Uma História da Literatura LGBT

por Samir Machado de Machado
17 de maio de 2018


Tive uma epifania em 2013, quando conheci Londres e entrei na que era então considerada a maior livraria da Europa, a Waterstone’s, da Oxford Street. Em cinco andares de livros, subdivididos em todas as categorias e nichos editoriais possíveis, deparei com a seção de literatura LGBT. No Brasil, quando encontrava uma prateleira assim em alguma livraria, ela se resumia a meia dúzia de estudos acadêmicos e livros eróticos. Agora, para minha surpresa, ali estavam autores como Christopher Isherwood, Allan Hollnghurst, Oscar Wilde, William Burroughs, Marguerite Yourcenar. E as prateleiras estavam subdivididas, como categorias de Netflix cada vez mais específicas: romance histórico gay, romance histórico lésbico, trans, young adult lgbt, mangás yaoi, mangás bara, policiais lgbt etc.

Não me entenda mal: rótulos existem para colocar numa mesma caixa coisas (e pessoas) que não têm nada em comum exceto um único aspecto específico de si. Mas ao ver aquelas prateleiras, percebi o óbvio: que, quando isolado como recorte específico, a literatura LGBT possui uma tradição que remonta a mais de cinco mil anos de literatura.

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Isso foi percebido no final do século 19, quando novas traduções do Banquete e do Fedro de Platão foram introduzidas nas universidades inglesas. Ao se verem herdeiros daquela herança cultural, os estudantes reunidos por esse elemento comum — “o amor que não ousa dizer seu nome”, como um deles, Oscar Wilde, diria anos mais tarde. O clima desse momento, dessa descoberta entre os universitários ingleses de Oxford, pode ser visto no livro Maurice, de E.M. Forster, adaptado para o cinema com Hugh Grant.

Esses alunos começaram a pesquisar e ordenar os elementos de sua própria história, a organizar um cânone, e a se organizar politicamente. Tentaram criar o termo uranista, que não pegou. Por muito tempo, e até hoje, usa-se a expressão queer, “esquisito” — gay é um termo mais difundido a partir dos EUA nos anos 1950 e 1960. Em português, a palavra mais antiga associada aos homossexuais masculinos era a expressão “fanchono”.

Mas também algumas mulheres começaram a fazer o mesmo, buscando sua própria tradição histórica, e descobrindo a poeta grega Safo de Lesbos — cunhando o termo lésbica. Em português, a expressão mais antiga registrada até então era “tríbade”.

Cânone

Assim o leitor atento irá perceber que, por exemplo, o centro nervoso da Ilíada de Homero não é o rapto de Helena — esse é somente o ponto de partida, mas a vingança de Aquiles contra Heitor, por este ter matado seu amante Pátroclo. Ainda que, ao longo do tempo, sucessivas traduções tenham tentado disfarçar isso ao colocar Aquiles e Pátroclo como “apenas bons amigos”. A literatura clássica, tanto grega quanto romana, é povoada destes “apenas bons amigos” que lutam e morrem abraçados nas glórias do heroísmo, como Nisus e Euríalos na Eneida.

Ou que, no tempo de Shakespeare, mulheres eram proibidas de atuarnos palcos, e os papéis femininos eram interpretados por homens efeminados, vestidos de mulheres — ou como se dizia no teatro da época, em travesti. Isso mesmo: a Julieta de Romeu e Julieta foi um papel originalmente escrito para ser interpretado por um homem. Não só ela, como todas as personagens femininas de Shakespeare.

Ou que Moby Dick é centrado num bromance de alto simbolismo erótico entre Ishmael e o canibal Queequeeg, uma amizade que começa ao dividirem uma cama, é selada “como um casamento”, e onde um é salvo, ao final, pelo corpo do outro. Isso sem considerar todo o simbolismo fálico da baleia branca e dos próprios marinheiros — seamen, em inglês. Billy Budd, o livro seguinte de Herman Melville, de publicação póstuma, tratava abertamente do desejo homossexual de um oficial por um marinheiro.

A linha do tempo da história da literatura LGBT é uma linha contínua de mais de três mil anos, ainda que, na alternância dos séculos, épocas mais liberais se alternem com períodos mais conservadores, em ciclos sucessivos. Ou como diz Gonçalo, um personagem no meu romance histórico Homens Elegantes: “deve ser por isso que proíbem que se fale sobre nós: para que, a cada geração, não fiquemos sabendo de todos aqueles que vieram antes.”

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