Somos o inimigo

Leia trecho exclusivo de "Fracassinho", de Gary Shteyngart
26 de outubro de 2014


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“Três bandeiras”, de Jasper Johns.

1979. Vir para a América depois de uma infância passada na União Soviética é o equivalente a tropeçar de um penhasco monocromático e pousar em uma piscina de puro Technicolor. Estou pressionando o nariz à janela do avião que taxia na pista, observando os primeiros sinais de minha nova pátria passando lá fora. Ah, quanta solidez! O amplo espaço do que costumava ser o terminal da Pan Am no JFK com o seu telhado “disco voador” e, acima, o firmamento que não oprime o Queens como o céu russo sufoca Leningrado, mas que flui em ondas, reservando partes de si para cada casa de tijolos vermelhos ou de laterais forradas com alumínio, e para cada uma das famílias afortunadas que nelas habitam. Os aviões em suas texturas brilhantes se aglomeram ao redor de um mar de portões feito imigrantes famintos tentando entrar: Sabena, Lufthansa, Aer Lingus, Avianca. A intensidade do desembarque não diminui. Tudo é revelação. No trajeto que percorremos quando saímos do aeroporto, fico chocado com o meu primeiro viaduto, com a forma com que o carro (um carro particular maior do que três Ladas soviéticos) se inclina na curva a centenas de metros acima do verde do Queens. Aqui estamos flutuando pelo ar, só que em um carro. Preso ao cinto de segurança no banco de trás, com meus pais também se inclinando na curva aérea, sinto as mesmas emoções que experimentarei ao engasgar com a minha primeira fatia de pizza vagabunda norte-americana meses mais tarde – euforia, intensa animação, mas também medo. Como poderei algum dia chegar aos pés dos gentis e sorridentes gigantes que passeiam por esta terra e que lançam seus carros tal qual cosmonautas em direção ao infinito céu norte-americano e que vivem como lordes em seus pequenos castelos em terrenos de 12 por 30 em Kew Gardens, Queens? Como poderei um dia aprender a falar inglês como eles, de maneira tão informal e direta, mas com as palavras circulando no ar como pombos-correios?

FRACASSINHO_1411997349PMas, juntamente com a revelação da chegada está a realidade da minha família. É adequado que eu esteja vestindo meu suéter italiano com suas dragonas. O avião da Alitalia foi também um transporte de tropa. Aterrissei em uma zona de guerra.

Há duas palavras odiosas que definirão minha próxima década nos Estados Unidos. A primeira é rodstvenniki; procure o verbete “Parentes”. A segunda é razvod; procure o verbete “Divórcio”.

Nossos primeiros dilemas são de natureza geográfica. Minha mãe não quer ir para Nova York, que, na década de 1970, é conhecida em todo o mundo como uma metrópole falida, poluída e dominada pelo crime. O Channel One em Leningrado nos mostrou exaustivamente várias cenas de negry sem-teto pelas ruas de Manhattan, sufocados pelas fumaças do racismo e da poluição. Disseram-nos também que São Francisco seria melhor para minha asma. (Pelo menos um conhecido asmático russo acabou no seco e ensolarado estado do Arizona norteado por princípios geográficos semelhantes.) Mas a matriarca dos parentes do meu pai – tia Sonya – quer que ele venda jaquetas de couro no mercado de pulgas com o filho dela, Gricha.* Em Roma, minha mãe solicitou à venerável Sociedade Hebraica de Auxílio ao Imigrante, a libertadora dos judeus soviéticos, que nos enviasse para São Francisco, enquanto tia Sonya tenta nos convencer a morar em Nova York e ajudá-los a vender jaquetas de couro.

Vence o reagrupamento familiar, de forma que somos enviados para Nova York e não para o norte da Califórnia, onde muitos membros de minha geração de imigrantes soviéticos estão se dando muitíssimo bem no setor Google da economia. Minha mãe, depois de ter abandonado a própria mãe moribunda em Leningrado, foi atirada às garras da família do meu pai, a qual ela considera como volchya poroda.

