Síndrome de Caim

Por André de Leones
21 de dezembro de 2017


O inferno é um lugar barulhento, e é por lá ou, melhor dizendo, por aqui, nesse inferno onde nos acotovelamos na interminável noite brasileira, que Patrícia Melo oferece um passeio em Gog Magog, neste que é o décimo romance da autora paulista, o ódio irrompe como a doença nacional por excelência, a infecção que se espalha, a princípio silenciosa e por fim ensurdecedora, mas sempre anuladora, por todo o tecido social.

Tudo começa com uma desavença entre vizinhos. O narrador, um professor de escola pública, não entende “por que o ruído não é considerado um tipo eficiente de arma branca” e é cotidianamente achacado pelos barulhos perpetrados pelo morador do apartamento acima, Ygor, a quem chama de “senhor Ípsilon”. Por irascibilidade de ambos, as tentativas de contornar ou resolver o problema só alimentam a animosidade entre eles. O tal senhor Ípsilon não quer saber de conversa e acusa o outro de querer que ele “não exista”, pois viver “é barulhento” e não é possível fazê-lo “no ‘mute’”; o protagonista logo percebe que “aquilo não vai parar”, pois colocaram “outras forças em ação, forças que agora nos tratavam como escravos”. A partir daí, o ódio entre eles se abre “como um oceano majestoso e sem fim”.

E o país que salta das páginas do romance é uma ilha no oceano supracitado, um ponto sangrento “num mundo em que foi consumada a liquidação do silêncio”, uma aldeia na qual todo e qualquer vizinho é impossível de ser respeitado, posto que se tornou um inimigo ou o inimigo. Diante da ausência total de empatia, diante do fracasso de qualquer tentativa de diálogo, fala a violência: invade-se o lugar do outro e, por fim, o outro, “mutando-o”. Vivemos, então, em um lugar como que assolado por uma espécie de Síndrome de Caim, onde a obliteração do semelhante, pelos motivos mais torpes, mais banais, é algo assim mais do que corriqueiro.

É para isso que, a partir de um determinado momento, o cadáver mal ou sequer ocultado, que se dependura nas páginas do romance, parece apontar: a gratuidade das circunstâncias que o levaram àquele estado, a facilidade com que tudo acontece, com que tudo se desenrola, a opacidade moral que, acesa por um contratempo qualquer, leva um indivíduo a trucidar seu vizinho.

O desconforto é minuciosamente explorado pela narração em primeira pessoa: “Hoje”, diz o protagonista, “não tenho nenhuma vergonha de admitir meus desejos homicidas. Na verdade, é ignorância pensar que há algo patológico nesse tipo de prazer.” E mais: é enganoso “pensar que é infeliz o homem que odeia”, pois o ódio “é uma forma de entretenimento” e é “preferível odiar a não sentir nada”. E o ódio no qual ele se assenta é tão mais perturbador porque pedestre, banal, ou alimentado por circunstâncias pedestres, banais.

Em Gog Magog, o outro é o inimigo exterior que reflete o inimigo interior, e à anulação do primeiro segue a autoanulação. Que descansemos em paz.

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