Resistência e o lembrar

A autora Heliete Vaistman escreve sobre a importância de obras de ficção que relembrem o terror do Holocausto
17 de março de 2017


Resistencia

A tenacidade com a qual recorrem à imaginação e à fantasia ajuda Pearl e Stasha, as gêmeas de 12 anos que chegam ao campo de extermínio de Auschwitz em 1944, com a mãe e o avô, a atravessarem a sequência de horrores que percorre o romance Resistência. Poucos sobreviventes reais restam vivos, e a ficção torna-se hoje um meio privilegiado de transmitir aquilo que não deve permanecer oculto. Ao desembarcar dos trens em Auschwitz, as pessoas esperavam o pior, mas desconheciam que os esperava algo muito pior que o pior, algo indescritível. Se só os mortos, os que não voltaram, poderiam dar o testemunho verdadeiro, como disse o italiano Primo Levi, sobrevivente e escritor canônico, compartilhar o “indizível” é parte de uma obrigação moral e política; pela ficção, nos aproximamos de linhas que pareceriam inalcançáveis.

Ninguém garante que a transmissão impedirá novos massacres, já que a barbárie não obedece à voz da razão. Mas é preciso insistir nos relatos, como faz Affinity Konar, a autora de Resistência. Konar se inspira livremente na história real de Eva e Miriam Mozes, irmãs que sobreviveram, com enormes sequelas, às experiências sádicas comandadas pelo médico Josef Mengele no “Zoológico”, um prédio de Auschwitz onde todas as formas de crueldade eram testadas (até unir gêmeos pelas veias, para tentar transformá-los em siameses, Mengele fez; cegou e aleijou crianças, matou outras de fome, abriu barrigas sem anestesia, manteve jovens em jaulas para observar e anotar suas reações…).

O Holocausto não foi o acontecimento marcante do século 20 por ter aplicado métodos mais atrozes que os de outros genocídios, mas porque nele se combinaram pela primeira vez a tecnologia, a organização em escala industrial, o fanatismo e as teorias de eugenia com a finalidade de eliminar, em tempo reduzido, a maior quantidade possível de vidas. Antes da morte, a desumanização pela fome, pelos andrajos, pela humilhação. O rebaixamento de carrascos e vítimas à abjeção, no coração da Europa mais culta e orgulhosa, deixou marcas permanentes.

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Quando os prisioneiros, em estado de prostração completa, antes ansiavam que temiam a morte, a dignidade já desaparecera. À distância no tempo e no espaço, porém, o texto de Konar ressalta a resistência do decoro humano. É uma escrita em que o leitor se agarra à esperança. As frestas mostram luz. A poesia recitada intimamente, a imagem da boneca um dia costurada pela mãe, os detalhes líricos, o cuidado que prisioneiros em situação de algum controle têm com outros, tudo indica que sempre haverá motivos para não desistir. Buscar saídas, reais ou metafóricas, é um direito da mente em todas as situações.

Os capítulos do livro contrapõem a perspectiva de cada uma das gêmeas, Stasha extrovertida, Pearl mais contida. Ao lado delas desfilam todos os tipos de gente, como a médica obrigada a participar dos “tratamentos” impostos por Mengele, e que se apega às pequenas vítimas depois de ter perdido os filhos. Pearl um dia desaparece do campo, e após a liberação pelo exército soviético, Stasha, sem saber se a irmã continua viva, atravessa à sua procura, em companhia de outro jovem sobrevivente, a Polônia em ruínas. É uma travessia às vezes surreal, com riscos imensos, em meio a civis desesperados e soldados famintos, durante a qual ambos idealizam planos de vingar-se de Mengele (que morreria no litoral de São Paulo, em 1979, por afogamento aparentemente acidental).

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A ideia de vingança é abandonada quando os sobreviventes entendem que precisam reaprender a amar o mundo se quiserem continuar a viver. Tanto a fraternidade quanto a experiência coletiva resgatam o humano nos personagens, e também o leitor sai do texto uma pessoa diferente (melhor, talvez?) do que quando entrou. Foram homens e mulheres de aparência comum, e não loucos furiosos, que banalizaram o Mal. Reconhecendo isso, é preciso continuar a escrever as cinzas, negar a negação, buscar o Bem e priorizar a ética para que a morte não dê a palavra final. Qual ética? Segundo outro escritor canônico, o espanhol Jorge Semprun, que foi prisioneiro do campo de Buchenwald, “uma ética que se libere para sempre das teodicéias e das teologias….posto que Deus é inocente do Mal”.

*Heliete Vaistman é jornalista e escritora, autora de O cisne e o aviador.

TAGS: Affinity Konar, Auschwitz, Gêmeas, Heliete Vaistman, Holocausto, Josef Mengele, Nazismo, Resistência,

Comentários sobre "Resistência e o lembrar"

  1. Rocco , sei que tá cedo , mas , vocês vão lançar a edição ilustrada de Animais fantásticos e onde habitam no brasil em 2018 ou em outro ano ? e que tal lançar os livro de hp pedra filosofal a relíquias da morte em capa dura ? .

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