derrete, e os postes de luz mudam de cor quando nenhum carro está por perto, e o mato cresce em paredes e calçadas rachadas, e as coisas nascem e depois se vão.

Quando a música terminou, Thurston agradeceu ao público. ‘Eu mal posso esperar para ver vocês de novo’, ele disse.”

 

Danny Elfman – “Simpsons Theme”

“No final do ensino fundamental, namorei um menino mexicano alguns anos mais velho que eu. Tenha cuidado, minha mãe costumava dizer. Aonde vocês vão? Ela tinha medo que nós fôssemos perseguidos pelo fato de a gente ser um ‘casal misto’. Na época, minha mãe trabalhava para a ACLU, o que sempre me fez revirar os olhos. Tive outros namorados também, nenhum a sério. Então eu conheci Danny Elfman.”

 

Frank Zappa – “Dog Breath, in the Year of the Plague”

“Fora da escola, eu tinha aulas em um estúdio de Martha Graham com uma francesa excêntrica, mas minha mãe não queria que eu seguisse com a dança – era muito “showbiz” para ela. A professora de dança na minha escola também dava aulas de ginástica, e para mim essas eram as únicas aulas realmente criativas que eu tinha. Qual era a coisa mais ultrajante que você poderia fazer e ainda chamar de ‘dança’ sem ser expulsa da escola? Eu me lembro de ter criado uma coreografia para a música do Frank Zappa ‘Dog Breath, in the Year of the Plague’, do álbum Uncle Meat. Willie representava alguém no banheiro, enquanto eu e as outras dançarinas éramos os mecanismos da privada, jogando papel higiênico na plateia.”

 

Neil Young & the Crazy Horse – “Tonight’s the Night”

“Na época, eu era amiga de um cara chamado Richie O’Connell, e de um grande amigo de Richie, Bruce Berry, que tinha alguma ligação com Jan Berry, do duo de rock dos anos 1960 Jan & Dean. Sempre que Guillermo e Bruce voltavam de uma turnê, a gente fazia festas que iam até de madrugada. Uma noite, fomos para a casa de Jan no alto de uma colina, uma caixa de vidro contemporânea e brega em um lugar cafona que um dia seria um bairro, sem nada em volta. A cocaína era onipresente, a heroína, um pouco mais escondida, mas eu não curtia aquilo. Eu lembro de estar lá uma manhã, por volta das oito horas, vendo uma menina de topless flutuar pela sala de estar enquanto tocava um violino.”

 

Sonic Youth – “Eric’s Trip”

“Foi na casa de Jenny que eu conheci Mary Lemley, uma menina festeira que tinha uma guitarra que seu namorado havia lhe dado. Quando Mary e o namorado terminaram, ela inexplicavelmente me deu aquela guitarra. Não era nada de mais – um instrumento moderno e destruído com o nome da marca, Drifter, no braço. Ainda assim, para onde quer que eu fosse a partir daquele momento, a Drifter ia comigo. Quando Thurston visitou meu apartamento na Eldridge Street pela primeira vez, ele percebeu a Drifter encostada na parede. ‘Eu conheço essa guitarra’, disse ele.”

 

Talking Heads – “Life During Wartime”

“Na paisagem arruinada do centro de Nova York, antes da gentrificação, antes do boom da arte, o Mudd Club tinha um ar de tudo-pode-acontecer-e-ninguém-vai-ligar, misturado com um toque de tédio glamouroso. (…)

 

O único clube que rivalizava com o Mudd em termos de boa música era o Tier 3, onde bandas inglesas tocavam ao mesmo tempo que faziam shows em locais maiores, como o Hurrah ou o Ritz. O Joy Division estava confirmado para tocar no Tier 3, mas Ian Curtis se suicidou uma semana antes do show. O Tier 3 foi onde eu vi o Eyed 8 Spy – a banda que Lydia Lunch formou depois do Teenage Jesus – bem como o DNA, Malaria!, Young Marble Giants e um monte de outros shows de No Wave. E hoje o Mudd Club é apenas um verso descartável em uma antiga música do Talking Heads.”

