romance-Brasil: um exercício

por Natalie Araujo Lima
8 de dezembro de 2014


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Imagem de Rodrigo Paiva/RPCI

Se o cenário brasileiro contemporâneo tivesse que ser traduzido em literatura, ele seria um romance. Não um do tipo realista, desses que ainda lotam as prateleiras das livrarias e os corredores das feiras. Esse romance – nós, um romance – também não seria naturalista, nem fantástico, nem novo. Para lê-lo, teríamos que admitir uma superfície em que tudo, ou quase tudo, cabe, como fizeram Laurence Sterne, Robert Musil, Roland Barthes e Roberto Bolaño, entre tantos outros escritores que se dispuseram a pensar o romance menos como gênero do que como buraco negro dos demais gêneros, buraco negro amoroso e feroz. Pensemos então no romance como um animal informe que tudo come, algo que já é e nunca foi, maneira razoavelmente organizada de exprimir o caos.

O romance-Brasil é também assim, um acúmulo sem fim de digressões, pequenas e grandes mentiras, políticas econômicas mais ou menos mal sucedidas, políticas sociais mais ou menos bem-sucedidas, festa junina em Petrolina, intelectuais cínicos, intelectuais engajados, artistas interessados, obras de arte interessantes, rios que secam, baixo índice de desemprego, espaço crítico em franca decadência, grande imprensa apodrecida e vociferante como um papa de Bacon, salário mínimo com poder de compra, movimentos sociais em geral ignorados e/ou demonizados, movimento LGBT cada vez mais bem organizado, homens cordiais, mulheres mais ou menos cordiais que os homens, populações indígenas desrespeitadas e assassinadas, agricultura orgânica em (lenta) expansão, Estado que recua, florestas deglutidas, toneladas de soja e de carne de boi para exportação, doses letais de inseticida e de tiros, bondes funkeiros geniais, bondes de Santa Teresa sucateados até a morte de um motorneiro e de algumas outras vítimas do Estado, grandes cidades intransitáveis, favelas transformadas na Disneylandia do precário ou removidas em nome de uma maravilha portuária, massacres nos Carajás, nas Candelárias, nos Palmares, Estado que avança, lideranças esmagadas no campo, parangolés libertadores de corpos, abraçaços de um Caetano que entoa mantras pelo império da lei no Pará.

O romance-Brasil é polifônico, desses em que é tanta gente falando, que nós, leitores de nós mesmos, nos perdemos, como num labirinto cheio de sons. Se formos espertos, entenderemos que já não se trata de buscar uma síntese-Brasil, mas de saber transitar escorregando, de ouvir profusões de acordes com alguma boa vontade para escolher mais de uma direção ao mesmo tempo. “Só podemos atender ao mundo orecular”, diz Oswald de Andrade no Manifesto antropófago. Oswald sabia das coisas. Acho que porque o labirinto-Brasil nunca foi de fato arquitetônico, mas sonoro, musical, tropical, selvagem, careta, arrojado, ultraurbanizado e rural, tudo ao mesmo tempo. Talvez soframos de uma labirintite intermitente, doença que começa no ouvido e interrompe o equilíbrio do corpo, provoca tontura e chega a turvar a vista. Mas esse é o romance que somos: espaço-publicaos de todos, de ninguém, de qualquer um.

Brasil em movimentoComo, então, tentar ouvir as ruas a partir de junho de 2013 se não partindo do princípio de que muitas vozes requerem muitos ouvidos? Brasil em movimento – Reflexões a partir dos protestos de junho faz isso. Organizado por Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, o livro reúne entrevistas e artigos de líderes políticos, arquitetos, acadêmicos e artistas – entre os quais estão Maria Lucia Montes, André Sant’anna, Ana Luiza Nobre, Marcelo Freixo, Jorge Mautner e João Pedro Stédile – para compor um mosaico de escutas que ajudam a pensar não apenas os significados das manifestações, mas as condições para que elas acontecessem, assim como suas implicações a curto e longo prazos. Feitos no calor da hora, os artigos e as entrevistas apontam para a impossibilidade de se ouvir a voz do Brasil, como boa parte da classe política e da grande imprensa quis nos fazer acreditar que ainda existia (se é que um dia existiu), até mesmo quando uma certa ausência de lideranças nas manifestações ficou palpável e preocupou muita gente. Sobretudo, o livro aponta para a carência de debates que, em certa medida, olhem para a cena contemporânea: não somos Um, não somos o gigante que acordou, não estamos, em coro simplório, “contra tudo isso que está aí”, não cantamos glória à festa da democracia para deixar menos sem jeito o William Bonner, na bancada do Jornal Nacional, enquanto o pau come nas ruas. Somos tantos: black-blocs, coxinhas, milhões de coxinhas, amarildos, novas classes médias, mídias ninjas, policiais infiltrados; somos sem-partido, com-partido, vândalos, não-vândalos, manifestantes, policiais-porradeiros-portadores de gás, Movimento Passe Livre, índios, não-índios, padres, negros, bichas, mulheres, adolescentes, petralhas, tucanos, sininhos, grevistas. “Anota aí, eu sou ninguém.”

Mais de um ano após os protestos de junho de 2013, a ausência de debates fez com que as muitas vozes – a maioria delas gaguejantes ou indiscerníveis entre si – acabassem se dividindo em dois grandes coros no segundo turno das eleições presidenciais: o da moral e o da ética. De um lado, a grande mídia e os eleitores de Aécio Neves, incluindo ele próprio, falavam em verdade, ordem e progresso, em risco de comunismo e/ou bolivarismo. Um neoudenismo se fazia ouvir em um tom de ódio coralizado como há muito não acontecia. E o ódio, Nietzsche ensinou, é pai e mãe da moral. Do outro lado, as esquerdas, que fazem justa oposição ao governo de Dilma Rousseff, tiveram que admitir que ruim com ela, pior sem ela, e que para evitar uma guinada à direita, era preciso declarar, em alto e bom som, serem eleitoras da continuidade: “To the left, to the left”.

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Detalhe de “Imagem da violência” (1968), de Antonio Manuel.

Terminadas as eleições, com a vitória apertada de Dilma, é mais fácil continuarmos pensando num país dividido, em duas grandes vozes, dois grandes narradores, e fim de papo. Assim temos a impressão de que a multiplicidade dos protestos está bem representada nessa divisão. Mas ela não está. Reiteramos, mesmo achando que não o fazemos, que há um discurso a escolher, um gigante que dorme, uma forma de fazer política, só que já não é tão simples. O romance-Brasil é um campo minado de forças em múltiplas direções. Como, então, saber aonde ir? Termino com outra citação de Oswald, em tom de protesto-proposta:

“Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.”

Natalie Araujo Lima é jornalista e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio.

 

TAGS: Brasil em movimento, manifestações, política, protesto,

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