Sobre mulheres e lobos

por Mariana Bandarra e Barbara Nickel
1 de outubro de 2018


Mulheres que correm com os lobos é um best-seller improvável, que desafia rótulos e explicações. Lançado em 1992 pela psicanalista, poetisa e contadora de histórias americana Clarissa Pinkola Estés, o livro mistura histórias folclóricas com uma profunda análise psicológica para resgatar a natureza feminina indomável, tudo isso temperado com doses generosas de espiritualidade e sabedoria. Como a própria natureza profunda das mulheres, a experiência de ler Mulheres que correm… é multifacetada e poderosa; às vezes sedutora e outras aterrorizante. Mesmo que as histórias sejam povoadas por mocinhas, bruxas, vilões, animais e criaturas mágicas, a protagonista do livro é a própria leitora.

Um livro para ler sem pressa
Parte desta mística ao redor do livro tem a ver com o fato de que sua sua leitura não é lá muito fácil. Ao longo de décadas, incontáveis grupos, círculos, clubes e seminários vêm reunindo leitoras em busca de um entendimento mais profundo sobre os mitos, lendas e contos-de-fadas com que a autora ilustra o universo feminino profundo. As palavras de Clarissa constroem uma ponte entre as histórias da nossa própria vida e as histórias ancestrais que exemplificam o funcionamento saudável da psiquê feminina. Cabe a cada leitora cruzar essa ponte e explorar seus territórios ocultos. Uma vez iluminados, esses territórios podem ser integrados (o que leva tempo) e podemos voltar a eles com a frequência ou profundidade que quisermos. Nas palavras da atriz Emma Watson, que selecionou Mulheres que correm… para seu clube de leitura, o livro deve ser lido “no seu próprio ritmo, sem pressa. Mas ele muda a sua vida”. Watson faz parte de uma nova geração de leitoras, muitas das quais descobriram o livro nas estantes de suas mães.

Um segredo compartilhado entre mulheres
A indicação de leitura parte quase sempre de uma mulher para outra, como uma velha receita de família para curar aqueles males que não devemos comentar em público. No mundo todo, as mulheres estão se empoderando através do resgate de saberes ancestrais. Desde o parto natural até os escalda-pés, passando pelos remédios caseiros e hortas no quintal de casa, estamos redescobrindo tesouros e experiências de nossas mães, avós e bisavós. Mais que um livro de histórias, Mulheres que correm… é um mapa do tesouro que, como nos velhos filmes de pirata, está incompleto. Cabe à leitora aventureira completar esse mapa com sua própria história e desenterrar seu tesouro. Abaixo, a gente destaca três tesouros-poderes que você ganha durante a aventura de ler (ou reler) esse clássico.

1. O poder de saber quem você é de verdade
Quem você era antes de aprender o que deveria ser? É comum sermos valorizadas sobretudo por nossa capacidade de fazer coisas pelos outros — isso faz com que muitas mulheres acabem se definindo pelo afeto ou pela aprovação das pessoas à sua volta. Histórias como La Loba, Manawee e Pele de foca não só ensinam a reconhecer a falsa identidade (aquela máscara que a gente usa para ser aceita mas que acaba nos sufocando mais cedo ou mais tarde) como também oferecem instruções para reconhecer e cultivar aquilo que te torna única. Desse entendimento surge um convívio diferente consigo mesma, um espaço íntimo onde o amor próprio se desenvolve e rende frutos. Mulheres que reconhecem e honram suas necessidades profundas têm um poder inegável. Ao se libertarem do desejo de agradar, elas podem até perder o afeto e a aprovação de quem só gosta do que é fácil, mas conquistam uma grande força criativa e atraem relações mais verdadeiras.

2. O poder de usar o “instinto selvagem” ao seu favor
Pouco se fala sobre a natureza instintiva das mulheres para além do instinto materno e do famoso “sexto sentido”. Treinadas desde a infância para a obediência e para a docilidade, muitas mulheres se desconectam de seus instintos e acabam se sentindo incapazes de decidir o que é melhor para si. Histórias como Vasalisa e Sapatinhos Vermelhos nos ensinam um caminho para superar o medo de perder o controle, “farejar” o perigo e “alimentar” a voz da intuição para desbloquear o poder da autoconfiança. Para deixar um emprego fixo e abrir o próprio negócio, por exemplo, uma mulher precisa prestar mais atenção aos próprios instintos do que às opiniões alheias e ao ruído do ambiente. Só é possível criar algo novo com segurança quando a voz interior fala mais alto que as críticas.

3. O poder de valorizar a própria história
Histórias são remédios para feridas interiores. Reconhecer aspectos de si em cada história requer coragem. Coragem para enfrentar as partes de nós mesmas das quais não gostamos, aquelas que consideramos “feias”, que passamos a vida toda tentando esconder. Escondidas, essas partes crescem, se fortalecem e se tornam realmente destrutivas. O grande presente que o livro de Dra. Clarissa nos oferece talvez seja a capacidade de reconhecer que o maior potencial de cura e transformação está justamente nas partes mais difíceis da nossa história, nos aspectos mais indesejáveis da nossa personalidade. Quando uma mulher compartilha a verdade da própria história, ela começa a se curar. Esse poder de cura toca tudo ao seu redor. Essa é a maior beleza de uma jornada de transformação: quando a gente muda, a gente começa a se orgulhar da própria história. E quando a gente muda juntas, o mundo muda junto.

Mariana Bandarra é artista, estrategista e sacerdotisa. Barbara Nickel é jornalista, pesquisadora e fazedora. Juntas, as duas comandam o podcast Talvez seja isso, que desbrava os ensinamentos e histórias de Mulheres que correm com os lobos. No grupo fechado do projeto, esse conhecimento é amplificado através de trocas com muitas outras mulheres. Para ouvir e participar: www.talvezsejaisso.com

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