Konk – “Konk Party”

“Nós não tínhamos muito dinheiro para a gravação, para usar um eufemismo. Por fim, conseguimos um desconto num lugar chamado Plaza Sound, um estúdio espetacular, grande e antigo no Rockefeller Center, onde o Blondie, os Ramones e orquestras sinfônicas inteiras tinham gravado, e, segundo rumores, era propriedade da Columbia Records. Nós tínhamos direito a duas sessões de oito horas. Nosso baterista na época, Richard Edson, ajudou a estruturar nossa música antes de começarmos. Richard também tocava em uma banda chamada Konk, que era considerada cool na cena do centro da cidade, mas tinha um estilo competamente diferente do nosso. O Konk era rítmico e minimalista, e o Sonic Youth era dissonante e selvagem, mas os primeiros discos fazem sucesso hoje e sempre porque você não sabe bem o que está fazendo e mesmo assim vai lá e faz.”

 

Buffalo Springfield – “Out of My Mind”

“Nunca me achei uma cantora com uma voz boa, ou mesmo uma musicista. Eu consigo fazer isso ao imaginar que estou pulando de um penhasco. Neil Young disse uma vez que se trata mais de ter uma voz autêntica do que uma boa voz, embora Neil obviamente tenha uma grande voz. Por ter crescido ouvindo jazz, eu descobri um outro aspecto, mais legal, da voz feminina – a ideia de espaço, e transição, e da importância da expressão. Vale lembrar que, desde o início, o rock and roll nunca foi baseado em formação musical ou técnica, assim como o punk rock nunca teve a ver com ser um bom músico e a essência do No Wave era a expressão autêntica. O punk rock mudou tudo, inclusive toda a noção de ser um ‘rock star’. É estranho olhar para trás e ouvir as letras das bandas dos anos 1960 e perceber que eles se sentiram incomodados quando começaram a ganhar a fama que os separava de seus ‘irmãos e irmãs’ e do ‘movimento’. Sempre amei ‘Out of My Mind’, a música do Buffalo Springfield em que Neil cantava sobre as vantagens de ser um rock star, que o único som que ele podia ouvir eram os gritos do lado de fora de sua limusine.”

 

Sonic Youth – “I Wanna Be Your Dog”

“O crítico de música Greil Marcus escreveu sobre a nossa versão para ‘I Wanna Be Your Dog’, do Iggy Pop e dos Stooges, em sua coluna mensal no Artforum. Seus artigos eram constituídos por pequenos, e na cabeça de Greil, significativos, gestos que impulsionavam a cultura para a frente. Mais tarde Greil disse a um entrevistador que Confusion Is Sex tinha mexido com ele. Era uma zona, ele disse, com vocais horríveis, mas ele disse que nunca antes tinha ouvido alguém arrancar as suas entranhas e jogá-las para o público do jeito que eu fiz em ‘I Wanna Be Your Dog’, e que Iggy Pop ficaria humilhado ou emocionado.”

 

Sonic Youth – “Death Valley ‘69”

“Quando eu era uma menina crescendo no sul da Califórnia, a morte, ou a ideia dela, vivia tentando entrar na minha vida, especialmente em 1969, quando a utopia hippie dos anos 1960 se fundiu com os assassinatos de Manson e sangrou em Altamont. Muitas pessoas que conheci quando adolescente tinham tido breves encontros com o homem baixo e carismático, de olhos arregalados, que falava sobre ‘Revolution 9’ e o deserto e uma futura bênção de destruição. Paz e amor tinham tornado-se sórdidos, como os Stooges tinham escrito em seu próprio hino dos anos sessenta: ‘1969, ok, all across the USA’ (‘1969, tudo bem, por todos os EUA’). ‘Faça amor, não faça guerra’ parecia melhor em filmes do que na vida real, onde policiais matavam estudantes universitários e revoltas aconteciam em Washington D.C., Chicago e Baltimore. ‘Death Valley ‘69’ foi mal interpretada algumas vezes como uma canção a favor de Manson, especialmente pelos fãs mais jovens. Nada está mais longe da verdade.”

