Sobre Fila e democracia

por Everardo Rocha
1 de junho de 2017


Os corpos humanos estão entre as primeiras matérias sobre as quais a cultura inscreve sua marca. Os corpos possuem imensa plasticidade, são flexíveis e o que neles se fixa é a atribuição a um tempo e a um lugar. São uma espécie de suporte de significados ou mesmo cabide de símbolos que expressa o que somos e o que foi feito de nós – nossa história singular e nossa pertinência a um coletivo. Gestos, modos de andar, expressões faciais ou trejeitos são manifestações de algo que vai além do evidente. Expressam o mundo que nos moldou e aquilo que fizemos com essa moldura. Os corpos revelam o “eu” que somos e os “outros” em meio aos quais aprendemos a ser.

A fila, como um modo de ordenação dos corpos, pode ser uma “prova” tangível do valor da “igualdade” e, paradoxalmente, “incomoda”, constrange corações e mentes, pois também nos imaginamos “desiguais”. A fila exprime um precário equilíbrio entre a igualdade e a desigualdade. Como explica brilhantemente este livro, a fila é a revelação de um delicado balanço entre eixos básicos da vida moderna como o individual e o coletivo, o todo e a parte, a diferença e a similitude, o mérito e o puro poder ou a mobilidade das democracias e a rigidez dos aristocratas.

Com a fila, aqui decifrada por Roberto DaMatta e Alberto Junqueira, aprendemos muito sobre nossa cultura, seus limites e possibilidades, o que somos e o que idealizamos ser. Aprendemos o quanto de nós se traduz em uma singela ordenação de corpos, em uma experiência cotidiana, em um detalhe humilde que escondia um tesouro de informações, cujo mapa esse livro entrega, para compreender o Brasil. Esse Brasil que, com a mesma frequência com que entramos em fila, nos deixa perplexos com seus paradoxos, seus impasses, sua inconstância.

Trata-se de um livro que, a partir do que é bem simples e corriqueiro, lança uma poderosa luz sobre essa gigantesca complexidade brasileira da qual, queiramos ou não, todos nós fazemos parte. Uma leitura absolutamente indispensável para estudantes de Ciências Sociais, Direito, Comunicação, Administração de Empresas e todos os que querem conhecer os poderes, os perigos, as dores e, por que não dizer, a beleza de nossa vida social aqui magistralmente revelada.

Everardo Rocha é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e Professor-Associado do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUC-Rio.

TAGS: artigo, Fila e democracia,

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *