Sobre Vasto mar de sargaços, de Jean Rhys

Por: Leonardo Petersen Lamha
11 de abril de 2016


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Jean Rhys, cuja obra-prima Vasto mar de sargaços completa cinquenta anos de publicação em 2016, nasceu em 1890 e foi criada numa época em que a abolição da escravidão nas Antilhas já fazia parte do passado. Mas, no romance, que se passa em meados do século XIX, a abolição destruiu muitas das famílias que dependiam de escravos nas plantações. Começava uma nova época, mas as práticas antigas ainda persistiam, como a da magia, e famílias brancas ou mestiças (como a de Rhys) eram chamadas de “baratas brancas”. Assim dividida, devorava literatura ocidental, mas mantinha, no fundo da mente, histórias de magia e colonialismo. Emigrada para a Inglaterra, aos 16 anos, foi ridicularizada pelo seu sotaque inglês caribenho, trabalhou como dançarina, modelo para pintores, envolveu-se com bebida, homens ruins, viveu na pobreza. Sua beleza encantava de longe. “Quando eu era jovem, nunca consegui entender, nunca entendi mesmo, por que todos me chamavam de boneca. Era horrível”. Só começou a escrever um pouco mais tarde, e justificava sua aceitação no clube dos literatos europeus com os termos “necessidade” e “acaso”. Embora seu talento e gênio estivessem claros, foi continuamente incitada a escrever por parceiros masculinos, dentre eles o ícone da boemia modernista Ford Maddox Ford. Uma vez, destruiu os manuscritos de um romance para punir seu editor e parceiro. Como suas protagonistas, sempre que tentava punir um homem, Rhys terminava também punindo a si mesma.

Jean Rhys cresceu ouvindo histórias de mulheres sendo levadas para a Europa em casamentos arranjados. Ao reler Jane Eyre, de Charlotte Brönte, soube que precisaria escrever a história de Bertha, a primeira e secreta esposa caribenha de Edward Rochester, trancafiada no sótão por ter enlouquecido. Que Antoinette Cowsay, em seu processo de ser renomeada para Bertha Mason por seu marido, pudesse contar a própria história nos próprios termos – esse foi o grande desafio da vida literária de Rhys. Durante a composição do romance, que durou duas décadas, a primeira dificuldade foi que a voz que havia inicialmente encontrado para Bertha/Antoinette soava “louca demais”. Antoinette não poderia falar com essa voz, cuja loucura teria que ter sido o resultado de um processo e não uma causa.

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Jean Rhys, autora de Vasto mar de sargaços

Sempre que passava por dificuldades com seus romances e sempre que se sentia deprimida, Rhys escrevia poemas que só enviava a amigos e editores. Não sabendo como sustentar seu romance só com a voz de Antoinette, o segundo clique veio quando Rhys se pegou escrevendo um poema, “Obeah Nights”, assinando-o com o nome do jovem Edward Rochester. Transposto laboriosamente para prosa, e constituindo a principal parte do díptico de pontos de vistas que é Vasto mar de sargaços, Obeah Nights conta a viagem de Rochester à Jamaica para conhecer a linda crioula que seria sua esposa, e a subsequente noite de amor entre os dois. Logo a história se torna a longa justificativa de Rochester sobre como, nos trópicos, sob o signo da Obeah – magia negra proibida no caribe do século XIX –, seu amor se transmutou em ódio. “I can soon show her / who hates the best; / Always she awnsers me / I will hate last”.

O poema e o romance escrutinam o sóbrio amor vitoriano, e o expõe à natureza das Antilhas, que Brönte só conhecia de ouvir falar.

Essa natureza, escreve o poeta caribenho Derek Walcott, Nobel de Literatura de 1992, “é ainda hoje a mesma da velha Dominica escrita por Rhys”. Para o viajante europeu literato (para quem o inverno “adiciona profundidade e escuridão à vida e também à literatura”), a natureza nos trópicos é “tão exultante, tão estática quanto sua música. E uma cultura baseada na alegria não tem como não ser vazia”. O visitante se depara com um povo que só conhece duas estações do ano, que “habita uma geografia cujo ritmo, como sua música, é limitado a dois polos: quente e úmido, sol e chuva, luz e sombra, dia e noite, e portanto um povo que desconhece as sutilezas da contradição, da complexidade imaginativa”.

A natureza polarizada, descrita por Walcott, é a mesma que justifica a “natureza bipolar” de Antoinette aos olhos de Rochester. Primeiro ela entrega-se a Rochester com amor infinito. No momento seguinte, quando pressionada a revelar a loucura que corre em sua família, e afetada pela súbita frieza e ciúme de Rochester, entra em desespero. Para o inglês, bicho social, a mulher caribenha é parte da natureza deslumbrante, porém desgraçadamente estática entre dois polos.

