Sobre “Que tipo de homem escreve uma história de amor?”

por Luciana Pessanha
26 de fevereiro de 2015


Luciana Pessanha 2015_editada

São tantos os caminhos que levam a um livro, e o processo de feitura é tão longo, que muitas vezes esquecemos como tudo se deu. Mas vou tentar.

De um lado, eu andava miserável, sem nenhuma ideia há anos. Até que me lembrei de um livro de textos curtos, muito delicado, que ganhei de um amigo, em 2002:Samuel Johnson is indignant, de Lydia Davis. No auge da minha seca criativa, resolvi que imitaria descaradamente a senhora Davis, e faria meu próprio Samuel, com textos retirados dos meus cadernos de anotações.  O problema é que, depois de ler e reler uma pilha deles, separei não mais do que uma dúzia de páginas.

Por outro lado, Margaret Atwood disse uma vez que se uma mulher escreve um livro narrado por uma mulher, sempre vão dizer que é um livro sobre o universo feminino. Já se um homem escreve um livro com personagem masculino, será uma história sobre a alma humana – ou algo que o valha. Como sou metida a mais não poder, resolvi que escreveria um livro com narrador homem. Assim surgiu Daniel.

Que tipo de homem escreve uma historia de amor_capa menorDe modo que, na largada, eu tinha Daniel e poucos textos que jamais teriam sido escritos por um homem. Daí ele ter se tornado um escritor desamparado que rouba os diários de sua amiga, Ana.

Verônica veio mais tarde, para salvar Daniel. Porque um homem trancado em casa para escrever um livro, platonicamente apaixonado por uma louca desaparecida, sem transar com ninguém, achei que seria pouco crível.

O resto está no livro, que concebi como um exercício de linguagem, mas que, como tenho uma veia cômica compulsiva, pode ser lido como uma crônica, um deboche, uma sátira sobre a ambição que leva um desavisado a querer escrever um livro e o tortuoso caminho a ser percorrido entre o desejo e sua realização.

E sim, ainda por cima, é uma história de amor.

 

Luciana Pessanha é escritora, roteirista e dramaturga. Pela Rocco, lançou Como Montar uma Mulher-bomba (2008) e, este mês, Que tipo de homem escreve uma história de amor? (2015).

 

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