UM BRINDE À ESCRITA

Viagem ao redor da garrafa: um ensaio sobre escritores e a bebida, por Pedro Vasquez
25 de maio de 2017


Houve uma época em que se acreditava que a condição sine qua non para se tornar um bom escritor era ser alcoólatra, da mesma forma que todo roqueiro devia ser drogado e devasso. Os tempos mudaram, os roqueiros se transformaram em vovozinhos vegetarianos cuja maior extravagância consiste em beber exóticas marcas de água mineral mais caras do que o uísque, o bourbon ou a vodca do passado. Os escritores foram pelo mesmo caminho, ou estão indo, para não fazerem feio nas festas de entrega dos prêmios literários e parecerem mais confiáveis aos olhos das instituições que oferecem bolsas de trabalho ou programas de residência. Ganham escritores e roqueiros, mas perdem os biógrafos, já que vidas saudáveis e felizes dificilmente inspiram boas histórias.

Olivia Laing não teve esse problema, pois focalizou um seleto grupo de bebedores pesados que combinavam talento e descomedimento, sendo capazes dos maiores desvarios na vida privada ao mesmo tempo em que produziam algumas das maiores obras-primas da literatura americana do século XX, colecionando os mais prestigiosos prêmios, como o Pulitzer, o National Book Award e, um deles, até mesmo o Nobel. Todos amplamente merecidos, pois na peculiar constelação analisada por Laing brilham as estrelas de Ernest Hemingway, Francis Scott Fitzgerald, Tennessee Williams, John Berryman, John Cheever e Raymond Carver.

Tendo crescido em um lar disfuncional, em virtude do alcoolismo da namorada de sua mãe, a jovem escritora inglesa não cometeu o erro de idealizar a bebida, acreditando ¾ como o fizeram seus biografados em diferentes momentos das suas existências ¾, que o álcool pudesse ser o combustível perfeito para a criação literária. Amparando-se em pesquisas científicas e entrevistas com médicos especializados, Olivia Laing demonstrou como o álcool atua sobre a mente e o corpo, projetando o alcoólatra em uma espiral descendente que conduz à incapacitação, ao isolamento social e, com frequência, ao suicídio ¾ como no caso de Hemingway e Berryman.

Passando inevitavelmente da condição de conviva agradável para a de companhia nefasta e insuportável, o alcoólatra se afasta dos amigos, destrói todos os relacionamentos afetivos e quase sempre termina só e amargurado, buscando, naturalmente, consolo na própria causadora de todos os seus problemas: a bebida. Poucos conseguem vencer o vício e reconstruir suas vidas, como, felizmente, ocorreu com Cheever e Carver, muito embora certamente tivessem produzido mais e melhor caso não tivessem combatido por tantos anos com seus demônios interiores com o álcool.

Sob o ponto de vista estritamente literário, os seis biografados por Olivia Laing ¾ Hemingway, Fitzgerald, Williams, Cheever, Berryman e Carver ¾ foram todos, inquestionavelmente e cada qual em um estilo bastante característico, excelentes escritores. Todos tinham verdadeiramente algo a dizer e o disseram de forma exemplar, legando-nos romances, contos, poemas, ensaios e peças teatrais imperecíveis e dignas de integrar qualquer lista de melhores obras norte-americanas de todos os tempos nestes diferentes gêneros. Por outro lado, a jovem autora Olivia Laing ¾ depois de To the River, de 2011 ¾, vai se firmando como uma boa promessa do ensaísmo inglês, naquela vertente ousada, brilhante e não acadêmica, que teve em G. K. Chesterton um dos representantes clássicos e tem agora em Julian Barnes o expoente contemporâneo.

Viagem ao redor da garrafa é um daqueles ensaios aos quais se podem aplicar o chavão: “é uma obra de não ficção que se lê como um romance”. Boa parte de seu encanto deriva do fato de que Olivia Laing não é uma intelectual de gabinete, daquelas que ficam acumulando centenas de referências virtuais em seus dispositivos eletrônicos de escrita sem jamais sujar os pés na lama dos caminhos percorridos pelos autores que estudam. Longe disso: ela mergulhou no rio de bourbon e outros destilados de seus biografados com a mesma disposição com que havia mergulhado antes no rio Ouse, em que Virginia Woolf se suicidou em 1941, percorrendo-o da nascente à foz para tentar entender as motivações da célebre autora de Mrs. Dalloway e, em paralelo, delinear uma história cultural deste rio de North Yorkshire. Para começar seu périplo americano, Olivia Laing fez questão de se hospedar no mesmo hotel da East 54th Street em que morreu Tennessee Williams, o Elysée, surpreendendo-se ao descobrir que sua suíte havia sido desmembrada para espantar os maus espíritos. Em seguida, dispensando a inútil praticidade do transporte aéreo, rumou para Nova Orleans de trem, para assimilar cada detalhe do trajeto percorrido em sentido contrário pelo autor de Um bonde chamado desejo, ganhador de três Pulitzer, por essa peça, por Gata em telhado de zinco quente e por A noite do iguana, além de um Tony por The Rose Tatoo.

