Sonhar é preciso

Entrevista com Flávio Carneiro e Flávio Fargas
15 de junho de 2014


Autor de mais de 10 livros de ficção e não ficção, o premiado escritor goiano Flávio Carneiro é categórico: “Sonhar é fundamental, para a criança e para o adulto. O sonho é que faz você se sentir não apenas vivo, mas com vontade de continuar vivendo.” Em sua primeira incursão na literatura infantil, a aposta na inteligência e imaginação do leitor contou com a colaboração do ilustrador mineiro — e xará — Flávio Fargas.

Como pais, educadores e artistas, os dois conversaram com a equipe da Rocco sobre o lançamento Devagar & Divagando e sobre a importância de estimular a imaginação das crianças, preparando-as para toda vez que o mundo parecer hostil aos sonhadores.

 

Flávio’S, em seu trabalho de criação, escrevendo ou ilustrando, a ideia surge rápida como a espontaneidade de uma criança, devagar como os passos de uma tartaruga, ou é preciso ruminar muito tempo antes de pôr as palavras ou os desenhos no papel?
Carneiro: A ideia de uma história costuma surgir do nada – ou a gente pensa que é do nada –, de repente, quando menos se espera. Mas é só a ideia, a semente da história. A história mesmo, inteira, demora a tomar corpo. E colocá-la no papel é um processo mais lento ainda, que requer muitas páginas jogadas fora. Só mando para a editora a história que eu, como leitor, gostaria de ler. Por isso o teste final é esse, o de responder “sim” à pergunta que faço, com meu próprio texto nas mãos: Eu gostaria de ler isso, se fosse de outro autor?

Fargas: No meu caso, a primeira fase do trabalho, que é conceber as imagens que vou transformar em ilustração, é a mais demorada e a que me consome mais os neurônios. Porque é ali que está o segredo de tudo. Um trabalho bem feito na concepção das imagens facilita muito as etapas posteriores. Por isso prefiro ruminar bastante antes de partir para a finalização.

No livro, o sonho e a imaginação têm papel de destaque nos personagens da tartaruga, da vaca e da menina. Para vocês, qual a importância de sonhar, em especial quando criança?
Carneiro: Sonhar é fundamental, para a criança e para o adulto. O sonho é que faz você se sentir não apenas vivo, mas com vontade de continuar vivendo. A criança representa o tempo inteiro, o que significa que, de algum modo, está sempre sonhando. Quando minha filha Maria, de 3 anos, me diz que sua boneca está muito cansada mas só dorme quando ela, Maria, lhe conta uma história, quando faz isso está sonhando, de um jeito muito particular, só seu. E minha função, como pai, é não deixar que ela deixe de sonhar assim quando for crescendo e o mundo lhe parecer hostil em relação aos sonhadores.

Fargas: Eu vivo essa situação diariamente porque tenho três filhos pequenos em casa. É um compromisso meu estimular ao máximo a imaginação e a capacidade deles de sonhar. Tento criar condições para que eles possam se realizar enquanto crianças, naquilo que a infância tem de mais bonito: a liberdade quase poética que advém do fato de eles ainda não terem internalizado completamente noções do certo e do errado, do pode e do não pode. Claro que ensinar a noção de limite é fundamental. Mas, enquanto pais e educadores, temos que ter consciência dos nossos limites também, na hora de impor limites. Paradoxal, não é? Mas é assim que penso.

A história guarda um segredo sobre o quê de diferente da tartaruga Devagar e da vaca Divagando. Com as crianças cada vez mais espertas, como manter o mistério e fugir do óbvio, tanto no texto quanto nas ilustrações?
Carneiro: Acho que o autor nunca deve dizer tudo, deve sempre deixar espaços vazios, que a imaginação do leitor vai preencher. E deve sempre apostar na inteligência e na imaginação do leitor. Quando escrevo penso numa criança – e num adulto, mesmo em textos infantojuvenis penso no leitor adulto, que acharia prazeroso ler aquela história – que goste de imaginar. E o que o escritor faz é isso, é montar esse brinquedo chamado livro e dar de presente ao seu leitor, um brinquedo que só funciona quando acionado pela imaginação de quem quer brincar com ele. Agora, como fazer isso, como escrever esse texto-brinquedo vai depender de cada história.

Fargas: Essa qualidade de surpreender o leitor – desejável em qualquer livro, diga-se de passagem – é muito forte neste livro. Em grande parte, baseado nas conversas que tive com o Carneiro é que eu fui construindo a parte visual do livro de modo a evitar o óbvio e preservar o mistério. Não foi fácil não, mas achei o resultado muito bom.

Tendo ambos experiências com outros tipos de público — um (Carneiro) é escritor consolidado junto aos leitores adultos; outro (Fargas) trabalhou anos em agências de publicidade e, depois, com design gráfico —, escrever ou desenhar para crianças é mais difícil? O que significa para vocês trabalhar com o público infantil?
Carneiro: Não sei se é mais difícil. Acho que a dificuldade é a mesma, embora pareça que não, que escrever para crianças é mais fácil do que escrever para adultos. No meu caso, o prazer e a dificuldade são iguais. O mais difícil é sempre encontrar o tom do narrador. Não é você, autor, que conta, você inventa alguém para contar a sua história. E esse alguém precisa ser convincente, precisa ser coerente consigo mesmo, com o seu jeito de narrar. Já tive narradores bem diferentes entre si. E essa busca por uma voz narrativa, por alguém que conte a história, existe tanto na ficção para adultos quando na infantojuvenil.

Fargas: Pode parecer piegas, mas é verdade verdadeira: desenhar para crianças, no meu caso, além de um prazer incomensurável, é compromisso de vida. Trabalhando com livro infantis eu descobri finalmente que era ali que eu poderia fazer o que mais gosto na vida – desenhar – e, ao mesmo tempo, ser útil. Imaginar que minhas ilustrações podem ajudar uma criança a gostar de ler e ajudar no seu desenvolvimento é gratificante. Se é fácil ou difícil? Não sei mesmo dizer. Só sei que é gostoso demais.

 

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