A volta do romance social

Por: Alvaro Costa e Silva
14 de outubro de 2016


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Em sua grande diversidade atual – pode-se reclamar da qualidade, mas não das opções de gênero, estilo, natureza e poética das criações contemporâneas –, a literatura brasileira tem deixado de lado, paradoxalmente, o chamado romance social. Justo em um momento em que estamos mergulhados em grave crise política.

A visão totalizadora de mapear um país e um povo, não só do ponto de vista da história como também da geografia – mais comum aos artefatos ficcionais do século 19, com amplos panoramas e personagens emblemáticos capazes de fazer o leitor “viver” dentro das páginas dos livros – parecia ter entrado em declínio definitivo. Mas eis que surge um romance como Um nazista em Copacabana, de Ubiratan Muarrek, o qual nos obriga a reformular o pensamento e, quem sabe, indicar mais uma vereda na floresta.

Tendo como fio inicial da trama um jovem ex-combatente alemão que, encerrada a Segunda Guerra na Europa, desiste de seguir para a Argentina depois de se encantar pelas cores e ares do Rio de Janeiro, o relato avança por greves e movimentos sindicais durante a ditadura militar e deságua nos conflitos sociais do Brasil atual. Três mulheres têm participação central: a manauara Iracema, que incorporou a sua linguagem o deboche do funk carioca; sua filha, Diana, arredia e assustada, que espera um bebê; e Circe, com seus estranhos prazeres. Há também um Delúbio – um outro Delúbio, mas nem tão diferente assim daquele que ficou nacionalmente conhecido pelo escândalo do mensalão.

Nesta conversa, Ubiratan Muarrek aponta os tópicos que enfeixam sua vocação de escritor participativo, e que não despreza o diálogo com o leitor – ao contrário, o procura.

Romance político
Quis fazer um romance político. Me senti particularmente aviltado pelos efeitos recentes do sistema político nefasto do país. A política brasileira é uma máquina de moer destinos. Ela inviabiliza sonhos, conquistas, avanços; impede de múltiplas formas a realização dos cidadãos. Esse limite que criminosos vulgares de todos os partidos e escroques em torno deles impõem à realização pessoal e coletiva é devastador. Não me parece razoável a literatura produzida aqui se calar diante disso. Ou reduzir seu papel político a um drama pessoal. As armas narrativas e ficcionais são empregadas pela política o tempo todo, para o mal comum. Até nisso há desvios. Quis um livro em que a literatura tomasse de volta o que é seu, e partisse para um enfrentamento mais direto.

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Vozes íntimas
Procurei narrar histórias vividas, falar de como a pantomima política é absorvida no dia a dia, pelos grandes personagens miúdos que tentam minimamente cuidar de suas vidas enquanto os pequenos grandes personagens da política cuidam de aviltá-la. Não acho possível escrever um bom romance que não seja sobre a vida. E a intimidade me parece uma boa maneira de explorar isso. No fundo, política, botânica ou carpintaria são apenas temas. Um romance que “discute” isso ou aquilo não discute nada, se não disseca o drama de viver.

Língua sentimental
O estilo é mais derramado. Talvez seja por causa das personagens, como Iracema ou Circe, que são intensas. Ou eu que seja intenso! Mas Diana, por exemplo, é econômica ao extremo – ela quase não abre a boca o livro todo. Ou talvez eu veja o Brasil e sua língua assim: sentimental, excessivo e perigosamente melífluo.

Armadilha do eu
Falar do “eu” e, com isso, falar de “nós”, ou de muitos – que é a única justificativa para esse “eu” se manifestar em livros e publicá-los –, me parece uma tarefa muito difícil. Poucos “eus” literários são originais e fortes a esse ponto. Mas veja, falar de “outros” também não é nada fácil. Contar uma história num mundo de overdose narrativa e midiática exige técnica, liberdade e certo malabarismo, eu diria, cirúrgico. Isso assusta um pouco, mas preferi correr o risco a cair na armadilha que é falar de si próprio.

A surpresa da fuga
Ocorreu no processo de escrita de Um nazista em Copacabana aquele voluntarismo de uma personagem. Elas têm vida própria mesmo. Diana resolveu fugir de São Bernardo, eu jamais havia imaginado isso. E seu caminho, naturalmente – ela estava grávida e sozinha –, foi a casa da mãe, que morava no Rio. Fui tomado totalmente de surpresa por essa fuga. E, quando ela aconteceu, nasceu o livro. Depois, inverti as partes, numa tática algo manjada e perversa para agarrar o leitor, invertendo o tempo da ação.

Modelos
Pensei no extraordinário As irmãs Makioka, de JunishiroTanizaki, publicado em 1943. Me impressionou a capacidade do Tanizaki de transformar um conflito da dimensão da Segunda Guerra em pano de fundo para um drama familiar e de valores. Dentro das minhas possibilidades literárias, procurei fazer o mesmo, situando uma catástrofe política recente do Brasil – no caso específico, o escândalo conhecido como mensalão – como pano de fundo para os dramas de famílias brasileiras que vivem no Rio de Janeiro e em São Bernardo do Campo. Não posso esquecer de mencionar o impacto, para a construção do romance, de um documentário: ABC da greve, de Leon Hirszman. Suas imagens ficaram sedimentadas em minha cabeça.

arte_2Influências
Leio bastante teatro. Amo Henrik Ibsen, Samuel Beckett e Edward Albee. No romance, Celine me parece insuperável (um “eu” a ser tomado como exemplo). Proust eu gosto tanto que eu nem leio, para não ficar paralisado. É o contrário do que acontece com Clarice Lispector: sua coragem literária me dá estímulo. Ainda estou descobrindo, maravilhado, Borges. No momento, estou apaixonado por John Williams, o romancista americano autor de Stoner. Foi indicação de um amigo que sabe muito.

O primeiro romance
A ênfase na narrativa, no humor e ironia, e o drama de um jovem casal são comuns a ambos os romances – Corrida de membro e Um nazista em Copacabana – assim como o desejo de uma escrita feita para ser lida, tentando dinamitar a barreira que existe entre o autor brasileiro e o leitor. Por outro lado, o escopo do trabalho e a ambição são naturalmente maiores no segundo livro. Ocorre que Corrida… foi um primeiro livro de quem não imaginava que poderia escrever ficção. Minha ânsia de agarrar o leitor era tamanha que há um certo exagero dramático e de estilo. Em Um Nazista…, eu já estava um pouco mais tranqüilo. Mas só um pouco. Espero melhorar nos próximos, no sentido de ser mais autoconfiante e sereno e conseguir elevar meus leitores a outras percepções.

Planos
Estou ainda na fase do rabisco mental, com alguns rabiscos no papel. Começo a escrever de verdade no verão. A história se passa em Londres e reúne personagens brasileiros e uns poucos estrangeiros. Quero prosseguir na linha de como ser alguém, e ser alguém pleno e feliz, tendo nascido e vivido dentro dos limites impostos pelo Brasil.

Abaixo você confere o booktrailer de Um nazista em Copacabana.

Alvaro Costa e Silva é jornalista.

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