Rindo da desgraça alheia

Por Bruno Cobalchini Mattos*
30 de junho de 2016


Welsh-Irvine-madder-headshots-bw-c-Rankin

Pedófilos, viciados, assassinos. Sádicos, estupradores, depravados. Cafetões, traficantes, estelionatários. A obra de Irvine Welsh, escritor escocês e convidado da 14ª Festa Literária Internacional de Paraty, caracteriza-se por apresentar ao leitor os arquétipos mais repulsivos das grandes cidades britânicas. Em uma leitura despreocupada de seus livros (e é seguro falarmos em “livros”, no plural, pois há uma recorrência de personagens, que entram e saem de cena com certa liberdade, às vezes com décadas de intervalo, sugerindo que todos pertencem ao mesmo universo ficcional), pode-se pensar que este rol de criminosos e pervertidos de código moral flexível não têm outro objetivo senão chocar o leitor e diverti-lo com o humor ácido de suas passagens absurdas. Mas, por trás da sórdida camada de inconsequência e egoísmo, esconde-se um retrato visceral do mundo urbano contemporâneo.

Não é por acaso que a maior parte dos romances de Welsh se situa na Escócia dos anos 1980. Crítico feroz das políticas neoliberais adotadas pelo governo britânico de então, o autor destrincha em alguns de seus livros o que havia de pior no período – sobretudo na trilogia formada por Skagboys, Trainspotting e Pornô. Em meio às cenas perversas e escatológicas perpetradas por seus narradores-protagonistas, vislumbramos as consequência daquele ambiente político no cotidiano de Edimburgo: a repressão policial durante as greves (na abertura de Skagboys), a falta de perspectiva da população de modo geral, a cultura de violência urbana e a epidemia de drogas que se espalhava, sobretudo, entre os jovens da classe operária. A hipocrisia, enfim, de uma comunidade puritana nos costumes, mas não em seus atos.

Trainspotting e Pornô tiveram novas edições lançadas agora em junho

Trainspotting e Pornô tiveram novas edições lançadas agora em junho

Todos esses elementos colaboram para construir uma análise crítica daquela sociedade a partir de um ponto de vista muitas vezes ignorado: o daqueles que não conseguem (ou não querem) se adequar a ela. O enfoque incide sobre a própria forma da escrita, marcada por uma reconstituição cuidadosa da dicção, das gírias e da pronúncia das ruas dos bairros periféricos de Edimburgo – um registro informal e espontâneo que possibilita que assuntos de grande importância e seriedade possam ser abordados a partir de um viés profundamente cômico, fazendo com que o leitor se sinta culpado por rir de comentários condenáveis sob todos os aspectos. Essa reflexão posterior é parte do que torna os livros de Welsh tão impactantes.

Ao empregar essa voz que é marginal, por ser típica de uma classe pouco abastada e de uma nação historicamente subjugada, o escritor deixa entrever uma postura política radicalmente antiautoritária. Por vezes, esse posicionamento tende ao anarquismo, como nos pensamentos raivosos de Mark Renton em Trainspotting: “Nunca senti porra nenhuma por países, a não ser nojo. Deviam abolir a existência de todos eles. Matar cada político parasita filho da puta que subisse em algum lugar e gritasse mentiras e banalidades fascistas usando um terno e um sorriso bajulador.”

Claro que essa citação deve ser relativizada, pois foi extraída de um romance composto por um mosaico de fragmentos e narradores com vozes e visões de mundo idiossincráticas e, muitas vezes, divergentes. Contudo, ela serve para demonstrar uma constante na obra do autor: personagens cujas ações são motivadas – e moralmente justificadas – por uma repulsa ao contexto em que vivem. Da maneira como é apresentada nos livros de Welsh, esta conduta auto condescendente surge, a um só tempo, como reflexo e causa do caos social. Alguns personagens têm plena consciência disso, mas, ainda assim, são incapazes de romper com este círculo vicioso, e suas reações oscilam entre o niilismo e o desespero.

A vida sexual das gêmeas siamesas é o mais novo lançamento do autor

A vida sexual das gêmeas siamesas é o mais novo lançamento do autor no Brasil

Seria possível argumentar que a paisagem ficcional de Welsh é específica ao contexto escocês (uma exceção é seu último lançamento, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, que se passa em Miami). A recente globalização da economia, todavia, foi acompanhada de uma internacionalização das relações interpessoais, dos hábitos de consumo e das formas de descrença. O próprio escritor afirmou em uma entrevista que, em suas narrativas, “os cenários são específicos a um lugar e um período, mas os personagens são universais”. Não se surpreenda, portanto, se, ao ler os romances de Welsh, os degenerados incorrigíveis que povoam suas páginas soarem mais familiares do que você esperava.

Bruno Cobalchini Mattos é tradutor e jornalista.

TAGS: Edimburgo, Flip, Irvine Welsh, Pornô, Rocco, Skagboys, Trainspotting,

Comentários sobre "Rindo da desgraça alheia"

  1. Outro romance que se passa em Miami é o “Crime”, também publicado pela Rocco.
    Eu li este “A Vida Sexual das…” e achei o pior romance dele, especialmente nas resoluções finais.
    Agora, eu esperava que a Rocco finalmente publicasse “Filth”, “Glue”, “Marabou Stork Nightmares” e “The Acid House”.

Deixe uma resposta para Murilo Colares Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado.
Campos obrigatórios são marcados *