Trilogia da Escuridão

Um resgate à tradição do horror nas histórias de vampiro
28 de novembro de 2014


por Alexandre Sayd*

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Guillermo Del Toro

A Trilogia da Escuridão é uma história de vampiro diferente da maioria das que já conhecemos. Nós nos acostumamos com os vampiros delicados e sensuais, mas os strigoi – como os mortos-vivos são chamados na obra de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan – são criaturas monstruosas e ameaçadoras, de aspecto claramente inumano. Predadores supereficientes, muitas vezes sem qualquer recordação de suas vidas pregressas.

Os vampiros da trilogia se identificam muito mais com uma doença e uma praga do que com um lado sombrio da própria humanidade. São um vírus e uma infestação, literalmente. As criaturas não possuem sexo, cabelo ou pelos no corpo; e sob sua pele é possível ver um sem-número de vermes em movimento; seu cheiro é de terra e suas roupas, quando existentes, se desfazem em trapos apodrecidos.

É possível notar uma certa influência do filme Nosferatu (1922) na concepção dos strigoi de Del Toro e Hogan. De fato, a abertura do livro, com o pouso do Boeing 777 em Nova York e a descoberta de que todos no avião estão mortos, se comunica diretamente com a cena do filme em que o navio que transporta o Nosferatu chega ao destino sem nenhum tripulante a bordo a não ser o cadáver do capitão. Os autores resgataram e modernizaram a ideia do vampiro como uma criatura de horror verdadeiro, associada a peste e a corrupção.

Essa associação é reforçada pela própria caracterização dos personagens principais: O doutor Ephraim Goodweather é um epidemiologista e chefe do Projeto Canário, do Centro de Controle de Doenças. É ele quem assume o comando após o misterioso pouso do Boeing 777, presumindo que o que matou os passageiros foi uma doença desconhecida. Eventualmente, Eph descobre com o que está lidando e muito do que ele acredita é posto em xeque, no entanto, mantém um ponto de vista médico-científico, relutando em utilizar a palavra vampiro e combatendo os infectados como se enfrentasse uma epidemia.

Vasiliy Fet é um exterminador de ratos descendente de ucranianos. Acostumado a andar pelos túneis e galerias subterrâneas da cidade, combatendo infestações, ele logo percebe algo errado quando os roedores começam a abandonar inexplicavelmente os esgotos. Alguma nova praga está ocupando aquele habitat e o trabalho de Vasiliy é exterminá-la.

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Mestre strigoi

O professor Abraham Setrakian é um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial. Foi como prisioneiro de um campo de concentração que descobriu a existência do Mestre, um vampiro ancestral e muito poderoso. Uma espécie de Van Helsing pós-moderno, Setrakian passou a vida acumulando conhecimentos e armas para combater os strigoi e se tornará um mentor para Eph e Vasiliy. Ele é o toque de tradição folclórica na reinvenção proposta pelos autores.

Nessa combinação inusitada de velho e novo, veremos os personagens usarem armas que vão desde espadas de prata até improváveis lanternas de luz ultravioleta e pistolas de pregos adaptadas. Elementos do mundo contemporâneo, como metrô, aviões, celulares, internet e até satélites artificiais e armas nucleares são relevantes para o desenvolvimento da história juntamente com um apanhado de lendas e livros antigos.

A Trilogia da Escuridão é em grande parte, também, uma história sobre a corrupção e a virtude, sobre questões morais pelas quais passamos quando nossos entes queridos voltam dos mortos decididos a nos caçar e parece não haver esperança. Conforme o sentimento de impotência domina os personagens eles se tornam muito mais vulneráveis e corruptíveis. Mais que isso, o livro sugere que foram os homens que providenciaram os meios para a sua própria derrubada. Os strigoi estão submetidos à vontade do Mestre e o Mestre aprende com a história humana. Na medida em que o vírus se espalha, anuncia-se a instalação de uma sociedade distópica na qual seriamos pouco mais que gado em campos de concentração de inspiração nazista.

Com uma escrita cinematográfica e cheia de ação a trilogia ganhou uma adaptação para a TV. A série The Strain já tem uma primeira temporada completa com previsão para estrear no Brasil em janeiro de 2015, pelo canal FX Brasil.

A versão televisiva é razoavelmente fiel ao livro e consegue criar algum clima de terror e catástrofe, mas peca ao incluir alguns personagens e subtramas pouco interessantes para o enredo ao mesmo tempo em que suprime elementos valiosos da história original – em especial no que diz respeito ao passado de Setrakian. Isso, no entanto, ainda pode ser corrigido nas próximas temporadas. Alguns fãs do livro também se queixam que os strigoi retratados na TV não parecem tão assustadores quanto o esperado.

Guillermo Del Toro é diretor e roteirista de A espinha do diabo e O labirinto do fauno e Chuck Hogan é autor de Prince of Thieves (ainda sem tradução para o português), que também foi adaptado para o cinema.

Leia também:
☛ A rainha dos vampiros e o retorno de Lestat

Alexandre Sayd é leitor assíduo de fantasia, jogador de RPG e jornalista.

TAGS: Chuck Hogan, Guillermo Del Toro, The Strain, Trilogia da Escuridão, TV, vampiros,

Comentários sobre "Trilogia da Escuridão"

  1. O vampiro foi sempre uma dualidade, entre o horror e o desejo, da metáfora do consumir o outro e do ser consumido por um si-mesmo monstruosamente atraente. É sempre um desafio mesclar essa dualidade e condensá-la num personagem que não só apresente a metáfora mas também nos permita senti-la em nós como algo relevante e não só como entretenimento. Del Toro é uma outra face da moeda de Meyer, uma outra face necessária, o cara da coroa.

  2. Simplesmente show de bola a série. Coincidência ou não, muito antes de eu ver a série, encontrei no sebo o primeiro livro e sem saber da história me amarrei completamente pois aguardava ansiosamente pelo desfecho da história ao qual não teve. Mas, eis que agora descobri que se trata de uma trilogia, buscarei com certeza e como dizem: engoli-lo ei, pois é uma obra prima…

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