Um movimento de ruptura

por Bernardo Ajzenberg
16 de setembro de 2014


minha vida sem banho

Assim como o abandono do chuveiro pelo protagonista, a escrita de Minha vida sem banho representou, para mim, um movimento de ruptura. Como se tivesse decidido “chutar o pau da barraca”. Mergulhei sem freios no universo das chamadas ONGs, especialmente de militância ambientalista, assim como nos bastidores da ação política durante a ditadura militar. Célio, um dos protagonistas, é um quadro importante em uma ONG ambientalista; conhece tudo sobre a questão hídrica e sua relação com a preservação do planeta. Quando decide parar de tomar banho, sabe exatamente quantos litros deixará de gastar por mês e quanto, portanto, economizará para a Terra e para o seu próprio bolso de solteiro. Tal como seu pai, Waisman, em plena crise de meia-idade, fizera durante a ditadura militar, ele procura em pequenas inflexões pessoais como essa encontrar um espaço de liberdade individual em meio à pasteurização geral de sentimentos. São duas gerações que se digladiam, mas que incorrem nos mesmos impasses políticos e existenciais.

Minha vida sem banhoOutro tema que me interessa muito: a solidão quando estamos dentro de um grupo. Ao lado disso, as ilusões com que nos nutrimos recorrentemente; os limites de uma causa — no caso, a ecológica, que estranhamente reúne ativistas de direita e de esquerda; e as manipulações na clandestinidade (tanto no tempo presente — o ano de 2010 — quanto no passado— décadas de 1970 e 1980).

Quis tratar dessa chamada crise da meia-idade e de como uma geração mais jovem procura incorporar as experiências negativas da antecedente a fim de evitar os mesmos erros. Mas também das diferenças e angústias que sufocam o relacionamento entre um homem e uma mulher na entrada da vida adulta.

Tudo isso em meio a um cotidiano urbano — as cenas se localizam em São Paulo, mas também em Paris e uma ou outra cidade do interior —, em que as menores decisões, aparentemente ingênuas ou de curto alcance, podem, ao contrário, ensejar mudanças de grande porte, individual e coletivamente.​ Costumo dizer que todos os relacionamentos estão sempre à beira de uma ruptura. Neste caso, as rupturas, na minha maneira de ver, acabam se impondo.

☛ Leia um trecho de Minha vida sem banho

 

Noite de autógrafos
Bernardo Ajzenberg espera seus leitores para os lançamentos:
Rio de Janeiro: 29 de setembro, segunda-feira, às 19h, na Blooks Livraria. Confirme sua presença
São Paulo: 1º de outubro, quarta-feira, às 18h30, na Livraria da Vila. Confirme sua presença

 

Bernardo Ajzenberg é escritor, tradutor e jornalista. É autor, entre outros livros, de A Gaiola de Faraday  (prêmio de Ficção do Ano da Academia Brasileira de Letras), Homens com mulheres (finalista do Prêmio Jabuti) e Olhos secos (finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura).

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