Laing percorreu com idêntica atenção os caminhos palmilhados pelos outros autores, mesclando suas experiências de viagens às observações da paisagem norte-americana, que ela descobria pela primeira vez. A descrição das paisagens entrevistas pela janela do trem, da excursão em barco na costa da Flórida, dos locais visitados e dos encontros fortuitos com estranhos ou com as pessoas que buscava entrevistar são muito envolventes e nunca gratuitas, muito embora o tom ameno empregado possa levar a se pensar isso. O resultado foi um livro sedutor e consistente que deixa o leitor com vontade de redescobrir a obra do sexteto por ela analisado. Um livro que pode ser lido com um bom drinque ao lado, mas que, ao contrário da bebida, pode ser apreciado sem moderação.

E, por que afinal os escritores bebem tanto? Olivia Laing oferece diversas respostas em seu livro, inclusive de médicos especialistas de renome mundial. Contudo, a melhor resposta parece ser aquela oferecida em uma carta ao diretor Elia Kazan por Tennessee Williams . Para ele, um homem bebe por duas razões básicas: “1. Está se cagando de medo de algo; 2. Não consegue encarar a verdade sobre algo”. Outro aspecto interessante sobre a questão, abordado por Laing foi o que ela chamou de “natureza autoludibriosa do alcoólatra”, que o incita a verdadeiros malabarismos para não admitir e/ou largar o vício. Ela relata, por exemplo, que, já no fim da vida, Fitzgerald tentou limitar o consumo de uísque e de gim, de modo a restabelecer a saúde, mas, pelo simples fato de não considerar cerveja uma verdadeira bebida alcoólica, continuava emborcando mais de vinte garrafas por dia sem pestanejar.

Para quem pensa que a escolha dos seis escritores estudados por Olivia Laing seja aleatória, é interessante assinalar que existem diversos pontos de interseção em suas vidas. Hemingway e Tennessee Williams moraram simultaneamente em Key West durante muitos anos, e o terceiro filho do autor de O velho e o mar, foi batizado na mesma igreja em que Williams realizou o culto de sua conversão ao catolicismo. Ambos nutriam profunda admiração pela obra um do outro, porém nunca se esbarraram em Key West, somente se conhecendo em 1959, no Floridita, na esquina de Obispo com Monserrate, em Havana, cujos daiquiris Hemingway tanto propagandeava.

John Cheever e Raymond Carver passaram um ano juntos, lecionando e sobretudo bebendo na Universidade de Iowa, cujo programa de escrita criativa também já tivera antes como professor John Berryman, Pulitzer de poesia por The Dream Songs e nascido na mesma cidade que Fitzgerald, St. Paul, no estado de Minnesota. Berryman, por sua vez, era, como Hemingway, filho de um suicida por arma de fogo e, assim como ele, também acabou se suicidando. Às vezes as conexões são mais misteriosas e surpreendentes, como no caso de Cheever e Williams: foi assistindo a Um bonde chamado desejo que Cheever, aclamado como o “Tchekhov dos subúrbios”, teve um lampejo inesperado de suas próprias tendências homossexuais, conforme confessou ao seu diário íntimo. E, o mais surpreendente é que a esposa, que assistia a peça ao seu lado também teve o mesmo vislumbre acerca da sexualidade do marido, sem no entanto lhe dizer nada.

Por ocasião do lançamento em língua inglesa, em 2013, Viagem ao redor da garrafa entrou na lista dos melhores livros do ano de Times, do Economist, do New York Times e do New Stateman. O que comprova a maturidade precoce de Olivia Laing, cujo terceiro livro A cidade solitária (um ensaio sobre a solidão tal como representada na arte, por pintores como Edward Hopper, Andy Warhol e Henry Darger) tem lançamento programado para julho de 2017, pela editora Rocco.

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