Uma primavera literária luso-brasileira

Por: Lúcia Bettencourt
11 de abril de 2016


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Paris é uma cidade que ainda ama os livros. Em cada esquina, uma livraria. Bancas de livros tomam as calçadas e os clientes se multiplicam, fascinados com as ofertas. Acho que é o único lugar do mundo em que uma loja da Dior dá lugar para que uma tradicional livraria, La Hune, ressurja. Passeio por pequenas ruas e meus olhos encontram estabelecimentos especializados: aqui uma livraria só de HQ, ali uma polonesa. Aqui a deliciosa livraria Portuguesa e Brasileira, do já mítico livreiro Chandeigne. Quase ao lado, uma livraria/editora especializada em livros de filosofia para crianças, a Petits Platons… E paro por aqui, para não fazer uma listagem quase interminável, se for incluir as especializadas em autógrafos e livros raros. Não existe, portanto, lugar mais fértil para se plantar uma semente literária.

O jardineiro chama-se Leonardo Tonus, professor da Sorbonne, que recebeu o título de Chevalier ex-Lettres, no ano passado, pelos serviços prestados à cultura e ao ensino de Literatura. Incansável, sorridente e atento a tudo, ele promove, há três anos, o Printemps Littéraire Brésilien, e, a cada ano, as flores aparecem com mais viço e se espalham por mais lugares. Sem contar com financiamento público, nem patrocínios, ele consegue a colaboração de todos, desde alunos até participantes por compartilharmos, todos, um grande amor pela literatura brasileira.

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Como é primavera, os botões em flor se multiplicam. Alguns dos autores são promessas, ostentando seus primeiros livros e contratos com editoras, como é o caso de Krishna Monteiro e Jessé Andarilho. Outros são flores amplamente desabrochadas, autores consagrados, alguns com obras mais extensas, como Godofredo de Oliveira e Claudia Nina. A maior parte dos autores é brasileira, mas alguns portugueses se dizem “literariamente brasileiros”.

As atividades são diversas: oficinas, aulas, palestras, entrevistas, lançamentos de livros, debates. Há para todos os gostos. Este ano, grande parte dos participantes era de autores de livros infanto-juvenis, que se divertiram com a receptividade com que foram acolhidos nos colégios franceses. As crianças vibraram com o imaginário brasileiro.

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Participei levando meu romance O regresso: a última viagem de Rimbaud. Numa sessão com alunos da Sorbonne, mais uma vez me surpreendi com o interesse e a profundidade da leitura dos estudantes. Foi um prazer estabelecer esse diálogo que sempre nos estimula e enriquece.
A primavera estimula pensamentos e reflexões, mostra que não existem fronteiras para a arte, e que a literatura é um dos mais bem recebidos cartões de visita de nosso país. E, além do mais, aproxima os autores que se descobrem companheiros na mesma dedicação ao fazer literário. Viva o Printemps, e que as flores de lá venham a frutificar, viçosas, aqui em nosso país.

Lúcia Bettencourt é escritora e ensaísta.

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