 

Sonic Youth – “Schizophrenia”

“Em 1987, Thurston e eu estávamos lendo Philip K. Dick, cujos textos têm mais em comum com a filosofia do que a ficção científica, e cujas descrições da esquizofrenia eram melhores do que as de qualquer publicação médica. Philip Dick tinha uma irmã gêmea que morreu logo após o nascimento e cuja memória o flagelou durante toda a sua vida – o que é talvez como e por que nosso novo álbum acabou sendo chamado de Sister. (…)

Como sempre, isso começou com Keller. O grande rebelde, o centro das atenções, às vezes tão engraçado e encantador, antes que a doença tomasse conta de sua cabeça. Se Keller era a criança problema, o fogo que sempre ameaçava queimar nossa família até virar cinzas, o que isso fazia de mim? Aquela que nunca criava problemas. Aquela que, se fosse boa o suficiente, poderia tornar nossa família normal. (…)

Thurston e eu estávamos casados há três anos e juntos há sete, e nessa época ele me conhecia tão bem que era como se nós dois estivéssemos grudados tanto por nossos corpos como por nossas mentes. Por incrível que pareça, foi ele quem escreveu a letra de ‘Schizophrenia’, fazendo com que as palavras de algum modo parecessem ser minhas. Apesar de que a música não fosse explicitamente sobre Keller, as referências a Philip K. Dick no Sister sempre me deram a sensação de que eram.”

 

Ciccone Youth – “Addicted to Love”
“A outra música que fizemos foi minha versão para ‘Addicted to Love’. Havia uma espécie de cabine de caraoquê na Saint Mark, onde qualquer um podia entrar e gravar. Eu escolhi ‘Addicted to Love’ porque eu gostava do clipe do Robert Palmer, com seu elenco de modelos zumbis ao fundo, com roupas idênticas e empunhando guitarras. Eu levei a fita com essa gravação para o estúdio, e aceleramos o vocal para para deixá-lo mais agudo. Depois eu levei uma fita cassete com essa mixagem para a Macy’s, onde eles tinham uma versão em vídeo da cabine de caraoquê. Você podia customizar um fundo enquanto duas câmeras filmavam. Para o meu cenário, escolhi soldados na selva, e usei meus brincos do Black Flag. Tudo isso custou 19,99 dólares, e em um mundo MTV, plástico e comercial, me senti satisfeita e poderosa ao pagar essa conta com um cartão de crédito.”

 

Sonic Youth – “The Sprawl”

“Quando eu escrevi a letra de ‘The Sprawl’, uma música do Daydream, eu criei um personagem, uma voz dentro de uma música. O tempo todo, quando estava escrevendo, eu lembrava de como eu me sentia quando era uma adolescente no sul da Califórnia, paralisada pela extensão silenciosa e interminável de L.A., me sentindo sozinha na calçada, a simplicidade do pavimento tão entediante e feio me deixava enjoada, o sol e o tempo bom inalterados como uma linha de produção deixavam meu corpo tenso). A cobertura noz-moscada de fumaça que cobria minha cidade natal me lembrava de Fiskadoro, como se L.A. já estivesse sobrevivendo ao seu próprio apocalipse nuclear. ‘I grew up in a shotgun house / Sliding down the hill / Out front were the big machines / Still and rusty now, I guess / Out back was the river… And that big sign on the road—that’s where it all started.’ (‘Eu cresci numa casa pequena / No sopé da colina / Na frente ficavam as grandes máquinas / Desativadas e enferrujadas agora, acho / Atrás ficava o rio… E aquela grande placa na estrada — foi ali onde tudo começou’).”

