Sob o low sky

por Claudia Nina
14 de junho de 2014


Encaixotando Helena (1993)

Eu estava a milhares de quilômetros do país familiar. Não compreendia a língua. Todos andavam depressa. E, ao me ultrapassarem, todos se desligavam de mim. Perdi o passo.
— Albert Camus, em O avesso e o direito

 

Quando morei na Holanda em fins dos anos 1990, jamais imaginei que um dia poderia escrever um romance ambientado naquele país. Acredito que foi muito bom viver sem a intenção de escrever; a ficção que molha a ponta na vida real, como biscoito no leite, ganha substância quando o tempo afasta o vivido do narrado. Precisei de alguns 15 anos até conseguir trabalhar a emoção e transfigurar a realidade, entortá-la como colher de mágico, e criar um romance. O que é real na história é só isto: o cenário e a sensação de não-pertencimento a Amsterdã. Em um país tão arrumado, cheiroso e perfeito, senti falta da desordem, da multidão e do caos.

Para criar Helena, busquei várias referências. Algumas leituras foram essenciais e estão crucialmente ligadas à Paisagem de porcelana, em especial O avesso e o direito de Albert Camus, conjunto de ensaios literários, em que o autor desfigura a solidão absoluta em lugares onde se sentia deslocado e inútil, como em Praga. Em “Com a morte na alma”, ele descreve uma angústia semelhante à de Helena: “Há dias eu não pronunciara uma única palavra, e meu coração explodia de gritos e revoltas contidas. Eu teria chorado como uma criança se alguém abrisse os braços para mim.” Ao deixar Praga, em um trem que o conduzia a Veneza depois de uma passagem por Viena, ele completa: “Estava como um convalescente que foi alimentado com caldos e que fica pensando como será a primeira casca de pão que vai comer.”

Para criar um enredo forte, quis colocar Helena em situações-limite. As quedas que ela sofre são como estações de trem, paradas no meio de um caminho que, aos poucos, a conduzem ao esfarelamento da alma e do corpo. O nome da personagem eu busquei de um filme de 1993, chamado Encaixotando Helena, história de obsessão de um homem por uma mulher que chega ao extremo da loucura.

O “céu baixo” a que me refiro em alguns momentos vem do livro que ganhei de presente de uns holandeses, traduzido para o inglês, naturalmente: The low sky: understanding the Dutch  – the book that makes the Netherlands familiar, de Han van der Horst. Jamais li o livro, assim como nunca fui capaz de entender os holandeses. Acho que foi melhor assim. É no estranhamento que o literário se faz.

 

Claudia Nina é carioca, jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda. Paisagem de porcelana é seu primeiro livro pela Rocco.

 

TAGS: Albert Camus, Amsterdã, Claudia Nina, Encaixotando Helena, Paisagem de porcelana,

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