Um livro feito de livros

Por: Samir Machado de Machado
9 de setembro de 2016


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De um modo ou de outro, meus romances históricos até agora têm sido sempre histórias de pessoas que se relacionam com o mundo através dos livros que leem. Há livros citados dentro do livro, e há livros que me ajudaram a dar forma ao livro.

 

Em Homens Elegantes, meu protagonista, Érico Borges (cujo nome rende homenagem aos meus dois autores “gaúchos” favoritos, Érico Veríssimo e Jorge Luis Borges) tem uma relação muito pessoal com três livros: o Fedro de Platão, o Mercador de Veneza de Shakespeare, e o Cândido de Voltaire, esse último o best-seller do momento naquele ano de 1760, quando Érico chega à Europa. Mas do lado “de fora” da história, os livros que me ajudaram a dar forma à história foram bem mais recentes.

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A obra de Ian Fleming foi uma das inspirações para o livro Homens Elegantes

A começar pela referência mais óbvia: Homens Elegantes tomou forma após um ano intenso de leituras de toda a obra de Ian Fleming. Em especial Cassino Royale, Moonraker (as vezes traduzido como O Foguete da Morte, e cuja trama não tem nenhuma relação com o filme) e Goldfinger, cujos ecos talvez fiquem mais perceptíveis nas passagens sobre jogos de carta, comidas, bebidas e nomes de personagens de duplo sentido – além, claro, da megalomania egocêntrica do principal antagonista, um aristocrata espanhol com planos obscuros e tendências agressivas, que atende pelo nome de Conde de Bolsonaro.

Ainda no lado da aventura, há elementos roubados d’Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas e de livros de aventura de Stevenson, do Barry Lyndon de Tackheray a os Os 39 Degraus de John Bucham.

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Homens elegantes possui elementos de aventura e espionagem ao estilo James Bond

Uma coisa são os livros que me ajudaram a construir a trama, outra são as obras que me ajudaram a construir os personagens. Em grande parte, os protagonistas Érico e Gonçalo foram calcados nos personagens de E. M. Forster em Maurice. Em que pese as diferenças sociais e culturais das sociedades do século XVIII no meu livro, e da Inglaterra Eduardiana na obra dele, parte do conflito entre meus dois protagonistas bebe diretamente dessa fonte, mesclada O Auriga, de Mary Renault (de onde Érico herdou sua paixão pelo Fedro) e de toda a obra de Alan Hollinghurst em geral. Michael Chabon uma vez disse que, depois da Eneida, toda a história da literatura é uma grande fanfic, e escrever um livro no século 21 é em grande parte, reescrever todos os livros que nos precederam e nos deixaram uma marca na alma.

TAGS: 007, Aventura, Espionagem, Homens elegantes, Ian Fleming, Inspiração, James Bond, Livro, Romance, Samir Machado de Machado,

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