 

Sonic Youth – “Kool Thing”

“’Kool Thing’ era uma música complexa, influenciada por todo mundo, de Jane Fonda, Raymond Pettibon, Bootsy Collins e Funkadelic a uma entrevista que fiz uma vez com LL Cool J. Alguns anos antes, Raymond tinha feito um filme sobre o Weather Underground chamado The Whole World Is Watching: Weatherman’ 69, que, como a maioria das ilustrações de Raymond, era cheio de humor negro e sátiras. Thurston e eu aparecemos no filme, lendo o brilhante roteiro de Raymond em blocos de anotações. Eu fiz o papel de Bernadine Dohrn, e no roteiro de Raymond, eu, ou melhor, Bernadine, foi atraída para a política de esquerda porque tinha uma queda pelos homens dos Panteras Negras. Eu também adorava o primeiro disco do LL Cool J, Radio, que foi produzido por Rick Rubin, e quando eu o entrevistei para a revista Spin, perguntei se ele tinha alguma coisa a ver com os samples e que tipo de rock ele gostava. Não consegui esconder meu desapontamento quando ele disse: ‘Bon Jovi’. Mas, pensando bem, faz sentido que acordes fortes e pesados sejam ideais para samplear.

A banda gravou ‘Kool Thing’ na Greene Street. Chuck D, do Public Enemy, também estava trabalhando lá naquela semana, e às vezes ficava esperando o Flavor Flav chegar ao estúdio. Você sempre sabia que ele estava vindo quando ouvia seus sapatos gigantes fazendo barulho enquanto descia as escadas. Perguntamos ao Chuck D se ele ajudaria na parte de perguntas-e-respostas no meio de ‘Kool Thing’ e ele concordou. Ter o Chuck D trabalhando com a gente era incrível, e tanto Thurston como eu sentimos que ele sacou qual era a nossa.”
Sonic Youth – “JC”

“Joe Cole levou Thurston e eu para ver o Hole tocar em L.A. Joe era escritor e roadie do Black Flag e da Rollins Band. Junto com Dave Markey, ele era uma das pessoas com quem Thurston e eu saíamos sempre que íamos visitar meus pais na Califórnia. Eu não posso dizer realmente como era a música do Hole – confusa  é a melhor descrição – mas Courtney certamente tinha carisma.

Joe, que escreveu um livro chamado Planet Joe e apareceu em alguns filmes do Raymond Pettibon, foi assassinado posteriormente. Ele dividia uma casa com Henry Rollins em Venice, que no início dos anos noventa ainda era um gueto, com uma rua gentrificada e a outra, uma zona de guerra. Uma noite, quando estavam chegando em casa, foram cercados por ladrões, e após contar a verdade, que os dois juntos só tinham cinquenta dólares, um deles deu um tiro à queima-roupa na cabeça de Joe. Henry conseguiu escapar de alguma maneira fugindo pela porta de trás de sua casa. Quando Henry me ligou para contar sobre Joe, eu comecei a chorar. Levei alguns anos para superar, para falar a verdade. O ato de violência sem sentido e aleatório contra alguém tão cheio de vida e inocência era de enlouquecer, e eu odiei Los Angeles por muito tempo depois disso. Eu escrevi a música ‘JC’ sobre Joe, enquanto Thurston escreveu ‘100%’. Foi difícil cantar sem me desfazer em lágrimas.”

 

Sonic Youth – “Sugar Kane”

“Nós também fizemos um clipe de grande orçamento para ‘Sugar Kane’, dirigido por Nick Egan e que envolveu muitas pessoas que mais tarde se transformariam em grandes nomes. Foi o primeiro filme da Chloë Sevigny, para começar. Na época, ela trabalhava como estagiária na Sassy, a revista de Jane Pratt, e minha amiga Daisy perguntou a Andrea Linett, que mais tarde seria uma das fundadoras da revista Lucky, se ela conhecia alguém que pudesse fazer o papel de uma menina que se despisse durante um desfile de moda. Nick, ficamos sabendo depois, conhecia Marc Jacobs – Marc tinha acabado de lançar sua coleção ‘grunge’ para a Perry Ellis – e Marc concordou em nos deixar usar seu showroom e suas roupas, e também ajudou a encontrar modelos e gente da moda para aparecer no clipe. Foi pura coincidência ter sido a coleção ‘grunge’ do Marc – acho que nós nem percebemos isso naquele momento.

Nick filmou grande parte de ‘Sugar Kane’ em Super 8, e no final, em vez de manter a escala normal, nós talvez cometemos o erro de reduzi-la, para que o video finalizado parecesse na tela como um Super 8, o que o deixou menos comercial e propenso a ser transmitido. Ainda assim, aquele foi o início da nossa amizade com Marc e Chloe.”