Uma ninhada de lobos.

Além de vovó Galya, abandonamos duas lindas cidades meio europeias (Leningrado e Roma) para… o Queens. É lá que vive a ninhada de lobos. Estamos cercados por constelações de prédios residenciais de tijolos vermelhos com pessoas de muitas raças e credos, todas lutando para sobreviver. Aos olhos de minha mãe, toda esta configuração se parece com uma triste aproximação de como a vida europeia culta deveria ser.

Eu e meus pais nos instalamos com tia Sonya em seu pequeno apartamento em Forest Hills. A experiência de ouvir meus pais pronunciarem a palavra rodstvenniki (parentes) estragou todo o meu conceito de parentescos e relações, e um incidente em particular, da época em que vivemos juntos, prendeu-se ao buraco de minha memória. Meu primo distante e mais velho, Tima, deu um vacilo e talvez tenha vendido uma jaqueta de couro por um preço errado no mercado de pulgas, e seu pai, Gricha, bate nele na frente de toda a família. Há uma frase russa aqui – dal emu po shee, levar uma no pescoço. Estou no chão do apartamento da tia Sonya com meu novo brinquedo, uma caneta americana que se abre e fecha em um clique, completamente absorto no belo movimento, quando, de repente, ouve-se o som da palma da mão aberta batendo em um pescoço adolescente. O Primo Distante Tima é moreno, esguio, com os primeiros sinais de um bigode meio sefardita, e vejo-o se contorcer e se dobrar enquanto recebe o golpe. Ele fica lá com a dor no pescoço, enquanto todo mundo olha, como se ele estivesse pelado. A primeira coisa que me passa pela cabeça é: Não fui eu quem levou no pescoço! E a segunda: Tima não vai chorar. E ele não chora mesmo. O moleque dá de ombros, sorri com amargura e engole tudo para usar no futuro. Isto é o que vai separar o primo distante Tima ou dr. Tima, como ele é chamado agora, de um chorão como eu.

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Queens, Nova York, nos anos 1970. [fonte: www.forgotten-ny.com]

Esforçados e astutos, nossos parentes já estão fazendo um pé de meia no mercado de pulgas, o que em breve os colocará em um dos subúrbios mais célebres de Long Island, um pé-de-meia que, para ser feito, são precisos muitos tapas no pescoço. Em 1979, parte dessa grana terá sido investida em televisores tão grandes (uma medida diagonal de 25 polegadas!) que eu até evito brincar com minha caneta perto deles, pois temo que, caso se explodam ao estilo soviético, os aparelhos tragam abaixo toda a sala de estar. O dinheiro também foi gasto em stenki, literalmente “paredes”, uma espécie de estante em mogno, laqueada a um nível enlouquecedor, que, junto com a jaqueta de couro, é adorada pelos russos. Deitado no chão, eu olho para meu próprio reflexo de mogno, sabendo que as “paredes” laqueadas e a Zenith de 25 polegadas com controle remoto Space Command são o máximo da realização humana. Se fizermos tudo certo, se meus pais aprenderem a vender jaquetas de couro com grande astúcia, um dia poderemos viver assim também.

Com o auxílio da enorme rede de imigrantes, meu pai encontra um apartamento na calma e segura Kew Gardens, Queens, pelo preço justo de $235 por mês. O apartamento de um quarto terá de acomodar três gerações – eu, mamãe, papai, vovó Polya e seu belicoso marido Ilya, ou, como seus amigos o chamam, Goebbels. Com os nossos dois sacos verdes-oliva e três malas laranja feitas de couro polonês legítimo, deixamos um campo de batalha, nossos parentes lobos, e rumamos para um ambiente bem menor, no qual ruminaremos as lástimas do Velho Mundo e criaremos outras do Novo Mundo.

