Berlim: uma cidade que não espera nada de nós

por Suzana Velasco
19 de março de 2015


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Ponte Oberbaum. [Crédito: Suzana Velasco]

Saio do bairro entre a larga avenida que já se chamou Stalin e o muro mais fotografado de Berlim, ainda que pouco de seu concreto e seus grafites seja da época em que dois muros – o da frente e o de trás, entre camadas de arame, terra, cães e homens de guarda – interrompiam a cidade. Em 15 minutos estou do outro lado do rio sob a ponte Oberbaum. Ali, no ponto de fronteira entre os setores americano e soviético, a mais antiga linha de metrô de Berlim foi fechada por quase 30 anos. Hoje ela é conhecida como o trajeto de festa da cidade, que une Friedrichshain e Kreuzberg, dois bairros notívagos, onde não há distinções de Leste e Oeste.

Meu caminho habitual começa em Friedrichshain, num centenário prédio berlinense, um bloco residencial com pátio interno, mantido nos anos comunistas. Passa pela zona de bares e clubs com a estética de destruição dos anos 1990, quando as construções abandonadas do Leste foram descobertas pelos jovens. E termina do outro lado da ponte, em Kreuzberg, onde sobrevivem alguns ícones da cultura alternativa de Berlim Ocidental, como o SO36, frequentado por David Bowie e Martin Kippenberger; e onde espaços de arte improvisados se misturam a lojas e cafés da moda, nos quais se fala mais inglês do que alemão e o preço do expresso já não é mais a pechincha pela que Berlim ainda é conhecida.

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Café na Oranienstrasse, em Kreuzberg, Berlim. [Créditos: Berlin-Zeitgeist / Alamy/Alamy] 

Durante o dia, as distinções são mais visíveis. Vou a Kreuzberg com frequência desenvolver um projeto com imigrantes turcos que chegaram a Berlim Ocidental nos anos 1960 e 70 e com seus filhos e netos, muitos deles cidadãos alemães. Os rostos mudam e há uma profusão de restaurantes e pequenas lojas de nome turco. Antes o bairro pobre perto do muro, onde se instalaram os imigrantes recrutados por falta de mão de obra alemã, hoje Kreuzberg vive um processo de gentrificação como grande parte da cidade, que luta entre os investimentos estrangeiros e um amadorismo debochado para uma grande cidade do mundo – atendentes mal-humorados, lojas e mercados fechados aos domingos, bares onde se pode fumar à vontade.

O adiamento da inauguração do novo aeroporto internacional, construído há anos em meio a polêmicas de corrupção, parece uma fábula do que a cidade resiste a se tornar. Enquanto os turistas se espantam com as instalações espartanas do principal aeroporto da cidade, os berlinenses se orgulham da construção octogonal, prática e pequena, que deixa os grandes corredores e lojas caras para Frankfurt, a capital financeira da Europa. Percebi que começava a me sentir em casa ao compartilhar esse afeto pela modéstia do lugar – e de muitos outros espaços da cidade, onde um sofá antigo e o piso de madeira podem ser mais aconchegantes do que cadeiras e objetos de design. Um ar quase provinciano marca uma das cidades mais cosmopolitas do mundo.

Já a área do aeroporto construído durante o regime nazista, Tempelhof, é hoje o maior parque público de Berlim, que os moradores desejam manter como tal, apesar dos interesses imobiliários. É uma metáfora da cidade: um imenso campo vazio na (maior) parte fria do ano; cheio de gente no verão, mas ainda assim com pouca densidade, um certo ar de abandono, sem serviços lucrativos, onde cada um faz seu dia. Porque, mesmo se de grandes proporções, nada é monumental em Berlim. A cidade é de homens, mulheres, suas bicicletas e seus cachorros.

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Trilhos. [Crédito: Suzana Velasco]

Há um certo caos visual numa cidade que no último século foi República, Reich, comunista, capitalista, reunificada. Berlim vive de suas ruínas, de seus feitos e sobretudo desfeitos históricos, e há um peso nisso. Mas a vida da cidade está entre as ruínas, ou por trás delas. Como diz Peter Schneider, autor de Berlim, agora – A cidade depois do muro, se a cidade é tão atraente, não pode ser por causa da beleza. Não é pela paisagem de trilhos de trem que se cruzam à beira do rio que a via entre Friedrichshain e Kreuzberg está sempre repleta de gente. É como se a crua e um tanto melancólica Berlim já tivesse passado por tanta coisa que não pudesse pedir mais nada de seus moradores – nem dinheiro, nem sucesso, nem aparência, nem mesmo humor. Pode parecer desolador. Mas é libertador viver numa cidade que não espera nada de você, e da qual por isso se pode esperar tudo.

Suzana Velasco é jornalista, bolsista da Fundação Alexander von Humboldt na Alemanha, onde desenvolve o projeto “Narrativas da imigração turca em Berlim”.

 

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