Prosa a 100 km por hora

por Kelvin Falcão Klein
19 de março de 2018


Não há dúvida que o escritor escocês Irvine Welsh, nascido em 1958 e autor do clássico Trainspotting, alcançou algo que boa parte dos autores deseja: um estilo imediatamente reconhecível, uma espécie de impressão digital que se espalha pelas frases, pelos diálogos e pelas cenas construídas. Basta abrir a primeira página de seu novo romance, Uma boa corrida, para identificar os traços distintivos de sua prosa. Mais do que identificar, eu diria que tais traços distintivos atacam o leitor, dominando a atenção e ferindo suas suscetibilidades.

Uma boa corrida, lançado em inglês em 2015, conta a história de Terry Lawson, personagem que os leitores mais dedicados de Welsh reconhecerão de um romance anterior, Glue, de 2001. As peripécias de Lawson são as mais diversas, envolvendo sempre álcool, drogas e sexo, e sua profissão (motorista de táxi) é um importante dispositivo narrativo para Welsh, permitindo a mobilidade constante do personagem. Abruptamente, um sério problema no coração tira Lawson de seu circuito habitual de exageros, e ele começa a frequentar reuniões de “viciados em sexo”. Aqui está a visão de Lawson quando chega pela primeira vez na reunião: “É um lugar sujo pra caralho e meio fedido; deve ter havido um casamento aqui outro dia. As cadeiras estão dispostas em semicírculo ao redor de um babaca, que se apresenta como Glen. Há umas vinte pessoas na sala, cerca de quinze são homens. Não vou arrumar porra nenhuma aqui! E como sou carne nova no pedaço, todos os olhos estão sobre mim, principalmente os do puto do Glen.”

Além dos diálogos rápidos e coloquiais, com suas cenas frequentemente feitas de violência e confronto, Walsh também investe no que poderíamos chamar de inovações tipográficas. Em Uma boa corrida, como em outros romances, Welsh faz uso de diferentes tipos de fonte, variando o registro material dos diálogos e das informações. Usa também a caixa alta e por vezes interfere na formatação dos caracteres na página, dando formas singulares ao corpo do texto. Tudo isso serve para marcar, na materialidade das letras no papel, o estado de vertigem e confusão dos personagens no andamento da história. A narrativa de Welsh é instável como é instável a vida física e mental de seus personagens, em sua grande maioria indivíduos vivendo à margem das regras sociais e econômicas das grandes cidades.

É também possível reconhecer em Uma boa corrida a relação de Welsh com o cinema (muitos de seus romances foram adaptados e ele próprio trabalha como roteirista), especialmente na montagem que faz das cenas e na variação do ponto de vista da narração. O romance acompanha não só Lawson, mas também dois outros personagens, Wee Jonty (cuja namorada, Jinty Magdalen, está desaparecida) e Ronald Checker, um milionário inescrupuloso (baseado livremente em Donald Trump). Ao longo do romance, Lawson concorda em ajudar Jonty a encontrar sua namorada, e à medida que a investigação se desenvolve o papel de Checker no desaparecimento vai se tornando mais e mais evidente. Com Uma boa corrida, Welsh reúne duas estratégias que podem gerar um bom romance: um cuidado com a renovação e ventilação da língua (relacionando a escrita com a fala cotidiana); e também o desenvolvimento de uma trama feita de sucessivas surpresas, prendendo a atenção do leitor.

* Kelvin Falcão Klein é crítico literário e professor de literatura na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.

TAGS: artigo, Irvine Welsh, Uma boa corrida,

Comentários sobre "Prosa a 100 km por hora"

    • Olá, Kelly.
      Tivemos que interromper nosso processo de recebimento de originais para reformulação.
      Assim que possível esperamos reabrir o processo.
      Obrigado pelo contato e pelo interesse!
      Sucesso

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