Um diálogo de Margaret Atwood com o feminismo

A resistência na narrativa da Aia - Por Tatianne Dantas
29 de junho de 2016


Margareth

Com seu vasto currículo de romancista, contista, poeta, crítica literária, professora, ativista de causas ambientais e humanitárias, Margaret Atwood ganhou destaque nos principais jornais do mundo recentemente ao receber o Pen Pinter Prize, concedido anualmente desde 2009 em homenagem ao Nobel Harold Pinter a autores que abordam temas considerados relevantes para a sociedade. A premiação parece ser muito justa e surge num momento oportuno para que a obra de Atwood seja cada vez mais debatida. Além de abordar inúmeros temas, existe em sua produção um diálogo constante com as formas de representatividade e o lugar de fala da mulher, assim como a luta pelos seus direitos. É importante observar esse fato para falar sobre alguns aspectos do livro O conto da Aia, um dos mais conhecidos da escritora canadense e sua relação com o feminismo. A narrativa da Aia, que tem todos os seus direitos cerceados quando um golpe de estado acontece nos EUA, é um interessante ponto de partida para pensar até que ponto os direitos da mulher são respeitados (ou desrespeitados) na sociedade.

É difícil ler e discutir O conto da Aia sem pensar em questões de gênero. Classificada como uma distopia, a história é ambientada num futuro próximo onde os Estados Unidos da forma como conhecemos não existe mais. Em seu lugar, foi instaurada a República de Gilead, um regime em que o corpo da mulher é controlado por um Estado teocrático. A maioria das mulheres é estéril e as Aias são aquelas destinadas à reprodução. Para facilitar o controle, elas são divididas numa espécie de sistema de castas, diferenciadas pela cor das roupas que vestem: vermelho para as Aias; verdes para aquelas que não podem mais ter filhos e se dedicam ao trabalho doméstico, as chamadas Martas; cinza para as expulsas do convívio e destinadas a campos de trabalhos forçados; e azul para as Esposas dos Comandantes. Existem também as Tias que educam as Aias e cuidam para que sua única função na vida seja engravidar. Como algumas mulheres têm uma pequena parcela de privilégios em relação às outras e não desejam perdê-los, acaba-se criando um clima extremamente opressor e de vigilância entre elas. Mas todas estão submetidas e pagam tributo ao sistema patriarcal. A maneira como Atwood expõe isso nos faz perceber os próprios mecanismos de organização da nossa sociedade.

contodaaia

O Conto da Aia foi lançado no Brasil em 2006

A narradora é chamada de Offred, porque ela pertence a um dono: Of Fred em inglês, ou seja, De Fred, o comandante a quem serve. Não sabemos qual é o seu nome verdadeiro apesar de, durante a narrativa, conhecermos um pouco mais de sua vida antes de Gilead. Offred foi obrigada a deixar sua filha e marido para tornar-se uma Aia e gerar uma criança que será entregue ao comandante e sua esposa. O ato sexual para que isso aconteça consiste em um ritual bizarro, com a esposa do comandante posicionada atrás da aia enquanto ele a violenta. Na epígrafe do livro, há uma citação da Bíblia proveniente do Gênesis sobre o momento em que Raquel oferece uma serva a Jacob para que eles tenham um filho: “Eis aqui a minha serva, Bilha; Entra nela para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu, assim, receba filhos por ela.” Esse e outros momentos da narrativa mostram que muitos dos elementos utilizados por Margaret Atwood não são provenientes da mais pura ficção, mas contêm aspectos que já foram ou são referenciados na cultura.

O caráter fragmentário da história que Offred conta é uma característica marcante da estrutura narrativa e a razão por que isso acontece só é revelada no final. O desfecho do livro é inesperado e muito surpreendente, uma vez que traz questionamentos a respeito da forma como os fatos são lembrados no futuro. Como foi mencionado antes, a opressão que as mulheres sofrem é extrema, mas ela não pertence ao terreno da ficção científica ou fantástica. Se olharmos com atenção, e é essa a proposta que Atwood faz, tudo o que é relatado já aconteceu ou acontece em algum lugar do mundo. Quem lê O conto da Aia precisa atentar às possibilidades que se desenham como resultado da retirada gradual de direitos que são considerados menores. Em um trecho muito significativo, Offred diz:

“Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente, você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisa eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. (…) Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade. Vivíamos nas lacunas entre as matérias.”

Nem todos se transformarão em matéria de jornal, mas com certeza todos sofrerão as consequências do silêncio diante das arbitrariedades. As memórias de Offred trazem essa reflexão sobre como um Estado ditatorial é formado aos poucos, sem grandes alardes. Atwood nos lembra que o regime totalitário vai fazer tudo que estiver ao alcance para controlar as pessoas de forma física, mas ele também quer ter controle sobre o que elas pensam e sentem. A resistência que a Aia oferece é a de não cooperar para essa opressão na recusa de esquecer sua humanidade. São pequenos gestos, como o de lembrar como as coisas eram antes ou procurar um pedaço de manteiga para não deixar que sua pele desidrate, que a fazem ficar conectada e perceber que aquela situação não é a normal, ela não pode concordar com o opressor. Há um trecho em que uma das Tias diz que para elas, naquele momento, ainda é difícil porque existe a lembrança do mundo vivido, mas as gerações futuras não sofrerão mais pois não existirá tal recordação, uma vez que a vigilância é extrema. Tanto aquela exercida pelo Estado como a que acontece no próprio convívio entre as mulheres. O protesto de Offred é justamente sua recusa em esquecer a sensação de liberdade que havia antes. Algo que é compartilhado com Moira, sua melhor amiga, uma das personagens mais fascinantes do livro.

O conto da Aia é leitura obrigatória em escolas de língua inglesa, mas não sem questionamentos por parte de alguns pais, que muitas vezes consideram sua linguagem chula, com ensinamentos anti-cristãos, violência e degradação sexual. Essa rejeição, baseada em argumentos em parte religiosos, ressalta a importância da leitura dos livros de Margaret Atwood. Em outras obras, também é evidente como a autora questiona a opressão vivida pelas mulheres. E mostra como a linguagem é uma ferramenta indispensável nessa luta por nos fazer conscientes a respeito dos mecanismos manipulatórios em que determinados regimes são baseados. Assim como a recordação de Offred a salvou da despersonalização, a capacidade de narrar e transmitir essa narrativa para outras gerações também pode nos salvar de um futuro tenebroso como aquele que surge em Gilead. A obra de Atwood, em especial O conto da Aia, é uma forma de alerta. Não devemos fechar os olhos.

Tatianne Dantas é mediadora do grupo Leia Mulheres em Florianópolis

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