Quanto aos parentes lobos, eu raramente os vejo depois que arranjamos nosso próprio apê, mas tenho notícias diárias deles. Eles vêm tentando convencer meu pai a deixar minha mãe e procurar uma mulher, digamos, mais preparada para o mercado de pulgas. Quanto mais minha mãe chora na sala de estar em razão de todas aquelas tias de cabelos com permanente mandarem papai deixá-la, mais eu choro no banheiro. Vinte e dois anos mais tarde, um parente mais recentemente chegado, um homem de meia-idade que é também o mais gentil da trupe, jogará o meu primeiro romance no chão e cuspirá nele, talvez por razões ideológicas. Quando penso em meus parentes, penso nesse tipo de expressão exacerbada de emoção, muito provinciana. Jogar o livro no chão, tudo bem. Cuspir, beleza. Mas fazer as duas coisas? Isto não é um filme de Bollywood.

O apartamento fica próximo à agitada Union Turnpike, perto do ponto de junção em que ela ruidosamente confronta a Grand Central Parkway e a Van Wyck Expressway, e de frente para o Kew Motor Inn, um estabelecimento dos anos 1960 que, como somos recém-chegados ao país, não identificamos logo de cara como o “mais famoso e exótico motel ‘para casais’ do Queens”. A Suíte Egípcia, que custa a bagatela de 49 dólares a hora, estranhamente lembra os cômodos espelhados, laqueados, estilo Cleópatra de nossos parentes. Basta tirar a jaqueta de couro, pagar a prostituta, e você já se sente em casa.

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Propaganda do Kew Motor Inn [data desconhecida/ fonte: www.typophile.com]

Nosso apartamento dá para um pátio agradável com uma dúzia de carvalhos que são o lar de um punhado de esquilos. Tento presentear essas criaturas gorduchas de cauda espessa com amendoim, uma verdadeira maravilha americana que ao leve toque do dedo médio e do polegar libera seu tesouro crocante. Os esquilos olham diretamente nos meus olhos com as bochechas famintas tremendo. Quando eu me inclino para jogar-lhes minha guloseima, eles estão tão próximos que é possível tocar com as mãos esses roedores urbanos destemidos. Identifico uma família de três, um perfeito reflexo de minha família imediata: um parece ansioso, o outro infeliz, e um é jovem demais para saber a diferença. Eu os chamo de Laika, Belka e Strelka, em referência aos três cosmonautas caninos lançados ao espaço nos anos 1950 e 1960. Sei que não devo mais raciocinar como soviético, mas Belka, o nome do segundo cão, significa “esquilo” em russo. Fazer o quê?

O primeiro acontecimento importante para mim em Kew Gardens, Queens, é que eu me apaixono por caixas de cereais. Nessa época, não temos condições de comprar brinquedo, mas precisamos comer, e cereais são mais ou menos alimentos. São granulados, macios e leves, com um toque frutado falso. Têm um sabor similar à sensação que a América nos causa. Fico obcecado com o fato de que muitas caixas de cereais vêm com brindes dentro, o que me parece um milagre sem precedentes. Presente em troca de nada. O meu brinde preferido vem em uma caixa de cereais da marca Honeycomb, uma caixa com um garoto branco sardento e saudável – começo a tomá-lo como modelo importante a ser seguido – em uma bicicleta voando pelo céu. (Muitos anos depois descubro que ele provavelmente está “empinando”.) O que se encontra dentro de cada caixa da Honeycomb são pequenas placas para serem presas na traseira da bicicleta. As placas são muito menores do que as de verdade, mas têm um peso metálico legal. Sempre ganho uma de MICHIGAN, uma placa muito simples, com letras brancas em um fundo preto. Passo os dedos sobre a palavra. Leio em voz alta, pronunciando quase tudo errado. MEESHUGAN.