Referindo-se à atração entre Rochester e Antoinette, e à fatídica noite de amor e Obeah, uma carta de Rhys completa o link com a natureza dos trópicos : Os negros possuem uma boa palavra: “ele ‘enfeitiça’ com ela”, ou, “ela ‘enfeitiça’ com ele”. [he magicked with her]. Porque, perceba, é isso que é – magia, intoxicação. Não amor. Há também a magia do lugar, que não é só praias lindas e povo sorridente – pode ser um tipo muito perturbador de beleza.

Em suma, natureza e magia formam o núcleo de Vasto mar de sargaços. Ela própria dividida entre o Caribe, a Inglaterra e Paris, Rhys é tanto Rochester quanto Antoinette, e num sentido maior do que o expressado no dito “o escritor é todos os seus personagens”. Os primeiros rascunhos do romance partiram não apenas de suas lembranças antes de emigrar para a Inglaterra, mas “principalmente do que [a] contaram, e isso talvez seja até mais importante”. Dito de outro modo, Rhys cresceu afetada pela cultura africana dos ex-escravos, agora tornados “serventes” pagos. Foi exposta a um reservatório de energias ao qual ela não pertencia totalmente, apenas o bastante para estar vulnerável. Foi, seja dito logo, vítima de magia.

Profundamente calcada na crença endurecida naquilo que é ‘dado’ numa cultura, a magia consiste em coisas dita pelo canto da boca, cochichos nos corredores, cartas anônimas e segredos. Ser afetado por fofoca é ser “magicked”. A magia envolve uma mistura muito particular de crença e descrença. Rochester, na noite fatídica, bebe uma poção de amor articulada pela desesperada Antoinette e finge (para si mesmo, ainda ouvindo cochichos e vento nas árvores) estar sendo vítima de bruxaria. Fingir ser e ser são indistinguíveis sob o signo da Obeah. Não estamos mais no mundo de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, onde o narrador mantém a estabilidade da narração. Em Rhys o que ocorre é a dissolução do objeto mágico no sujeito que narra, e o resultado é o trágico.

“Porque nós nos orgulhamos de não acreditarmos mais em feitiçaria”, diz Isabelle Stegners, autora de um livro sobre feitiçaria no mundo moderno, “acabamos falhando em produzir as precauções necessárias”.

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Em 2016, não estamos tão longe do século XIX, nem da década de sessenta, de Vasto mar de sargaços, hoje carimbado com o selo do clássico e do pós-colonialismo. O romance é menos denúncia do colonialismo do que produto mesmo de duas culturas, de duas épocas, de duas práticas culturais. Rhys foi uma não-pertencente. Em um caso que remete imediatamente ao de Rhys, Derek Walcott descreve a luta para abandonar a dupla dívida, uma colonial e caribenha, a outra literária e europeia, a que os escritores e poetas das Antilhas se prendiam. O que é preciso, diz Walcott, ecoando Stephen Dedalus, é a tarefa impossível de livrar-se do pesadelo da História. Não da realidade inatingível por trás da palavra, mas do conceito mesmo de História, ao qual, como funcionários, se reportariam os artistas: Eu digo ao ancestral que me vendeu, e ao ancestral que me comprou, eu não tenho pai, não quero tal pai, embora eu entenda vocês, fantasma negro, fantasma branco, quando ambos sussurram “história”, pois se eu tento perdoá-lhes, caio na sua noção de História, que me justificaria, explicaria e expiaria, mas ela não é minha para que eu possa perdoá-lhes, minha memória não consegue evocar nenhum amor filial, já que seus traços são anônimos e apagados e eu não possuo o desejo nem o poder de perdoar, mas a vocês, eu, assim como os mais honestos da minha raça, concedo um agradecimento estranho.

Leonardo Petersen Lamha é crítico e roteirista.

TAGS: 50 anos, Escravidão, Jamaica, Jean Rhys, Livro, loucura, mulher, poema, século XIX, Vasto mar de sargaços,

Comentários sobre "Sobre Vasto mar de sargaços, de Jean Rhys"

  1. Olá,

    A tradução de Wide Sargasso Sea publicada pela editora é meu objeto de estudo no mestrado. Sou aluna da pós-graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Infelizmente, não encontro informações sobre a tradutora (Léa Viveiros de Castro), nem mesmo na página de vocês, desse modo, gostaria de saber se seria possível me passar algum contato dela. Seria muito importante para o desenvolvimento da minha pesquisa.
    Agradeço imensamente,
    Naylane Matos

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