Roupa de gala para festa iniciática

por Maria Inez do Espírito Santo
8 de outubro de 2018


Mulheres que correm com os lobos vem aí em capa dura! – é a notícia que recebo. Uma roupagem de gala está sendo cuidadosamente preparada para celebrar mais de um quarto de século do lançamento desse livro, que vem, ano a ano, em múltiplas e diversas edições, sendo destaque no mundo inteiro.

Volto os olhos a meu antigo exemplar, encadernado há mais ou menos 15 anos, para que se preservasse do desgaste da contínua manipulação, quase bíblia se tornou, em minha jornada de terapeuta cultural e coordenadora de grupos de leitura. Amigo leal! Inspirou-me, apoiou e indicou caminhos para conhecer-me melhor, na troca com cada companheiro/a de leitura, que encontrei nesse longo tempo. Aqui está ele – parceiro e estimulador em tantas descobertas -em couro vermelho, encobrindo a linda capa original, mantida oculta como segunda pele.

Os novos leitores terão mais sorte: poderão contemplar o rosto do livro, em segurança, e saborear sua leitura com mais conforto. Um presente!

Sem dúvida, Clarissa Pínkola Estés, a autora – psicanalista junguiana e contadora/cantadora como ela própria se apresenta – é uma dessas criaturas tocadas pela inspiração. Com larga e reconhecida experiência profissional como terapeuta, mais que criar histórias, ela as amplia. Vai narrando, com texto rico e poético, contos, mitos e lendas tradicionais de diferentes países e nos fazendo entrar nos enredos, quase instantaneamente, como se fôssemos, simultaneamente, cada uma das personagens que apresenta. Essa, a magia que provoca o tom singular de sua escrita!

Desse modo, a interpretação que propõe, a partir de cada história, já nos encontra completamente disponíveis, internamente, e prontos a caminhar com ela, em confiança. Vamos indo, então, passo a passo, voltando muitas vezes por atalhos, circundando vales e montanhas, atravessando riachos e transpondo abismos, de acordo com a menor ou maior complexidade dos temas, mas sempre encantados com as paisagens interiores, que vão se mostrando a nós.

Muitas vezes, em seus textos, Clarissa fala em “espinha dorsal” que cada conto possui. Aquilo que se mantém como estrutura, independentemente das múltiplas versões pessoais que os contadores possam apresentar, acrescentando ou subtraindo detalhes a seu bel-prazer e estilo. E qual seria, em Mulheres que correm com os lobos, essa espinha dorsal, o esqueleto que sustenta o livro, levando-o a ser aceito e consagrado nos quatro cantos do mundo, em diferentes traduções, sem perder seu fio condutor? Penso que, ao nos apresentar a instância que a psicanálise conceitua de verdadeiro self, usando o nome de  feminino selvagem, e, ao transpor esse poder inato para todos os seres humanos – homens e mulheres – ela ressalta o eixo central, o centro criador que existe em cada ser humano e que nos identifica como criaturas – parceiros constantes na concepção e preservação do Universo.

Ao mesmo tempo, destacando a mulher como aquela que contém, em si, a origem do mistério da criação, Clarissa nos eleva, a todas, e nos alerta para a necessidade de sermos solidárias, parceiras, responsáveis pela geração e manutenção da esperança, da fertilidade, da saúde, do amor.

A leitura de Mulheres que correm com os lobos pode ser, ao mesmo tempo, simples e densa, porque provoca o contato com questões fundamentais e as aprofunda, passo a passo. Daí sua leitura, feita em grupos, ser tão eficaz. Em minha experiência, sempre que possível, formamos grupos mistos, com jovens e adultos, de qualquer gênero. Pudemos confirmar, assim, como a diversidade estimula, amplifica a compreensão do texto e dinamiza os encontros.

Um detalhado e inesquecível roteiro! Em 15 capítulos, a cada história, muitas lições a aprender: de como encontrar a energia motriz; de como reconhecer o predador e se defender dele; de como perceber e  cultivar a intuição; de como conhecer a importância das forças opostas, sempre presentes na vida; de como aprender a confiar; de como se transformar; de como assumir o milagre do desabrochar; de como não se deixar capturar por armadilhas; de como zelar pela ecologia interna; de como renascer e renovar-se; de como recuperar a sexualidade sagrada; da relação raiva/perdão como processo de crescimento; da expiação necessária;  e, numa síntese final, a busca e o encontro consigo mesmo.

Mas não termina aí. Ela nos alerta, ainda, que Mulheres que correm com lobos não é apenas um livro, mas uma caixa preciosa de bálsamos medicinais, em formato de histórias, e nos deixa recomendações prosaicas, que tão facilmente esquecemos, ao nos tornarmos “borrões de atividades”, sintoma que ela diagnostica na introdução ao texto.  Descanse! Perambule! Seja leal! Apure os ouvidos! Faça amor! Uive sempre! – são apenas alguns de seus generosos alertas.

Sempre iniciei os grupos de leitura e as oficinas que coordeno ressaltando que não estávamos propondo, ali, um trabalho de terapia de grupo, mas que era inegável reconhecer que o processo que viveríamos seria terapêutico, independentemente de qualquer intencionalidade. E constatar, em centenas de pessoas, os efeitos transformadores da leitura deste livro, me faz vir a público, aclamá-lo, uma vez mais.

Clarissa diz que aprendeu muito com o estudo dos lobos, identificando, na semelhança que há entre seus comportamentos e atitudes com os da mulher selvagem, o quanto é urgente a preservação da força vital, da natureza instintiva. Daí a escolha do nome do livro, que é um convite a que nos juntemos à alcateia a que pertencemos e da qual, talvez, tenhamos andado apartadas, perdendo nosso poder coletivo, que é, a um só tempo, estímulo e proteção.

Maria Inez do Espírito Santo é escritora, autora de Vasos Sagrados – mitos indígenas brasileiros e o encontro com o feminino – Ed. Rocco

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