 

Sonic Youth – “Little Trouble Girl”

“Ter a Coco me fez pensar novamente nas Shangri-Las, com suas músicas superdramáticas com cenários mórbidos e relacionamentos doentios. ‘Little Trouble Girl’ foi minha homenagem definitiva ao estilo meio cantado, meio falado das Shangri-Las.

Na época, eu estava lendo um livro chamado Mother Daughter Revolution, sobre a primeira onda do feminismo dos anos setenta. Ele fala como o feminismo falha em abordar o relacionamento entre mães e filhas por causa de sua ênfase em sair de casa. Eu não terminei – quem tem tempo ou energia para ler quando acaba de se tornar mãe? – mas eu lembro de como o livro falava da pressão para agradar e ser perfeita que toda mulher sofre e depois projeta em sua própria filha. Nada nunca é bom o suficiente. Nenhuma mulher pode jamais fugir do que tem que fazer. Ninguém pode ser tudo – uma mãe, uma boa companheira, uma amante, bem como uma concorrente no local de trabalho. ‘Little Trouble Girl’ é sobre querer ser vista pelo que você realmente é, ser capaz de expressar aquelas partes suas que não são de ‘boa menina’, mas que são tão reais e verdadeiras quanto.”

 

Sonic Youth – “I Love You Golden Blue”

Sonic Nurse, o disco seguinte que o Sonic Youth lançou, nós também fizemos com o Jim. A música ‘Pattern Recognition’ foi baseada em um livro do William Gibson que eu tinha lido e gostado. Não era um de seus títulos de ficção científica, mas um thriller que se passava em um presente extremamente contemporâneo sobre uma mulher que era ‘cool hunter’ – um termo incrível, eu achei, para descrever uma pessoa contratada por empresas para detectar tendências para marcas. ‘Pattern Recognition’ era uma das minhas músicas favoritas para tocar ao vivo, uma canção sensual com muitos movimentos que viajavam para lugares múltiplos. Eu também adorava cantar ‘I Love You Golden Blue’, embora ficasse frequentemente à beira das lágrimas sempre que cantava. É uma canção sobre alguém que acredita que não pode se mostrar ao mundo. Achando que destruirá apenas as pessoas com quem se importar, ele evita qualquer intimidade. Ele está preso. Eu não podia deixar de pensar que aquilo era verdade em relação a muitos homens-meninos que eu havia conhecido na vida.”

 

Big Nils – “Cuba Swag”

“Desde que me tornei mãe, jornalistas sempre fizeram a pergunta ‘Como é ser uma roqueira que também é mãe?’. É uma pergunta que eu nunca consegui responder de forma satisfatória para mim, ou para qualquer um, sem dar uma daquelas respostas do tipo ‘Como toda a mulher que tem que equilibrar uma família e um trabalho…’ – a mais sem graça que eu podia pensar, o que parecia bem apropriado.

Talvez para mim este momento era como ver um filho se formando no ensino médio. Eu não conseguia descrever. Não era algo que eu tinha sonhado ou esperado que fosse acontecer, ou mesmo pensado que a Coco tivesse interesse em fazer. O fato de que ela era tão boa me surpreendeu, e o fato de que sua banda, que começou como uma brincadeira, um grupo de amigos passando o tempo e se divertindo, tivesse se juntado quase magicamente era muito rock.“

 

Body/Head – “Last Mistress”

“”Last Mistress” foi influenciada pelo filme de 2007 de Catherine Breillat, Une vieille maîtresse. Breillat queria ir a Paris para estudar cinema, mas, como era mulher, não a deixaram. Robbe-Grillet escreveu um livro que virou um filme, ela escreveu um livro. Eu pensei: Como uma menina que foi educada em uma escola católica super-rígida nas províncias francesas desenvolve esse nível de sofisticação? Talvez fosse uma escola católica de vanguarda.

O melhor tipo de música vem quando você é intuitivo, inconsciente de seu corpo, perdendo a cabeça, de certo modo: a dinâmica do Body/Head.”

 

Alexandre Matias é dono do site Trabalho Sujo

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