Depois de juntar uma pilha bem grossa de placas, eu as seguro na mão e as espalho como cartas de baralho. Volta e meia eu as jogo no colchão velho que meus pais pegaram no lixo perto de casa, em seguida, eu as recolho e as pressiono contra o peito sem nenhum motivo. Eu as escondo debaixo do travesseiro e depois brinco de achá-las, imitando um cão pós-soviético demente. Cada placa é definitivamente única e exclusiva. Alguns estados se apresentam como “Terra do Laticínio da América”; outros desejam “Viver com Liberdade ou Morrer”. O que eu preciso agora, muito seriamente, é arranjar uma bicicleta de verdade.

honeycombNa América, a distância entre querer algo e tê-lo entregue na sua sala de estar não é muito grande. Eu quero uma bicicleta, então um vizinho americano rico (todos eles são indescritivelmente ricos) me dá uma bicicleta. Trata-se de uma monstruosidade vermelha enferrujada com alguns raios perigosamente soltos, mas é uma bicicleta. Nela, prendo uma placa e passo a maior parte do dia tentando decidir qual placa usar em seguida, se a da cítrica e ensolarada FLÓRIDA ou da gélida VERMONT. É disso que a América se trata: escolha.

Não tenho muita escolha de amigos, mas há uma menina caolha em nosso condomínio com quem mais ou menos fiz amizade. Ela é pequena, desengonçada e pobre como nós. No início ficamos ressabiados um com o outro, mas como eu sou imigrante e ela é caolha acaba em empate. A garota anda numa bicicleta meio quebrada como a minha e vive caindo e se ralando toda (dizem as más línguas que foi assim que ela perdeu o olho), e, toda vez que as mãos sangram, ela berra, erguendo a cabeça loira para o céu. Um dia ela me vê andando com minha bicicleta ferrada com a placa da Honeycomb na traseira e grita:

– MICHIGAN! MICHIGAN!

E eu prossigo, sorrindo e tocando a buzina, orgulhoso das letras inglesas que estão grudadas em algum lugar abaixo da minha bunda. Michigan! Michigan! com sua placa preta azulada, a mesma cor do olho que restou no rosto de minha amiga. Michigan, com seu delicioso nome americano. Que sorte a de quem mora lá.

E mesmo aqui, tão longe das cidades maravilhosas de Lansing, Flint e Detroit, algo próximo a uma vida está começando para mim. Aparento estar saudável, com os pulmões aceitando e absorvendo oxigênio, menos obcecado por coisas soviéticas graças às placas da Honeycomb e à antiga e colorida pilha dos livros Tudo sobre Roma, Tudo sobre Veneza e Tudo sobre Florença, que hoje considero como as leituras fundamentais em minha formação. Tenho a permissão de comprar um álbum de selos com o retrato de um pirata invocado na capa e também de encomendar mil selos de uma empresa em Nova York. Alguns dos selos são da União Soviética, para meu desgosto, lembranças da Olimpíada de Moscou que se aproxima, mas também têm lindos selos dourados do Haiti, com imagens de pessoas trabalhando no campo, das quais ouvimos tanto falar, ou seja, negros. (Alguns dos outros selos, por razões que até hoje fogem à minha compreensão, estampam a frase DEUTSCHES REICH; um ilustra um jipe explodindo pelos ares. Em outro, um homem baixo, uniformizado e com um bigodinho engraçado abaixa-se para acariciar o rosto de uma menina segurando uma cesta de flores sob as palavras 20 de abril de 1940.).

Meu pai subempregado e eu vamos ao parquinho do bairro no final da rua. A princípio, ficamos sem entender nada quando vemos uns meninos que gostam de correr ao redor de um campo empoeirado depois de bater uma bola com um bastão de alumínio oco sem nenhum propósito. Então, levamos nosso negócio: uma bola de futebol europeia. Daí alguns meninos mais velhos se juntam a nós para chutá-la. Eu não sou bom em futbol, mas também não sou completamente incompetente, não com Papai ao meu lado, todo fortão.

E então dá tudo muito errado.

* Os nomes dos parentes do meu pai foram alterados.

Assista ao booktrailer de Fracassinho.

Gary Shteyngart nasceu na Rússia, em 1972, e foi para os Estados Unidos aos sete anos. Indicado pela Granta como um dos melhores jovens romancistas americanos, publicou no Brasil, pela Rocco, Absurdistão, considerado o livro do ano pela revista Time, e Uma história de amor real e supertriste, eleito um dos dez melhores do ano pelo The New York Times. Esse mês, outubro, lança Fracassinho.

 

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